Estudo internacional mostra que o Brasil lidera em rapidez e baixo custo para abrir empresas em 2025, mas a manutenção de negócios ainda consome milhares de horas com burocracia tributária e trabalhista.
Em 2025, o Brasil lidera o ranking de rapidez e figura entre os países de menor custo para abrir uma empresa, de acordo com o Índice da Burocracia produzido pelo Adam Smith Center for Economic Freedom, ligado à Florida International University.
O estudo calcula que o processo de constituição de um negócio de médio porte exige, em média, 283,92 horas no país — algo como 35 dias úteis de trabalho.
A comparação com a média geral dos 21 países analisados, que chega a 1.850 horas, evidencia a distância entre o desempenho brasileiro e o cenário regional.
-
Dono de um app avaliado em US$ 85 bilhões, Tony Xu, o fundador do DoorDash, virou entregador por uma hora pelo programa WeDash, fez quatro pedidos, errou um e embolsou só US$ 19
-
Em vez de pilotar, o presidente da Lufthansa Jens Ritter vestiu o uniforme, virou comissário de bordo, serviu a classe econômica e descobriu uma falha que ninguém no comando enxergava
-
Estela, menina de 7 anos, vence seletiva em 1º lugar e família faz vaquinha para disputar final de ballet na Argentina em outubro
-
Antes de assumir o comando da Starbucks, Laxman Narasimhan passou cerca de seis meses treinando como barista e se comprometeu a tirar café meio expediente por mês para nunca perder o chão da loja
Segundo o levantamento, a posição de destaque do Brasil decorre da digitalização de etapas e dos efeitos da Lei da Liberdade Econômica, que reduziram exigências para atividades consideradas de baixo risco.
A simplificação impacta desde tarefas cadastrais até pedidos de licenciamento, o que ajuda a encurtar prazos em diferentes ramos de atividade.
Estudo internacional aponta avanço
O índice avaliou 21 países — 16 na América Latina, dois no Caribe e três na Europa — para medir o tempo e o esforço administrativo necessários à abertura e à manutenção de empresas de porte médio.
No recorte brasileiro, o ganho de eficiência se mostrou transversal: setores como pecuária, construção e mercado imobiliário apresentaram trajetórias de desburocratização que colocam o país entre os melhores colocados.
Ainda que os números variem por setor, o padrão é similar.
Em tarefas iniciais, como registro, licenças básicas, inscrições fiscais e conformidade mínima, o Brasil cumpre etapas em prazos mais curtos que os vizinhos.
Essa combinação de processos digitais, integração entre órgãos e exigências proporcionais ao risco aproxima o país de boas práticas regulatórias.

Rapidez em diferentes setores
No setor primário, que inclui atividades ligadas à pecuária, o Brasil empata com Portugal na liderança, com média de 289 horas para abrir uma empresa.
Na construção civil, classificada como setor secundário, o desempenho é ainda melhor: o tempo estimado para iniciar as operações cai para 216 horas, o menor entre os países avaliados.
Já no mercado imobiliário, o Brasil ocupa a segunda posição, com 309 horas, ficando atrás apenas de Portugal.
Custos de abertura ficam entre os menores
Além do tempo reduzido, o levantamento aponta baixo custo financeiro para abrir uma empresa no Brasil.
A despesa média estimada é de cerca de US$ 400, uma das menores entre os países pesquisados.
O valor é atribuído à carga burocrática inicial relativamente leve e ao nível de salários na comparação com outras economias da amostra.
Embora o gasto possa variar conforme a atividade e a localidade, o patamar coloca o país em vantagem competitiva no momento de iniciar um negócio.
Manter a empresa exige mais tempo
O quadro muda quando a análise se volta à manutenção legal do negócio.
Para empresas já em operação, o estudo estima 1.039 horas por ano — o equivalente a cerca de 130 dias úteis — dedicadas a rotinas burocráticas no Brasil.
O número fica abaixo da média geral da amostra (1.577 horas), mas ainda é considerado elevado para padrões internacionais.
Tarefas recorrentes como declarações fiscais, apurações contábeis, obrigações trabalhistas e atualizações cadastrais compõem a maior parte desse tempo.
Apesar de avanços regulatórios, a fragmentação de regras entre níveis de governo e a multiplicidade de formulários mantém o esforço operacional alto.
Tributos e pessoal são os principais gargalos
A complexidade tributária permanece como o principal entrave.
No recorte por setor, a construção civil aparece entre os mais afetados.
De um lado, a alta rotatividade de pessoal impõe controles frequentes de admissões, rescisões e obrigações acessórias.
De outro, a multiplicidade de tributos — especialmente os de natureza estadual e corporativa — eleva a carga de conformidade.
No setor de construção, os dados indicam 1.020 horas anuais dedicadas à gestão de emprego e até 1.615 horas por ano para lidar com tributos.
Esses números ajudam a explicar por que, apesar de ser veloz para abrir empresas, o Brasil ainda não alcançou a mesma eficiência para mantê-las plenamente em dia com todas as exigências.
Por que o Brasil abre rápido, mas opera devagar?
De um lado, procedimentos iniciais mais simples e plataformas digitais reduziram barreiras de entrada.
De outro, a operação cotidiana segue distribuída entre diferentes sistemas, prazos e interpretações fiscais, o que cria redundâncias.
Enquanto isso, a necessidade de cumprir obrigações trabalhistas e previdenciárias com frequência elevada amplia a carga administrativa.
Além disso, a variação de regras por estado e município dificulta a padronização de processos e exige monitoramento contínuo.
Mesmo com integração crescente entre bases, há exigências que não conversam entre si, o que leva empresas a repetir etapas ou a manter controles paralelos para assegurar conformidade.
Perspectivas e pontos de atenção
O estudo sugere que políticas voltadas a reduzir a complexidade fiscal e a harmonizar obrigações entre entes federativos teriam efeito direto na produtividade das empresas.
Também indica que a continuidade da digitalização — com interoperabilidade real entre sistemas — pode cortar horas de trabalho hoje gastas com cruzamentos manuais e retrabalho.
Outro eixo é o enxugamento de obrigações acessórias que pouco agregam ao controle estatal, mas consomem tempo expressivo de contadores e equipes administrativas.
A experiência recente de simplificação na fase de abertura mostra que ganhos são possíveis quando há foco em risco regulatório, padronização de formulários e prazos previsíveis.
A questão, agora, é replicar essa lógica no ciclo operacional, onde se concentram os maiores gargalos.
Se o país já provou ser rápido e barato para começar, o que falta para transformar essa vantagem em um ambiente igualmente simples e previsível para operar mês a mês?
