Com produção concentrada, compras recordes desde 2020 e uso crescente de moedas locais, o BRICS fortalece o ouro nas reservas e reduz gradualmente a dependência do dólar americano
O bloco econômico BRICS intensificou a acumulação de ouro e a redução gradual da dependência do dólar americano, passando a controlar cerca de 50% da produção global do metal, movimento que afeta reservas, comércio internacional e a arquitetura financeira global dominada pela moeda dos Estados Unidos.
Expansão do controle do ouro pelos países do BRICS
Os países do BRICS, formados por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, vêm alterando sua estratégia de reservas ao ampliar a produção e a aquisição de ouro como ativo central. Oficialmente, detêm cerca de 20% das reservas globais, mas, com aliados estratégicos, alcançam aproximadamente metade da produção mundial.
Rússia e China lideram esse movimento. Em 2024, a China produziu 380 toneladas de ouro, enquanto a Rússia respondeu por 340 toneladas, consolidando ambos como protagonistas na oferta global do metal precioso.
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O Brasil passou a integrar essa estratégia de forma mais ativa em setembro de 2025, quando adquiriu 16 toneladas de ouro, registrando sua primeira compra relevante desde 2021, dentro do esforço coletivo de fortalecimento das reservas metálicas.
Estratégia dupla de produção e acumulação de reservas
Segundo Anuj Gupta, diretor da Ya Wealth, os países do BRICS adotam uma estratégia dupla, combinando maior produção doméstica de ouro com redução das vendas externas e compras adicionais no mercado internacional.
Entre 2020 e 2024, os bancos centrais das nações do BRICS responderam por mais de 50% das compras globais de ouro, evidenciando uma mudança coordenada no padrão de gestão de reservas monetárias.
Essa estratégia, de acordo com Gupta, ocorre paralelamente à diminuição da dependência de ativos denominados em dólar, reforçando o papel do ouro como instrumento central de proteção financeira e reserva de valor.
Impactos sobre a ordem financeira dominada pelo dólar
Para Sachin Jasuja, chefe de ações e sócio fundador da Centricity WealthTech, o aumento do controle das reservas de ouro pelos BRICS representa um sinal claro de tensão na ordem financeira global sustentada pelo dólar americano.
Embora o dólar permaneça como principal moeda de reserva mundial, os movimentos recentes indicam que sua supremacia está sendo gradualmente questionada, sem um confronto abrupto ou substituição imediata do sistema vigente.
Atualmente, as economias do BRICS respondem por quase 30% do comércio global, o que confere peso significativo às decisões monetárias conjuntas do bloco e amplia os efeitos sistêmicos dessas escolhas.
Redução da dependência do dólar no comércio internacional
Um dos objetivos históricos do BRICS é reduzir a dependência da infraestrutura financeira ocidental, especialmente do dólar, tanto para liquidação comercial quanto para a composição das reservas cambiais nacionais.
Na última década, a parcela do comércio intra-BRICS liquidada em moedas locais aumentou de forma constante, com aproximadamente um terço dessas transações já ocorrendo fora do sistema baseado no dólar americano.
Acordos bilaterais, como o comércio entre Índia e Rússia e entre China e Brasil em moedas locais, ilustram uma abordagem pragmática voltada à redução de custos de transação e da exposição a sanções financeiras.
Gatilhos geopolíticos para a mudança de estratégia
Jasuja destaca que a inflexão decisiva no pensamento dos países do BRICS ocorreu após a guerra entre Rússia e Ucrânia, quando governos ocidentais congelaram parte substancial das reservas cambiais russas.
Esse episódio alterou a percepção global sobre a segurança das reservas mantidas em ativos denominados em dólar ou sob jurisdição estrangeira, evidenciando riscos geopolíticos associados a desalinhamentos políticos.
Desde então, a gestão de reservas passou a priorizar ativos politicamente neutros, fisicamente mantidos e menos suscetíveis ao controle externo, reforçando o papel estratégico do ouro nesse novo contexto.
Crescente participação do ouro nas reservas cambiais
Os bancos centrais do BRICS figuram entre os compradores mais agressivos de ouro no cenário global, com China, Rússia e Índia posicionadas entre os maiores detentores oficiais do metal no mundo.
Como resultado, a participação do ouro nas reservas cambiais do bloco aumentou de forma constante, enquanto a exposição a ativos em dólar diminuiu marginalmente, refletindo uma diversificação progressiva das carteiras nacionais.
Essa mudança coincidiu com uma alta forte e sustentada nos preços do ouro, associada não apenas à proteção contra inflação, mas também à crescente demanda oficial por parte dos bancos centrais.
Reconhecimento do ouro como ativo central de confiança
A movimentação dos preços sugere que os mercados reconhecem cada vez mais o papel renovado do ouro como principal ativo de reserva em um sistema financeiro global fragmentado.
Nesse cenário, a confiança nas moedas de reserva tradicionais deixa de ser incondicional, abrindo espaço para ativos considerados neutros e historicamente aceitos como reserva de valor.
O processo ocorre de forma gradual, sem ruptura imediata do sistema monetário existente, mas sinaliza mudanças estruturais relevantes na forma como os países gerenciam suas reservas.
Produção de ouro e flexibilidade estratégica
Ponmudi R, CEO da Enrich Money, afirma que a influência do BRICS cresce na produção anual de ouro, com países membros e aliados respondendo por quase metade da nova oferta global.
Esse controle da produção futura amplia a flexibilidade estratégica do bloco, sem implicar domínio imediato sobre o sistema monetário internacional ou substituição direta do dólar como moeda central.
Segundo o executivo, a aceleração das compras de ouro deve ser interpretada principalmente como uma estratégia de gestão de riscos e diversificação de reservas em um ambiente geopolítico instável.
Ouro como ativo neutro em um cenário de tensões globais
O ouro é considerado um ativo resistente a sanções e politicamente neutro, característica que ganhou relevância após recentes desenvolvimentos geopolíticos envolvendo grandes potências econômicas.
Esses fatores levaram várias economias emergentes a reavaliar os riscos associados à concentração excessiva de reservas em ativos denominados em uma única moeda de referência global.
A adoção dessa estratégia pelos BRICS não elimina o papel do dólar, mas reduz a vulnerabilidade a choques externos e restrições financeiras impostas por terceiros.
Limites e desafios da estratégia do BRICS
Ponmudi R ressalta que a disputa estrutural global não se resume ao ouro, envolvendo também o sistema do petrodólar, realinhamentos comerciais e o aumento de tarifas de importação.
O impulso estratégico da China em direção a veículos elétricos, energia renovável e menor dependência de combustíveis fósseis integra um esforço mais amplo de reconfiguração das regras globais de comércio.
Esse movimento busca reduzir a exposição de longo prazo à precificação de commodities atrelada ao dólar, ampliando a autonomia econômica das nações emergentes.
Um sistema financeiro mais diversificado e multipolar
O acúmulo crescente de ouro pelos países do BRICS não sinaliza o fim imediato do papel do dólar americano no sistema financeiro internacional.
Segundo Jasuja, trata-se de uma mudança estrutural crível em direção a um sistema global mais diversificado e multipolar, no qual múltiplos ativos e moedas coexistem.
Nesse novo arranjo, o ouro reaparece de forma discreta como âncora fundamental da confiança monetária, refletindo uma transição gradual, mas significativa, na governança financeira global, mesmo com alguns risocs ainda presentes.

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