Fiscalização na fronteira vira foco de atenção com risco sanitário para a cadeia de proteínas e para a exportação de carne brasileira
Se tem um assunto que deixa o agro em alerta máximo, é quando a ilegalidade encosta na porteira e mexe com sanidade. E é exatamente isso que está acontecendo: o contrabando de gados da argentina para o brasil, cruzando a fronteira por caminhos improvisados no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, voltou a ganhar força — e não é só “mais um problema de fiscalização”. O medo real é de o país ver anos (e bilhões) de trabalho indo pelo ralo por causa de um bicho que entra sem controle, sem documento e sem barreira sanitária.
Mesmo com a alta de preços na Argentina após a nova política econômica do presidente Javier Milei, o fluxo ilegal de animais cresceu. A movimentação envolve não apenas preço, mas também qualidade genética do rebanho, com destaque para raças europeias.
O avanço dessas entradas irregulares preocupa pela sanidade animal e pelo impacto sobre o mercado brasileiro de carnes, com reflexos diretos em um setor que movimenta mais de US$ 23 bilhões em vendas externas no último ano.
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O problema maior não é só crime: é sanidade e risco direto na exportação de carne
A entrada de gado sem controle oficial amplia o risco de problemas sanitários e atinge um ponto sensível para a Região Sul. A circulação de animais sem rastreio pode comprometer a confiança em áreas que levaram décadas para conquistar um status sanitário valorizado.
O Brasil lidera a exportação global de proteínas, e o volume do setor ajuda a dimensionar o tamanho do risco. No último ano, as vendas somaram mais de US$ 23 bilhões, com US$ 9,8 bilhões da avicultura, US$ 2,8 bilhões da suinocultura e US$ 10,8 bilhões da bovinocultura.
Quando o gado entra sem certificação de origem e sem passar por controle aduaneiro e sanitário, cresce a chance de contaminações e de questionamentos comerciais. O impacto pode chegar a mercados exigentes e afetar preços, contratos e habilitações.
Rotas clandestinas na fronteira e o uso de travessias fáceis
A principal rota apontada envolve a região entre Santo Antônio do Sudoeste (PR) e Dionísio Cerqueira (SC), pontos colados à fronteira com a Argentina. Há trechos em que a travessia pode ser feita a pé, facilitando o deslocamento clandestino.
Contrabandistas se aproveitam da falta ou da precariedade da fiscalização em postos avançados de controle sanitário. Caminhões carregados com animais circulam principalmente à noite, reduzindo a chance de abordagem.
Depois de entrar, o rebanho costuma seguir por estradas vicinais ou rurais até propriedades ou abatedouros próximos, em áreas que nem sempre estão longe da linha de fronteira. Em alguns trechos, existem propriedades lado a lado entre os dois países, o que amplia a complexidade do controle.
Certificação de área livre de aftosa e o risco de retrocesso na exportação de carne
O ponto mais sensível é o status de área livre de febre aftosa sem vacinação. Paraná e Rio Grande do Sul receberam certificação e reconhecimento na Organização Mundial de Saúde Animal em 2021. Santa Catarina tem o certificado desde 2007.
Essa condição é determinante para abrir, reabrir ou manter mercados que exigem alto padrão sanitário. Há compradores que não aceitam proteínas originadas de regiões com vacinação contra a doença, o que torna o status um ativo econômico.
A entrada de animais vindos de locais que ainda usam imunização, como ocorre na Argentina, pode levar a uma perda de confiança e a um recuo no status sanitário. Esse risco atinge diretamente a competitividade do setor e a estabilidade das exportações.
Por que Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul falam em prejuízo bilionário
O impacto potencial não se limita à bovinocultura. Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul respondem por quase a totalidade das exportações brasileiras de carne suína, com mais de 1,1 milhão de toneladas de um total de 1,2 milhão exportadas em 2023.
Os três estados também concentram 60% da avicultura comercial brasileira, ampliando a exposição da cadeia de proteínas. O risco sanitário pode alcançar a produção, a economia e o mercado regional, com possibilidade de prejuízos em escala de bilhões.
Há ainda a indicação de aumento no contrabando de outros itens, como carnes, agrotóxicos, alho, cebola e alimentos em geral. Esse cenário amplia as preocupações por envolver patologias típicas de outras culturas e pressionar a fiscalização em várias frentes.
Como funcionam as travas para evitar documentos falsos e gado “esquentado”
Para dificultar que animais entrem irregularmente e depois circulem com documentação adulterada, a Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) adotou mecanismos especiais para emissão das Guias de Trânsito Animal (GTAs) em áreas de risco, como fronteira e divisas entre estados com status diferentes.
Uma das exigências é o lacre de cargas, medida usada para evitar que um carregamento entre sem controle e seja apresentado depois como se tivesse origem local. A carga em transporte deve estar lacrada pelo serviço veterinário oficial de origem, e os números dos lacres precisam constar no campo de observações da GTA.
Também houve identificação de falsificação para preencher documentos exigidos para transporte. Em uma operação realizada há pouco mais de um ano, foi apontado o uso de declarações para indicar nascimento do rebanho no lado brasileiro, apesar de os animais terem vindo do país vizinho.
Um exemplo envolve a declaração de nascimento de 50 animais, todos machos. Não havia registro na fazenda, em quase meia década, do nascimento de uma única fêmea, mesmo com metade do rebanho sendo desse gênero.
O que a lei permite, quais estados podem comprar e o que pode ocorrer agora
Quem participa desses crimes pode responder por contrabando, associação criminosa, falsidade ideológica e infração de medida sanitária preventiva, com penas que podem somar 18 anos de prisão. Quando um carregamento irregular é apreendido, os animais seguem para abate, com destruição e descarte.
A regra de trânsito e aquisição também é rígida: estados só podem comprar animais de locais com o mesmo status sanitário e com a certificação exigida. Para os estados do Sul, livres de aftosa sem vacinação, a compra pode ocorrer apenas de unidades com o mesmo status, incluindo Rondônia e Acre.
O Brasil tem o segundo maior rebanho bovino do mundo, com 234,4 milhões de animais, atrás da Índia, com cerca de 300 milhões de cabeças. Mesmo assim, o status sanitário pesa mais do que o tamanho do rebanho quando o foco é acesso a mercados e manutenção de habilitações.
Há mercados como Japão e Coreia do Sul que não compram carne suína do Paraná por questões ligadas ao histórico de status sanitário. Esse tipo de restrição mostra como qualquer risco na fronteira pode reverberar em toda a cadeia.
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