Apresentação do primeiro caça supersônico montado no Brasil marca avanço industrial, transferência de tecnologia e nova etapa na defesa aérea nacional com participação direta da indústria brasileira em projeto estratégico de alta complexidade.
O Brasil apresentou nesta quarta-feira (25), em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo, o primeiro caça supersônico F-39E Gripen montado em território nacional.
A aeronave, de matrícula FAB 4109, integra o programa de renovação da aviação de combate da Força Aérea Brasileira e marca a entrada do país em um grupo restrito de nações com capacidade industrial para produzir aviões de caça de alta complexidade.
A cerimônia ocorreu na unidade da Embraer que concentra parte central da produção brasileira do programa e reuniu representantes da FAB, da Saab e do governo federal.
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Mais do que a entrega simbólica de uma aeronave, o evento consolidou uma etapa prevista desde a assinatura do contrato com a fabricante sueca, formalizado em 2014, quando o Brasil decidiu adquirir 36 caças Gripen, dos quais 15 seriam produzidos no país sob acordo de transferência de tecnologia.
Produção nacional do Gripen e avanço da indústria brasileira
A apresentação do FAB 4109 representa a passagem de uma fase centrada em importação e absorção de conhecimento para outra, em que a indústria local participa diretamente da montagem de um vetor supersônico de nova geração.
Segundo a FAB, o roll out da aeronave confirma a maturidade do programa e traduz, na prática, a transformação de planejamento em capacidade produtiva instalada. Esse avanço também tem peso regional.
A Reuters registrou que o Brasil se tornou o primeiro país da América Latina a montar um caça supersônico desse porte, enquanto a Saab destacou que esta é a primeira vez, desde a fundação da empresa em 1937, que um de seus caças é fabricado fora da Suécia.
O dado reforça o valor estratégico do arranjo industrial construído com a Embraer e com empresas brasileiras associadas ao projeto.
Na prática, a produção local reduz a dependência de fornecedores externos em etapas críticas, amplia a base de conhecimento em engenharia aeronáutica militar e abre espaço para serviços de manutenção, integração e suporte técnico em solo brasileiro.
Ao mesmo tempo, insere o país em uma cadeia global mais sofisticada, com potencial de desdobramentos industriais para além do emprego operacional da aeronave.
Transferência de tecnologia e geração de empregos no programa FX-2
O eixo mais sensível do programa segue sendo a transferência de tecnologia.
Informações divulgadas pela FAB apontam que o projeto já envolveu treinamento de 350 engenheiros brasileiros na Suécia e impulsionou a formação de um ecossistema industrial com geração de mais de 12 mil empregos, sendo cerca de 2 mil diretos e 10 mil indiretos.
Esses números ajudam a explicar por que o Gripen é tratado, dentro do setor, como um programa de defesa com efeitos industriais de longo prazo.
Entre as empresas brasileiras envolvidas estão Embraer, AEL Sistemas, Akaer e Atech, parceiras da Saab em frentes distintas do desenvolvimento e da produção.
No caso da AEL, a participação inclui itens de alto valor agregado, como o HUD, o capacete com visor integrado e o WAD, o painel panorâmico inteligente do cockpit, sistemas que figuram entre os componentes mais relevantes da interface entre piloto e aeronave.
A presença desse conteúdo nacional altera a qualidade da inserção brasileira no projeto.
Em vez de apenas receber uma plataforma pronta, o país passa a dominar partes do processo produtivo e de integração de sistemas, algo especialmente relevante em programas militares de longa duração.
Ainda assim, o modelo permanece baseado em cooperação internacional, com a Saab fornecendo a plataforma e coordenando a transferência de conhecimento ao lado de parceiros locais.
Papel do F-39 Gripen na defesa aérea brasileira
O F-39 Gripen foi escolhido para substituir aeronaves antigas da FAB e ampliar a capacidade de resposta em missões de defesa aérea, interceptação, reconhecimento e ataque.

A aeronave pode operar em diferentes perfis e, segundo informações do governo federal, o modelo multiemprego está apto a atuar em controle aeroespacial, interdição, inteligência, proteção da força e ataque ao solo, entre outras missões.
A incorporação do caça ocorre em um momento em que a FAB já vem ampliando o emprego operacional do modelo.
Em fevereiro de 2026, a própria Força Aérea informou o início do uso do Gripen em missões de Alerta de Defesa Aérea, passo considerado importante para a consolidação da aeronave no sistema de prontidão do país.
Isso significa que a apresentação do primeiro exemplar montado no Brasil não aconteceu isoladamente, mas dentro de um processo mais amplo de amadurecimento operacional do programa.
A dimensão política e econômica do projeto também ficou evidente durante o evento em Gavião Peixoto.
Em declarações divulgadas pela Agência Brasil, o ministro da Defesa, José Múcio, afirmou que o investimento em defesa marca um amadurecimento da indústria nacional, enquanto o presidente da Saab, Micael Johansson, disse que a linha brasileira é a única da empresa fora da Suécia e associou esse avanço à maturidade industrial alcançada pelo país e pela Embraer.
Há ainda um componente externo nessa equação.
A Reuters informou que a Saab enxerga a estrutura brasileira como possível hub de exportação, expectativa fortalecida por avanços recentes da empresa no mercado regional.
Embora esse movimento dependa de decisões comerciais e geopolíticas que escapam ao programa brasileiro, ele amplia a relevância da linha instalada em São Paulo e reforça o peso estratégico da parceria firmada com a FAB há mais de uma década.
No curto prazo, o dado mais concreto é que o FAB 4109 simboliza uma mudança de escala.
O país deixa de ser apenas cliente de uma aeronave supersônica e passa a participar da montagem de um sistema de defesa de alto desempenho, com efeitos sobre formação de mão de obra, capacidade tecnológica e adensamento industrial.
É esse conjunto, mais do que a cerimônia em si, que transforma o primeiro F-39E montado no Brasil em um marco para a aviação militar brasileira.

