Pedra com inscrição luvita descoberta em um canal de irrigação em 2018 levou arqueólogos a identificar um gigantesco sítio arqueológico de 125 hectares na planície de Konya, possivelmente a capital perdida do Império Hitita.
Descoberta em canal de irrigação na Turquia revelou estela antiga que mudou a arqueologia da Anatólia: No inverno de 2018, um fazendeiro turco realizava um trabalho comum em sua propriedade agrícola próxima à aldeia de Türkmen-Karahöyük, localizada na ampla planície de Konya, no centro-sul da Turquia. A atividade era rotineira: dragar sedimentos acumulados em um canal de irrigação que abastecia os campos. Durante o trabalho com o maquinário pesado, a lâmina da escavadeira bateu em algo sólido. Não era uma rocha comum. Quando o sedimento foi removido, apareceu uma pedra grande coberta por gravuras antigas que pode revelar Tarhuntassa.
No ano seguinte, durante a temporada de escavações arqueológicas de 2019, o fazendeiro comentou casualmente sobre o achado a uma equipe internacional de pesquisadores que trabalhava na região. O grupo era liderado pelo professor James Osborne, da Universidade de Chicago, responsável por estudos arqueológicos na planície de Konya. Ao ouvir a descrição, Osborne decidiu verificar imediatamente.
“Corremos direto para lá, e conseguíamos ver a pedra ainda saindo da água. Então pulamos direto no canal — entramos até a cintura para examinar”, relatou o arqueólogo posteriormente.
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O objeto encontrado era uma estela antiga — e sua inscrição revelaria algo inesperado. A descoberta de uma única pedra em um canal agrícola acabaria levando arqueólogos à identificação de uma das maiores cidades antigas já encontradas na Anatólia.
Estela com inscrição luvita revelou o nome de um rei desconhecido e revelação de Tarhuntassa
A pedra encontrada no canal era uma estela monumental, um tipo de bloco de pedra usado na Antiguidade para registrar proclamações reais, conquistas militares ou eventos políticos importantes. As inscrições gravadas na superfície estavam escritas em luviano hieroglífico, uma língua antiga do ramo indo-europeu utilizada na Anatólia durante a Idade do Bronze e da Idade do Ferro.
Essa língua desapareceu há mais de dois mil anos.
James Osborne não era especialista nesse idioma, mas a sorte estava ao seu lado. No mesmo departamento da Universidade de Chicago trabalhavam dois dos maiores especialistas mundiais em línguas hititas e luvitas: Petra Goedegebuure e Theo van den Hout, responsáveis pela edição do renomado Dicionário Hitita de Chicago.

Quando a inscrição foi traduzida, revelou algo surpreendente. O texto mencionava um governante chamado Hartapu, que se autodenominava “Grande Rei”, título reservado a soberanos de grande poder no mundo antigo.
A inscrição descrevia conquistas militares do rei, incluindo a derrota do reino de Muska, conhecido posteriormente pelos gregos como Frígia, terra associada ao lendário rei Midas. Segundo Osborne, a descoberta trouxe informações inesperadas sobre a história da região.
“Em um instante, tínhamos informações novas e profundas sobre o Oriente Médio da Idade do Bronze. Não tínhamos ideia da existência desse reino.”
A estela foi retirada do canal com a ajuda de um trator pertencente ao próprio fazendeiro, transportada para um museu regional e posteriormente limpa, documentada e fotografada.
Türkmen-Karahöyük: a colina artificial que escondia uma cidade gigantesca
O local onde a estela foi encontrada tornou a descoberta ainda mais impressionante. A pedra estava às margens de uma colina artificial conhecida como Türkmen-Karahöyük, um grande montículo arqueológico formado por camadas acumuladas de ocupação humana ao longo de milhares de anos. Esse tipo de formação é conhecido na arqueologia como tell.
Türkmen-Karahöyük possui cerca de 35 metros de altura e se destaca na planície de Konya como o maior montículo arqueológico da região relacionado às Idades do Bronze e do Ferro. Apesar de sua dimensão, o sítio arqueológico nunca havia sido escavado de forma sistemática.
Ele foi identificado apenas em 2017 pelo Projeto de Levantamento Regional de Konya (KRASP), liderado por Michele Massa, do British Institute at Ankara, e Christoph Bachhuber, da Universidade de Oxford. Até então, o local não aparecia em estudos arqueológicos aprofundados. Quando a equipe iniciou um levantamento detalhado da superfície — utilizando drones, fotografia aérea e coleta sistemática de fragmentos de cerâmica — percebeu algo surpreendente.
O sítio não era apenas grande. Era gigantesco.
Cidade antiga de 125 hectares revela um dos maiores centros urbanos da Anatólia
As análises dos fragmentos cerâmicos encontrados na superfície mostraram que o local foi ocupado continuamente desde o Calcolítico tardio, por volta de 4.500 a.C. Isso significa mais de seis mil anos de ocupação humana no mesmo ponto geográfico. Durante a Idade do Bronze Tardio, entre aproximadamente 1650 e 1200 a.C., o assentamento cresceu rapidamente.
A área urbanizada quadruplicou e alcançou pelo menos 125 hectares. Para efeito de comparação, a Cidade Velha de Jerusalém possui cerca de 90 hectares. Türkmen-Karahöyük era significativamente maior. Segundo Michele Massa, codiretor das pesquisas, os materiais encontrados indicam que o local foi um importante centro político e econômico.
A superfície do sítio contém grande quantidade de cerâmica fina associada a elites governantes, além de evidências de destruição violenta, como camadas de tijolos queimados e pontas de flechas encontradas entre cinzas. Esses sinais sugerem que a cidade sofreu ao menos um grande ataque militar ao longo de sua história.
Entre os objetos encontrados estão:
- selos administrativos com cerca de 4.000 anos
- restos de macacos enviados como presentes diplomáticos por faraós egípcios há cerca de 3.700 anos
- grãos de trigo e cevada com 3.000 anos de antiguidade
- uma caneta de escrita feita de osso animal com cerca de 2.000 anos
Esses artefatos indicam intensa atividade administrativa e comercial.
A possível ligação com Tarhuntassa, capital perdida do Império Hitita
A importância de Türkmen-Karahöyük se torna ainda maior quando se considera um episódio central da história do mundo antigo. Por volta de 1274 a.C., ocorreu a famosa Batalha de Kadesh, travada entre dois grandes impérios da época: o Egito de Ramsés II e o Império Hitita governado por Muvatali II.
Esse confronto é considerado o maior choque de carros de guerra da história antiga, envolvendo milhares de veículos militares. A batalha também resultou no primeiro tratado de paz documentado da história, cujo texto hoje está exposto na sede das Nações Unidas em Nova York. Antes de marchar para essa batalha, Muvatali II tomou uma decisão estratégica: transferiu a capital do Império Hitita de Hattusha, no norte da Anatólia, para uma nova cidade no sul chamada Tarhuntassa.

A mudança aproximava o centro político da fronteira síria e ao mesmo tempo afastava a capital das ameaças vindas do norte. Após a morte de Muvatali II, a capital voltou para Hattusha. Tarhuntassa tornou-se então um reino vassalo governado por Kurunta, filho do antigo rei. Durante décadas, arqueólogos tentaram localizar a posição exata dessa cidade. Ela permaneceu perdida.
Evidências arqueológicas sugerem que Türkmen-Karahöyük pode ser Tarhuntassa
A identificação definitiva ainda não foi confirmada, mas as evidências apontam fortemente para a possibilidade de que Türkmen-Karahöyük seja a antiga Tarhuntassa. O sítio está localizado na mesma região descrita nos tratados hititas como área de fronteira entre diferentes territórios administrativos.
Além disso, a expansão urbana do local coincide cronologicamente com o período em que Tarhuntassa teria funcionado como capital imperial. Outro fator importante é a inscrição do rei Hartapu, encontrada a apenas 13 quilômetros do sítio, nas montanhas sagradas de Kızıldağ. Hartapu também utilizava o título de “Grande Rei”, o que sugere uma conexão direta com a tradição real de Tarhuntassa.
Com 125 hectares, Türkmen-Karahöyük provavelmente foi o maior centro urbano da Anatólia central antes da fundação da cidade moderna de Konya. Segundo Osborne, o potencial arqueológico do local é imenso.
“Dentro desse montículo há palácios, monumentos e casas. A estela foi uma descoberta maravilhosa — mas é apenas o começo.”
Descoberta foi feita quase sem escavações graças a tecnologia arqueológica moderna
Um dos aspectos mais impressionantes dessa descoberta é que ela ocorreu praticamente sem escavações tradicionais. Os arqueólogos utilizaram uma série de técnicas modernas de investigação não invasiva, incluindo:
- levantamento sistemático de superfície
- fotografia aérea de alta resolução com drones
- análise de imagens de satélite
- magnetometria
- resistividade elétrica do solo
Essas ferramentas permitem mapear estruturas enterradas sem remover o solo. Com essas tecnologias, os pesquisadores conseguiram mapear uma cidade de 125 hectares praticamente sem escavar uma única pá de terra. Segundo a arqueóloga Gonca Dardeniz Arıkan, da Universidade de Istambul, os artefatos encontrados revelam sistemas administrativos altamente organizados.
“Estamos observando sistemas econômicos de 3.500 anos atrás. Comerciantes utilizavam selos e fichas de contabilidade de forma muito semelhante às práticas comerciais modernas.”
Próxima etapa pode confirmar a identidade da capital perdida dos hititas
As escavações completas em Türkmen-Karahöyük ainda estão em andamento. Uma das etapas mais importantes da pesquisa envolve a coleta de amostras de argila do sítio para comparar com tabletes e selos encontrados em Hattusha, a antiga capital hitita.
Esses artefatos são conhecidos por terem sido produzidos em Tarhuntassa. Se as assinaturas geológicas das argilas coincidirem, a identificação de Türkmen-Karahöyük como Tarhuntassa deixará de ser uma hipótese e se tornará um fato arqueológico consolidado. Caso isso aconteça, a história da descoberta terá um protagonista improvável.
Um fazendeiro que dragava um canal de irrigação no inverno de 2018 poderá ser lembrado como o responsável por revelar uma das maiores cidades perdidas da Anatólia antiga.


Fascinating, but what poor English!