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Cápsula do tempo com mais de 400 mil anos é encontrada sob quilômetros de gelo da Groenlândia: cientistas acham fósseis intactos, revelando que o Ártico já teve florestas e uma paisagem verde muito diferente da que conhecemos hoje

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Escrito por Ana Alice Publicado em 12/03/2026 às 08:24
Assista o vídeoFósseis sob o gelo da Groenlândia revelam vegetação antiga e reforçam evidências sobre a fragilidade da calota polar. (Imagem: Ilustrativa)
Fósseis sob o gelo da Groenlândia revelam vegetação antiga e reforçam evidências sobre a fragilidade da calota polar. (Imagem: Ilustrativa)
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Estudos com sedimentos preservados sob a calota da Groenlândia reacenderam o debate científico sobre a estabilidade do gelo e trouxeram novos vestígios de paisagens antigas, com impacto direto na compreensão da história climática da Terra.

Fósseis de plantas, fungos e partes de insetos preservados sob a camada de gelo da Groenlândia reforçaram evidências de que áreas hoje cobertas por gelo espesso já ficaram sem essa cobertura em um passado geologicamente recente.

Em parte das amostras estudadas em Camp Century, no noroeste da ilha, a datação indicou exposição à luz solar há cerca de 416 mil anos.

As amostras, reexaminadas por equipes de universidades dos Estados Unidos, da Dinamarca e de outros países, preservaram vestígios de tundra em estado incomum de conservação.

Segundo os pesquisadores, esse conjunto de evidências sugere que não apenas áreas periféricas, mas também setores mais amplos da camada de gelo podem ter ficado expostos em intervalos relativamente recentes da história climática da Groenlândia.

Fósseis sob o gelo da Groenlândia

Dois estudos concentram a base desse debate científico.

O primeiro, publicado em 2021, analisou sedimentos congelados retirados em 1966 sob quase 1,4 quilômetro de gelo em Camp Century.

Nesse material, os pesquisadores identificaram galhos, folhas, musgos e outros restos vegetais preservados no fundo do núcleo.

Já o segundo trabalho, divulgado em 2024, examinou poucos centímetros de solo do fundo do núcleo de gelo GISP2, perfurado em 1993 no centro da Groenlândia.

Nessa análise, foram descritos madeira de salgueiro, fungos, uma semente de papoula-do-ártico e partes de insetos.

Para os autores, os achados indicam que não só a borda, mas também áreas mais internas da cobertura de gelo já ficaram livres dessa camada.

Esse ponto alterou o peso da evidência disponível.

Até então, a hipótese de que a Groenlândia teria perdido gelo de forma ampla em períodos relativamente recentes se apoiava, em grande parte, em modelos e sinais geoquímicos.

Com a identificação de macrofósseis preservados, os estudos passaram a apresentar evidências diretas de solo exposto e de vegetação em áreas que hoje permanecem sob uma espessa cobertura de gelo.

Preservação dos sedimentos em Camp Century

A conservação dos materiais está relacionada ao ambiente em que eles permaneceram selados.

No caso de Camp Century, os restos orgânicos ficaram congelados na base do núcleo e protegidos de processos rápidos de decomposição.

Essa condição permitiu que estruturas vegetais delicadas continuassem reconhecíveis ao microscópio e, em alguns casos, visíveis a olho nu.

Ao divulgar os resultados de 2021, a Universidade de Copenhague informou que se tratava dos primeiros macrofósseis recuperados sob a camada de gelo da Groenlândia grandes o suficiente para serem observados sem microscópio.

O dado foi destacado pelos pesquisadores como um indicativo da preservação incomum do material.

Outro elemento decisivo foi a redescoberta das amostras.

O sedimento perfurado em 1966 não havia sido estudado em profundidade na época e passou por diferentes instalações de armazenamento até ser reencontrado e reavaliado com técnicas mais recentes.

Por isso, uma amostra coletada há décadas só ganhou destaque científico depois de ser submetida a novos métodos de análise.

Datação dos fósseis e nova cronologia

A primeira análise já indicava que o gelo havia recuado em algum momento dentro do último milhão de anos.

Depois, um estudo publicado na revista Science, em 2023, refinou essa estimativa.

Com o uso de datação por luminescência, a equipe concluiu que a camada superior do sedimento subglacial de Camp Century foi exposta pela última vez à luz solar há 416 mil anos, com margem de erro de 38 mil anos.

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Os autores associaram esse intervalo ao estágio isotópico marinho 11, um período interglacial prolongado.

Em Camp Century, os pesquisadores descrevem sinais de tundra com vegetação, incluindo musgos, líquens e, em algumas reconstruções, a possível presença de árvores como abetos e pinheiros.

No centro da ilha, o material analisado em 2024 também foi interpretado como indicativo de uma paisagem de tundra verde.

O que os estudos indicam sobre a calota da Groenlândia

Os estudos convergem em um aspecto: a camada de gelo da Groenlândia pode ser mais sensível a mudanças climáticas do que parte da literatura científica supunha anteriormente.

Em 2021, a equipe que analisou Camp Century concluiu que o local ficou sem gelo ao menos uma vez dentro do último milhão de anos.

Três anos depois, o trabalho com o núcleo GISP2 acrescentou uma evidência direta de que o centro da Groenlândia também perdeu gelo em um passado geologicamente recente.

(Imagem: Paul Souders/Getty Images)
(Imagem: Paul Souders/Getty Images)

Com isso, ampliou-se o alcance da interpretação científica.

A leitura anterior, em parte dos modelos, tratava a cobertura de gelo como uma estrutura mais estável ao longo de intervalos prolongados.

Os novos achados, segundo os pesquisadores, indicam que a história da calota é mais dinâmica do que se estimava.

Ainda assim, os estudos não definem, por si só, um prazo para uma eventual perda ampla de gelo no futuro.

O que os autores afirmam é que a Groenlândia respondeu de forma expressiva a períodos naturais de aquecimento no passado.

Por essa razão, esse tipo de evidência tem sido incorporado ao debate sobre projeções futuras da criosfera e do nível do mar.

Impacto no debate climático e no nível do mar

A relevância desses fósseis está ligada ao papel da Groenlândia no sistema climático global.

As equipes envolvidas nas pesquisas lembram que a camada de gelo da ilha armazena volume suficiente para elevar o nível do mar em cerca de 7 metros, caso ocorra derretimento quase completo.

Nesse contexto, a comprovação de que amplas áreas já ficaram sem gelo em um passado relativamente recente passou a ser tratada como um dado importante para a revisão de cenários climáticos de longo prazo.

Ao mesmo tempo, o material preservado sob o gelo também ampliou o conhecimento sobre ecossistemas antigos da região.

Como amostras subglaciais desse tipo são raras, cada fragmento de semente, madeira ou fungo ajuda a reconstruir não apenas momentos de retração do gelo, mas também as condições ambientais que existiram na Groenlândia antes do avanço da calota.

Esses estudos, portanto, têm sido usados por pesquisadores para entender a relação entre clima, cobertura de gelo e paisagem ao longo do tempo geológico.

O interesse científico se concentra tanto na história climática quanto nos registros de vida preservados sob uma das maiores massas de gelo do planeta.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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