Projeto chileno de baterias da EDP amplia o debate sobre armazenamento de energia no Brasil, em meio ao avanço dos cortes obrigatórios de geração solar e eólica e à busca por soluções para reduzir perdas bilionárias no setor elétrico.
Santiago do Chile — A entrada em operação de um sistema de baterias da EDP no Parque Eólico Punta de Talca, no município de Ovalle, no Chile, passou a integrar as discussões sobre armazenamento de energia no Brasil, em um cenário de maior pressão sobre a geração renovável.
O projeto recebeu US$ 44 milhões em investimentos e tem 240 MWh de capacidade instalada, segundo a companhia, que apresenta o empreendimento como seu primeiro sistema de armazenamento por baterias em operação na América do Sul.
O empreendimento chileno passou a ser acompanhado por empresas e agentes do setor elétrico brasileiro porque atua sobre um problema que também avançou no país: o corte obrigatório de geração solar e eólica quando a rede não consegue absorver toda a energia disponível.
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Conhecido como curtailment, esse fenômeno ocorre quando usinas precisam reduzir a produção por falta de demanda, restrições de transmissão ou limitações operacionais, mesmo em momentos nos quais há sol, vento e equipamentos disponíveis para gerar eletricidade.
A Volt Robotics informou, em balanço anual divulgado em 26 de janeiro de 2026, que o Brasil descartou cerca de 20% da geração solar e eólica que poderia ter sido produzida em 2025.
O levantamento estima perdas econômicas de R$ 6,5 bilhões e aponta cortes de 4.021 MW médios ao longo do ano, em um quadro associado a restrições operacionais e limitações da rede de transmissão.
Baterias entram no centro da discussão sobre energia renovável

Integrado ao Parque Eólico Punta de Talca, o sistema de baterias da EDP funciona em uma unidade de geração renovável com 83 MW de capacidade, em operação desde 2024 na região norte do Chile.
A operação foi estruturada para armazenar energia em períodos de menor demanda e devolver essa eletricidade ao sistema nos horários de maior consumo ou quando houver necessidade de suporte operacional.
Na avaliação da EDP, a tecnologia acrescenta uma camada de flexibilidade a sistemas elétricos com forte presença de fontes intermitentes, como solar e eólica, que dependem das condições climáticas para produzir energia.
Quando a produção renovável supera a capacidade de consumo ou escoamento, as baterias podem armazenar parte desse excedente e entregar energia posteriormente, o que reduz a necessidade de cortes em determinados momentos.
“O início da operação do nosso primeiro projeto de baterias na América do Sul representa um marco estratégico para a EDP”, afirmou João Brito Martins, CEO da companhia na América do Sul.
Segundo o executivo, o armazenamento ganha relevância por combinar resposta rápida de potência, segurança operacional e melhor aproveitamento da energia limpa, especialmente em sistemas com participação crescente de renováveis.
A empresa afirma que o complexo chileno tem capacidade média anual de armazenamento de 60 GWh e potencial para abastecer mais de 30 mil residências na região onde está instalado.
Além de ampliar a eficiência operacional do parque eólico, o sistema foi projetado para reduzir cortes de geração e contribuir para a segurança do sistema elétrico chileno, conforme informações divulgadas pela EDP.
Por que o caso chileno interessa ao Brasil
No Brasil, os cortes de geração renovável se tornaram mais frequentes em meio à expansão da energia solar e eólica, especialmente quando há alta produção em horários de baixa demanda.

Esse cenário costuma aparecer com maior intensidade em períodos de forte geração solar e menor consumo, quando o sistema precisa equilibrar oferta, demanda e limites de escoamento da rede elétrica.
De acordo com a Volt Robotics, o sistema elétrico brasileiro operou próximo ao limite inferior de segurança em 16 dias de 2025 por excesso de oferta.
Em 2024, segundo o mesmo balanço, houve apenas um episódio crítico, dado usado pela consultoria para indicar a mudança de escala do problema ao longo de 2025.
O relatório também informa que agosto, setembro e outubro registraram os maiores cortes da série analisada, em um período marcado por maior volume de geração renovável disponível.
A consultoria associa o quadro à combinação entre crescimento das renováveis, limites de rede, baixa carga em determinados horários e necessidade de decisões operacionais para preservar a estabilidade do sistema.
Nesse contexto, o exemplo chileno passou a ser citado por executivos do setor por mostrar uma aplicação de baterias em um parque renovável já conectado à rede elétrica.
A tecnologia não elimina a necessidade de novas linhas de transmissão, segundo especialistas e empresas do setor, mas pode reduzir a pressão sobre a infraestrutura em horários específicos de sobra de energia.
Transmissão, regulação e armazenamento no setor elétrico
Executivos da EDP avaliam que a expansão da rede continuará necessária no Brasil, sobretudo pela distância entre áreas de forte produção renovável e grandes centros de consumo.
Ao mesmo tempo, projetos de transmissão exigem prazos longos de implantação, enquanto baterias podem ser instaladas em pontos estratégicos para responder a desequilíbrios operacionais de forma mais localizada.
Luís Barros, diretor-executivo de Geração Renovável da EDP, afirmou que Chile e Brasil enfrentam desafios semelhantes em sistemas com alta participação de renováveis.
De acordo com o executivo, há momentos em que a energia está disponível, mas a capacidade de transporte até os centros consumidores é insuficiente, o que provoca desperdício de eletricidade e distorções de preço.
A discussão regulatória também influencia a viabilidade dos projetos, porque regras de remuneração, encargos e contratação definem como o armazenamento será reconhecido no sistema elétrico.

Empresas do setor acompanham essas definições porque elas afetam diretamente o retorno econômico das baterias e a disposição de investidores em financiar novos sistemas de armazenamento no Brasil.
João Brito Martins afirmou que a companhia avalia de forma positiva a abertura desse mercado, mas ainda acompanha os detalhes regulatórios relacionados aos projetos de baterias no país.
Na avaliação do executivo, a experiência no Chile reduz incertezas técnicas relacionadas à construção, implantação e operação de equipamentos semelhantes em futuras oportunidades no mercado brasileiro.
O papel das baterias na transição energética
O armazenamento não substitui investimentos em transmissão, hidrelétricas, redes inteligentes ou ajustes de consumo, mas integra o conjunto de soluções discutidas para sistemas com maior presença de solar e eólica.
A função das baterias é deslocar energia no tempo, armazenando excedentes que poderiam ser cortados e entregando potência ao sistema quando houver demanda ou necessidade operacional.
Ricardo Ferraz, diretor-executivo de Engenharia e Construção para a América do Sul da EDP, afirmou que a transição energética deixou de depender apenas da expansão de fontes renováveis.
Segundo ele, baterias passaram a ser tratadas pela companhia como infraestrutura relevante para equilibrar geração e consumo em tempo real, especialmente em redes com maior variabilidade na oferta.
A EDP opera em 29 países e apresenta o armazenamento como uma das frentes de atuação no setor elétrico, em linha com projetos de renováveis e soluções de flexibilidade.
No caso brasileiro, a adoção dependerá de regras capazes de reconhecer os serviços prestados pelas baterias à rede e de modelos econômicos que tornem os projetos financiáveis.
A operação de Punta de Talca, no norte chileno, mostra uma aplicação já implantada de integração entre geração renovável e armazenamento em escala comercial na América do Sul.
Para o Brasil, a discussão envolve transformar o debate técnico em regras e projetos que permitam reduzir o desperdício de energia limpa, com definição de custos, remuneração e responsabilidades dentro do sistema elétrico.

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