Conforme novo anúncio do Cairo, o Egito vai abrir em 2026 uma câmara secreta pirâmide de Quéops com cerca de 30 metros de comprimento, lacrada há mais de 4.500 anos, e o egiptólogo Zahi Hawass diz que o que está atrás da porta vai “reescrever a história das pirâmides”.
Segundo o relato oficial, o anúncio foi feito por Hawass na 44ª Feira Internacional do Livro de Sharjah, nos Emirados Árabes, em novembro de 2025.
Segundo o Jerusalem Post, ele declarou ao público: “usando instrumentos avançados, encontramos uma câmara de 30 metros dentro da Pirâmide de Quéops, com uma porta no final.
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No próximo ano, vamos revelar ao mundo o que está atrás dessa porta”.
Em termos técnicos, a câmara foi mapeada por uma combinação de muografia (radiografia por partículas cósmicas), radar de penetração no solo, ultrassom e tomografia elétrica.
A descoberta original do “Big Void”, como os pesquisadores chamam a estrutura, foi publicada na revista Nature em 2 de novembro de 2017 pela equipe internacional ScanPyramids.
Os números do mistério, conforme as publicações científicas e o anúncio de Hawass, contam a história em cinco pontos:
- 30 metros de comprimento da câmara, com porta selada na extremidade
- 4.500 anos sem ser aberta, desde o reinado de Khufu (Quéops), por volta de 2600 a.C.
- Acima da Grande Galeria, dentro do corpo principal da pirâmide
- 3 técnicas independentes de muografia confirmaram a existência do vazio
- 2026 como ano da abertura pública anunciada pela equipe
O anúncio sobre a câmara secreta pirâmide de Quéops em Sharjah
Já Hawass, ex-ministro de Antiguidades do Egito, é hoje a voz mais conhecida da arqueologia egípcia. Em Sharjah, ele segurou a expectativa quanto ao conteúdo da câmara, mas confessou suas duas hipóteses pessoais.
Conforme registros, “Minha esperança é descobrir a tumba de Imhotep, o arquiteto da primeira pirâmide, e a tumba da rainha Nefertiti”, disse Hawass conforme citação reportada pelo Jerusalem Post.
Conforme registros históricos, Imhotep projetou a pirâmide de degraus de Saqqara para o faraó Djoser, cerca de 100 anos antes da Grande Pirâmide.
O paradeiro de seu túmulo nunca foi confirmado em mais de um século de escavação.
Já Nefertiti, esposa do faraó Akhenaton e madrasta de Tutancâmon, viveu mais de mil anos depois de Quéops.
Sua tumba também segue desaparecida, e a hipótese de que esteja em uma câmara oculta dentro de outro monumento já foi defendida em 2015 pelo egiptólogo Nicholas Reeves, sem confirmação até hoje.
Além disso, Hawass disse que sua equipe internacional só vai divulgar achados “depois de análise exaustiva”, com um relatório científico antes do desvelamento público.
Ou seja, nada de show ao vivo dentro da pirâmide: a abertura passa por revisão acadêmica antes de virar manchete.

Como partículas cósmicas mapearam o vazio em 2017
Em termos metodológicos, para enxergar dentro de uma pirâmide sem cavar, a equipe ScanPyramids usou uma técnica nascida da física de partículas: a muografia.
Em termos físicos, múons são partículas subatômicas formadas quando raios cósmicos colidem com a atmosfera da Terra. Eles atravessam pedra com facilidade, mas perdem intensidade ao passar por massa sólida.
Por isso, detectores instalados dentro da Câmara da Rainha medem quantos múons chegam de cada direção. Onde há vazio, mais múons passam.
Onde há rocha maciça, menos. A diferença forma uma imagem em três dimensões da estrutura interna.
Conforme a publicação na Nature, o time usou três detectores diferentes operados por três grupos independentes: filmes de emulsão nuclear da Universidade de Nagoya (Japão), hodoscópios cintiladores do KEK (também Japão) e telescópios de gás do CEA (França).
Os três viram o mesmo vazio, no mesmo lugar.
Conforme avaliação independente, “Os cientistas viram o vazio com três detectores diferentes em três experimentos independentes, o que torna o achado muito robusto”, avaliou Lee Thompson, físico da Universidade de Sheffield, ao comentar a publicação.
Em termos de autoria, o artigo da Nature foi assinado por uma equipe coordenada por Mehdi Tayoubi, do HIP Institute em Paris, e Kunihiro Morishima, da Universidade de Nagoya, em parceria com o professor Hany Helal, da Universidade do Cairo.

O corredor de 9 metros que confirmou o método em 2023
Em 2 de março de 2023, a mesma equipe ScanPyramids publicou um segundo achado, dessa vez na Nature Communications: o corredor SP-NFC (North Face Corridor), de cerca de 9 metros de comprimento por 2 metros de largura.
Em termos de localização, esse corredor fica logo atrás da face norte da pirâmide, escondido por trás dos blocos em formato de chevron que ficam acima da entrada original.
O time identificou uma fresta entre os blocos via radar e ultrassom.
Em seguida, os pesquisadores enfiaram um endoscópio de 5 milímetros de diâmetro, da Universidade Waseda no Japão. Pela primeira vez em quase cinco mil anos, uma câmera entrou ali dentro.
O que apareceu foi um corredor com teto em formato abobadado de duas águas, hipoteticamente projetado para aliviar o peso da pedra acima.
“O fato de a câmara ser grande o suficiente para abrigar várias pessoas torna a descoberta especialmente notável”, disse Christian Große, da Universidade Técnica de Munique.
Por isso, o sucesso do SP-NFC validou o método. Se a muografia mais o radar mais o endoscópio funcionaram para um corredor pequeno, a mesma combinação tem chance real de chegar à câmara grande lá em cima.

O que pode estar atrás da porta da câmara secreta pirâmide de Quéops
Conforme a publicação da Nature, o Big Void de 30 metros fica acima da Grande Galeria, o corredor mais imponente da pirâmide.
A Grande Galeria já tem 48 metros de comprimento, 9 metros de altura e teto em mísula sobreposta, uma das mais sofisticadas obras de cantaria da Antiguidade.
Sobre essa galeria, há um vazio de tamanho equivalente, com seção transversal parecida. A função desse espaço continua em aberto.
Em termos científicos, as hipóteses incluem uma câmara funerária real intencionalmente escondida, uma câmara de alívio de peso para proteger a Grande Galeria do esmagamento das toneladas acima, uma sala incompleta abandonada durante a construção, ou ainda algo arquitetonicamente inédito.
Em termos históricos, quando a Pirâmide foi explorada pelos califas árabes em 832 d.C., a Câmara do Rei já estava vazia.
O sarcófago de granito está lá, mas sem múmia. O paradeiro do corpo do próprio Khufu nunca foi confirmado.
Já em Sharjah, Hawass se recusou a especular sobre o conteúdo da câmara. “Os dados orientam o trabalho dentro da pirâmide”, disse, sublinhando que a investigação é guiada por sensores não invasivos, não por achismo.
A Grande Pirâmide em números: por que aceitar que não conhecíamos tudo
Em números, são 230,37 metros de base e 146,6 metros de altura original (hoje 138,75 m).
Além disso, o corpo da pirâmide tem cerca de 2,3 milhões de blocos de pedra, totalizando 6 milhões de toneladas.
Foram 5,5 milhões de toneladas de calcário (boa parte das pedreiras de Tura, do outro lado do Nilo), 8 mil toneladas de granito vindas de Aswan, e 500 mil toneladas de argamassa.
Conforme o histórico de exploração, apesar de mais de dois séculos de exploração científica, só conhecíamos cinco grandes espaços internos antes do ScanPyramids: Câmara do Rei, Câmara da Rainha, Grande Galeria, Câmara Subterrânea e os corredores Ascendente e Descendente.
Em termos de descoberta, o Big Void e o North Face Corridor, anunciados em 2017 e 2023, são as primeiras grandes estruturas internas identificadas na pirâmide desde o século XIX.
Em outras palavras: descobrimos mais sobre o interior de Quéops nos últimos oito anos do que em todo o século XX.
Esse esforço dialoga com outras tecnologias que estão revisitando o passado, como a varredura SAR usada para mapear sítios pelo mundo e que o CPG cobriu na cobertura sobre os novos drones de exploração chineses.

SAR e a polêmica da “cidade subterrânea” sob Gizé
Já em paralelo aos resultados confirmados pela ScanPyramids, surgiu em março de 2025 um anúncio bem mais ambicioso, e bem mais contestado.
Os pesquisadores Corrado Malanga (Universidade de Pisa), Filippo Biondi (Universidade de Strathclyde) e Armando Mei alegaram ter detectado, via radar de abertura sintética (SAR) com tomografia Doppler, uma “cidade subterrânea” estendendo-se cerca de 2 quilômetros abaixo do platô de Gizé.
Por isso, a comunidade arqueológica rejeitou o anúncio. Sem revisão por pares e com metodologia questionada, o trabalho não tem o mesmo peso da muografia da ScanPyramids, publicada na Nature.
Em paralelo, Hawass também se posicionou contra. Para ele, esse tipo de alegação atrapalha a recepção pública das descobertas científicas reais.
O corredor de 30 metros, esse sim, está validado por três técnicas independentes e vai ser o teste de credibilidade do projeto em 2026.
O que vem em 2026 e o que o Egito quer mostrar ao mundo
Conforme cronograma anunciado, o projeto prevê um relatório científico revisado antes da revelação pública. Não há ainda data oficial para a abertura física da câmara.
Conforme Hawass, robôs autônomos Hawass, já foram usados para alcançar e limpar aberturas que estavam fora do alcance humano.
Esses equipamentos descendem do projeto Djedi, que em 2011 enviou uma câmara robotizada por um dos chamados “shafts” da Câmara da Rainha.
Em termos de contexto, o cenário é favorável: o Grand Egyptian Museum, inaugurado em Gizé com mais de 5 mil objetos do tesouro de Tutancâmon, abriu em 2025 uma janela de atenção global para a arqueologia egípcia.
O Egito quer transformar essa atenção em turismo, em receita e em renovação da hipótese de que a pirâmide ainda guarda surpresas.
Se a câmara revelar uma tumba intacta, será a maior descoberta arqueológica desde Tutancâmon em 1922.
Já se for uma sala de alívio de peso, a muografia ainda assim valida o método e abre caminho para investigar Khafre e Menkaure com o mesmo arsenal.
Atualização: o relatório científico anunciado por Hawass para 2026 ainda não foi publicado. A data exata da revelação pública será confirmada pelo Conselho Supremo de Antiguidades do Egito e pelo HIP Institute conforme o cronograma de análise da equipe ScanPyramids.

E fascinante ,sempre acompanhar essas descobertas!
Obrigado, Vilma. 2026 promete ser um ano grande pra arqueologia egípcia.