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Pesquisadores da USP planejam usar inteligência artificial e tecnologia nuclear para rastrear a origem da carne, da madeira e da soja, para combater fraudes no campo

Publicado em 09/05/2026 às 11:13
Atualizado em 09/05/2026 às 11:16
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Pesquisadores da USP desenvolvem técnicas para rastrear a origem de carne, madeira e soja usando IA, química e tecnologia nuclear. Entenda o projeto. (imagem meramente ilustrativa)
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Pesquisadores da USP desenvolvem técnicas para rastrear a origem de carne, madeira e soja usando IA, química e tecnologia nuclear. Entenda o projeto.

Pesquisadores brasileiros estão desenvolvendo ferramentas científicas capazes de rastrear a origem geográfica de três das principais commodities do país — carne bovina, madeira e soja — com o uso de inteligência artificial, tecnologia nuclear e análise química avançada.

O projeto, chamado RastreIA, Projeto é coordenado pela Profa. Elisabete Aparecida de Nadai Fernandes juntamente com uma equipe técnica especializada e alunos do Laboratório de Radioisótopos do CENA/USP e nasce em resposta a uma demanda crescente do mercado global: não basta mais saber o que está sendo vendido, é preciso comprovar de onde veio e como foi produzido.

A iniciativa ganha força em um momento em que o Brasil está sob pressão internacional por práticas associadas ao desmatamento e à exploração ilegal de recursos naturais — e em que a transparência nas cadeias produtivas se tornou um critério decisivo de acesso a mercados, segundo informações do Compre Rural.

O problema: fraude e ilegalidade nas cadeias produtivas

Os números são alarmantes. Segundo levantamento da Rede Simex, com base em imagens de satélite analisadas entre agosto de 2023 e julho de 2024 e cruzadas com dados oficiais de órgãos ambientais, 62% da extração madeireira na Amazônia não tem autorização legal. Do total ilegal, 44% ocorre dentro de áreas protegidas — como territórios indígenas, assentamentos rurais e unidades de conservação.

O caso do ipê ilustra bem a gravidade do problema. Espécie altamente valorizada no mercado internacional, estima-se que apenas 20% da madeira de ipê comercializada não tenha relação com atividades ilegais. A alta demanda e o valor econômico da espécie a tornam um alvo frequente de redes de extração irregular.

Além disso, o pesquisador Dr. Sérgio Raposo, da Embrapa, aponta que o desmatamento é um elo comum entre as três commodities analisadas. Segundo ele, a pecuária bovina muitas vezes funciona como forma inicial de ocupação de áreas abertas irregularmente, que depois podem ser convertidas para outras atividades produtivas, como o cultivo de soja.

Foto: canva

Como os documentos tradicionais podem ser enganados

O principal instrumento legal para o transporte e armazenamento de madeira de espécies nativas no Brasil é o Documento de Origem Florestal (DOF), exigido pelo Ibama. O problema, segundo especialistas ouvidos no projeto, é que esse tipo de licença pode ser falsificada.

O analista ambiental Alexandre Gontijo, do Laboratório de Produtos Florestais do Serviço Florestal Brasileiro, explica que existem dois tipos de fraude mais comuns nesse sistema:

  • Fraude taxonômica: quando uma espécie de madeira é declarada como se fosse outra, geralmente para desviar da fiscalização;
  • Fraude de origem: quando o local informado no documento não corresponde ao local real de onde a madeira foi retirada.

Na prática, o resultado é um produto que circula no mercado com aparência de legalidade, mas que pode ter sido extraído de forma completamente irregular. É exatamente essa brecha que a ciência busca fechar.

A “impressão digital” dos produtos: como funciona a rastreabilidade química

A base científica do RastreIA está no que os pesquisadores chamam de assinatura química dos produtos. A lógica é que o ambiente em que um organismo vive — o solo, a água, o clima, a vegetação — deixa marcas mensuráveis na composição do material produzido. Essas marcas funcionam como uma espécie de impressão digital geográfica, difícil de falsificar.

No caso da madeira, a composição química da árvore carrega informações sobre o ambiente em que ela cresceu. Na carne bovina, a alimentação do animal, a água que ele consumiu e as características do solo da região de criação influenciam diretamente o perfil químico do produto final. Na soja, o princípio é o mesmo: o ambiente produtivo deixa rastros detectáveis.

Pesquisadores da USP desenvolvem técnicas para rastrear a origem de carne, madeira e soja usando IA, química e tecnologia nuclear. Entenda o projeto. (imagem meramente ilustrativa)
Pesquisadores da USP desenvolvem técnicas para rastrear a origem de carne, madeira e soja usando IA, química e tecnologia nuclear. Entenda o projeto. (imagem meramente ilustrativa gerada por IA)

O pesquisador Dr. Sérgio Raposo resume essa lógica com uma frase direta: “o ser vivo é o que come”. Ou seja, tudo o que o animal ingere e absorve ao longo da vida pode, em tese, ser detectado na carne que chega ao mercado.

Por outro lado, a grande vantagem dessa abordagem é que a composição química não pode ser alterada com a mesma facilidade de um documento. Enquanto registros físicos e digitais podem ser manipulados, a assinatura química preserva informações sobre a origem real do material.

Tecnologias usadas para rastrear com precisão

O projeto RastreIA combina diferentes ferramentas científicas para identificar a procedência das commodities. Entre as principais técnicas em desenvolvimento, destacam-se:

  • Análise multielementar e isotópica: identifica elementos químicos presentes no produto que funcionam como marcadores geográficos;
  • Inteligência artificial: processa grandes volumes de dados e constrói modelos de comparação entre amostras de diferentes regiões;
  • Tecnologia nuclear: utilizada para leituras precisas de composição química em laboratório;
  • Espectroscopia de infravermelho próximo (NIRS): técnica que analisa amostras de madeira por meio de radiação eletromagnética, com a vantagem de poder ser usada diretamente em campo, acelerando a fiscalização.

A pesquisadora Dra. Teresa Cristina Pastore, especialista em química da madeira no Laboratório de Produtos Florestais, destaca um desafio prático importante: quando a madeira já foi cortada e processada, ela frequentemente está sem folhas, frutos ou outros elementos botânicos que facilitariam a identificação visual. Nesses casos, tecnologias que fazem leituras rápidas e as comparam com bancos de dados estatísticos se tornam fundamentais.

Foto: canva

Para garantir a precisão dos resultados, os pesquisadores trabalham com bancos de amostras amplos e representativos, reunindo materiais de diferentes indivíduos, regiões e sistemas de produção. Quanto maior essa base de comparação, mais confiável tende a ser o modelo de rastreamento.

Como rastrear pode se tornar um diferencial econômico para o Brasil

Embora o debate sobre rastreabilidade tenha forte componente ambiental, os pesquisadores envolvidos no projeto defendem que ela também precisa ser encarada como um ativo econômico. Em mercados cada vez mais exigentes, comprovar a origem de um produto pode significar acesso a compradores premium, contratos mais vantajosos e redução de riscos para a imagem das empresas.

A pesquisadora Dra. Gabriela Bielefeld Nardotto, do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB), reforça essa visão ao afirmar que rastrear não significa apenas identificar um ponto no mapa. Para ela, trata-se de “reconstruir a história daquele produto, entendendo de onde veio, em que condições foi produzido e qual impacto pode ter gerado”.

Fonte: Laboratório de Radioisótopos do CENA/USP

Portanto, para frigoríficos, tradings, madeireiras, exportadores e produtores rurais, a rastreabilidade deixa de ser apenas uma obrigação burocrática e passa a funcionar como um selo de confiança — capaz de separar quem produz dentro da lei de quem opera na ilegalidade.

Brasil no centro das cobranças climáticas globais

O contexto político internacional torna essa agenda ainda mais urgente. A realização da COP30 em Belém, em 2025, posicionou o Brasil no centro das discussões sobre clima e sustentabilidade. Ao mesmo tempo, o peso do agronegócio nas exportações brasileiras torna inevitável a discussão sobre como conciliar produção em larga escala, conservação ambiental e responsabilidade climática.

Além disso, antes do avanço dos planos de regularização e coleta de dados, mais de 55% das empresas do setor que não precisavam de outorga sequer enviavam informações básicas ao governo — o que comprometia a criação de políticas públicas eficientes para o setor.

A Dra. Gabriela Nardotto sintetiza o que está em jogo: o manejo adequado é, segundo ela, o “carimbo da sustentabilidade” para madeira, gado e soja. Em outras palavras, o futuro das commodities brasileiras não vai depender apenas de produzir mais, mas de provar como, onde e em que condições essa produção acontece.

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O desafio agora é transformar ciência em ferramenta prática

O RastreIA representa uma aposta concreta do Brasil em unir produtividade, preservação e credibilidade. Se as ferramentas em desenvolvimento chegarem ao campo e às cadeias produtivas em escala, o país poderá avançar em uma frente estratégica: proteger florestas, combater a concorrência desleal e consolidar sua posição como potência agroambiental.

Em um mercado global que exige cada vez mais prova — e não apenas promessa —, a capacidade de rastrear a origem com precisão científica pode se tornar, em breve, não um diferencial, mas um requisito básico para quem quiser exportar para os mercados mais exigentes do mundo.

Com informações do Compre Rural e CENA/USP

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Andriely Medeiros de Araújo

Ensino superior em andamento. Escreve sobre Petróleo, Gás, Energia e temas relacionados para o CPG — Click Petróleo e Gás.

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