Camarão-gigante-da-Malásia já foi registrado em 68 áreas naturais e protegidas do Brasil, com reprodução confirmada e risco crescente para ecossistemas costeiros.
Segundo estudo publicado na revista Estuaries and Coasts e liderado por Edison Barbieri, do Instituto de Pesca de São Paulo, o camarão-gigante-da-Malásia já foi registrado em dezenas de áreas naturais e protegidas do litoral brasileiro, com sinais claros de estabelecimento fora dos viveiros de criação. O ponto mais grave é que os pesquisadores identificaram fêmeas ovígeras, o que confirma que a espécie já está se reproduzindo na natureza.
Os registros mostram que o invasor não apenas escapou da aquicultura, mas conseguiu avançar sobre ecossistemas costeiros sensíveis, incluindo regiões de alta biodiversidade. Para os autores, isso acende um alerta ambiental porque o Macrobrachium rosenbergii pode competir com espécies nativas, alterar a dinâmica dos estuários e ampliar riscos ecológicos em áreas protegidas do Brasil.
Introduzido para criação comercial, o camarão escapou dos viveiros e alcançou áreas de alta biodiversidade
O camarão-gigante-da-Malásia foi introduzido no Brasil durante a década de 1970 para atender à produção aquícola. Segundo os pesquisadores liderados pelo oceanógrafo Edison Barbieri, do Instituto de Pesca de São Paulo, a expansão da espécie está associada principalmente a regiões com histórico de criação comercial de camarões, reforçando a hipótese de que escapes de viveiros tenham sido a principal porta de entrada para os ambientes naturais.
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Uma das áreas que mais preocupam os cientistas é o Complexo Estuarino-Lagunar de Cananéia-Iguape-Ilha Comprida, no litoral sul paulista. A região é reconhecida pela UNESCO como parte da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica e abriga alguns dos ecossistemas costeiros mais preservados do país.
Segundo o estudo, somente nessa região foram capturados 90 indivíduos ao longo de uma década de monitoramento, evidenciando que a espécie está estabelecida no ambiente.
Fêmeas carregando ovos confirmaram que a espécie já está se reproduzindo no litoral brasileiro
O sinal mais preocupante encontrado pelos pesquisadores não foi apenas a presença dos animais. Segundo Edison Barbieri e sua equipe, foram identificadas fêmeas ovígeras, ou seja, camarões carregando ovos fertilizados. Isso demonstra que o ciclo reprodutivo está ocorrendo naturalmente fora dos criadouros.
De acordo com os autores do estudo, essa constatação indica que o camarão-gigante-da-Malásia não depende mais da aquicultura para permanecer no país.
“A espécie não apenas sobrevive, mas está efetivamente estabelecida”, destacaram os pesquisadores ao analisar os resultados do monitoramento.
Animal pode atingir 30 centímetros e competir diretamente com espécies brasileiras
O camarão-gigante-da-Malásia é um dos maiores camarões de água doce cultivados comercialmente no mundo.
Segundo os pesquisadores, os indivíduos podem atingir aproximadamente 30 centímetros de comprimento, característica que ajuda a explicar sua capacidade competitiva em ambientes naturais.

Além do tamanho, a espécie apresenta elevada tolerância a diferentes temperaturas e níveis de salinidade. Conforme explicou o oceanógrafo uruguaio Ernesto Brugnoli Olivera, coautor do estudo, essa plasticidade ecológica facilita sua sobrevivência em rios, estuários, manguezais e áreas costeiras.
Essa adaptabilidade aumenta o potencial de competição com espécies brasileiras, incluindo camarões nativos que utilizam os estuários como áreas de alimentação e reprodução.
Cientistas alertam para riscos à pesca, aos manguezais e à cadeia alimentar
Os impactos potenciais vão além da simples presença de um novo camarão no ecossistema. Segundo os autores da pesquisa, o invasor pode competir por alimento, abrigo e espaço com espécies nativas.

Como predador oportunista, também pode alterar relações ecológicas importantes dentro dos manguezais e estuários, considerados berçários naturais para peixes, crustáceos e outras formas de vida marinha. Outra preocupação envolve a saúde dos ecossistemas.
Os pesquisadores destacam que o camarão-gigante-da-Malásia pode atuar como vetor de patógenos, incluindo agentes associados à síndrome da mancha branca, uma das doenças mais destrutivas para a carcinicultura mundial. A introdução ou disseminação desses agentes poderia afetar camarões, siris, caranguejos e lagostas.
Pescadores relatam queda de espécies tradicionais e mudanças na atividade pesqueira
Os efeitos observados em campo já chamam a atenção de comunidades que dependem da pesca artesanal.
Em entrevista à Mongabay, o pescador paraense Nilson Monteiro do Nascimento afirmou que espécies exóticas, incluindo o camarão-gigante-da-Malásia, passaram a aparecer com mais frequência enquanto camarões tradicionalmente abundantes se tornaram mais difíceis de capturar.
Embora o estudo não tenha medido diretamente os impactos econômicos, os pesquisadores consideram esses relatos importantes para compreender possíveis alterações futuras na pesca artesanal.
Segundo os autores, o monitoramento realizado com a participação de pescadores ajudou a ampliar a quantidade de informações disponíveis sobre a expansão da espécie.
Mudanças climáticas podem favorecer ainda mais a expansão do invasor
Os pesquisadores também apontam um fator adicional de preocupação. Segundo Edison Barbieri, o aumento da temperatura das águas associado às mudanças climáticas pode ampliar as áreas adequadas para a sobrevivência e reprodução do camarão-gigante-da-Malásia. Isso poderia acelerar sua dispersão por novos ambientes costeiros brasileiros.
Diante desse cenário, os cientistas defendem a criação de programas permanentes de monitoramento, revisão de licenças aquícolas e políticas públicas mais rigorosas para evitar novas introduções e reduzir os impactos ambientais já observados.
Um invasor silencioso que pode alterar alguns dos ecossistemas mais valiosos do país
A descoberta não significa que o camarão-gigante-da-Malásia já tenha provocado um colapso ecológico. Os pesquisadores deixam claro que muitos impactos ainda precisam ser estudados.
Mas os dados já confirmam algo importante: a espécie conseguiu ultrapassar os limites dos criadouros, colonizar ambientes naturais e iniciar sua reprodução em algumas das áreas costeiras mais valiosas do Brasil.
Em regiões que funcionam como berçários para peixes, camarões e inúmeras espécies marinhas, a chegada de um invasor altamente adaptável pode representar um desafio que levará anos para ser totalmente compreendido.


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