O Brasil amplia sua estratégia em energia renovável ao investir em soluções no oceano. O INPO lidera pesquisas offshore com foco em hidrogênio verde, inovação científica e transição energética sustentável.
O Brasil entrou em uma nova etapa da transição energética ao anunciar a criação do Centro Temático de Energia Renovável no Oceano – Energia Azul, iniciativa liderada pelo INPO (Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas) com financiamento da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Segundo matéria publicada pelo site ESG Inside no dia 2 de fevereiro, o projeto conta com cerca de R$ 15 milhões em recursos públicos e tem como foco o desenvolvimento de tecnologias de energia renovável aplicadas ao oceano, com ênfase em soluções offshore e na produção de hidrogênio verde.
Entenda o objetivo do INPO com o projeto no Oceano
Logo no início, o projeto se destaca por reunir três pilares estratégicos: potencial natural abundante, expertise brasileira em operações offshore e base científica consolidada. A combinação desses fatores posiciona o país como um dos mais promissores polos globais para o avanço da chamada energia azul, conceito que envolve a geração limpa a partir de recursos marinhos.
Além disso, o centro nasce com o objetivo explícito de levar tecnologias ainda em estágio pré-comercial a níveis mais elevados de maturidade, criando condições bases técnicas para futuras ações industriais em larga escala e contribuindo diretamente para a redução de emissões e para a segurança energética nacional.
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Energia renovável no oceano impulsiona nova estratégia do INPO
O Centro Temático de Energia Azul será estruturado para desenvolver quatro tecnologias principais de energia renovável no oceano, todas alinhadas às demandas atuais da transição energética. Sob coordenação do INPO, o projeto abrange a conversão da energia das ondas, das correntes de maré, do gradiente térmico oceânico (OTEC) e a produção de hidrogênio verde a partir de fontes renováveis offshore.
Trata-se de uma iniciativa inédita no país, tanto pela diversidade tecnológica quanto pelo foco na integração entre pesquisa aplicada e uso comercial. Segundo o diretor-geral do instituto, Segen Estefen, o Brasil reúne diferenciais importantes para liderar esse movimento.
Segundo ele, a abundância de fontes renováveis no oceano, aliada à expertise do Brasil em operações offshore, cria condições favoráveis para que o mar se torne um elemento estratégico no avanço da transição energética. O projeto também prevê a possibilidade de coprodução de água dessalinizada, ampliando ainda mais seu impacto socioambiental.
Tecnologias offshore e hidrogênio verde como solução para intermitência
Um dos eixos mais relevantes do projeto envolve o desenvolvimento de sistemas capazes de simular a produção de hidrogênio verde a partir da emulação da energia eólica offshore. A proposta utiliza água do mar dessalinizada para o processo de eletrólise, conectando geração renovável, armazenamento energético e estabilidade do sistema.
A intermitência sempre foi um dos principais desafios das fontes eólicas no oceano. Ao converter a eletricidade excedente em hidrogênio, a energia renovável produzida pode ser armazenada e utilizada de forma flexível, reduzindo a dependência das condições climáticas.
Esse modelo aumenta a previsibilidade, a eficiência e a competitividade dos projetos offshore, especialmente em larga escala. Ele também abre espaço para o uso do hidrogênio em setores industriais e no transporte, fortalecendo uma cadeia energética integrada e de baixo carbono.
Potencial da energia offshore na matriz elétrica brasileira
Os dados disponíveis reforçam a relevância estratégica dessas tecnologias. Atualmente, existem cerca de 250 gigawatts em projetos de eólica offshore em processo de licenciamento ambiental no Ibama. Mesmo considerando sobreposições de áreas, a implantação de apenas 20% desse potencial poderia adicionar aproximadamente 50 gigawatts à matriz elétrica nacional.
Esse volume equivale a quase um quarto da capacidade instalada atual do país, estimada em cerca de 212 gigawatts. O número evidencia o papel decisivo da energia renovável no oceano para a expansão da oferta elétrica brasileira, especialmente em um contexto de crescimento da demanda e necessidade de descarbonização. A atuação do INPO nesse estágio pré-comercial é fundamental para transformar potencial técnico em projetos viáveis do ponto de vista econômico e ambiental.
Energia renovável offshore para reduzir emissões industriais
As soluções desenvolvidas no Centro de Energia Azul não se limitam ao setor elétrico. Elas têm aplicação direta na redução de emissões em operações offshore de óleo e gás, especialmente em unidades flutuantes que ainda dependem de turbinas movidas a gás natural para geração de energia.
Além disso, setores classificados como hard-to-abate, como fertilizantes, siderurgia, transporte pesado e indústria cimenteira, poderão empregar essas tecnologias de energia renovável e hidrogênio verde para apoiar seus processos de transição energética.
A possibilidade de integrar geração limpa, armazenamento e uso industrial amplia o alcance econômico do projeto, criando oportunidades para novos modelos de negócio e cadeias produtivas sustentáveis.
Oceano e energia limpa para regiões remotas do Brasil
Outro destaque do projeto é o desenvolvimento de turbinas para aproveitamento das correntes de maré e de rios de fluxo contínuo. Instalados de forma submersa, esses sistemas convertem diretamente o movimento da água em eletricidade, sem impacto visual e com alta previsibilidade de geração.
Mesmo em menor escala, a tecnologia apresenta grande potencial para atender comunidades isoladas, especialmente na costa amazônica, onde o acesso à rede elétrica é limitado e muitas localidades ainda dependem de geradores a diesel.
Estefen destaca que mesmo equipamentos de menor escala são capazes de atingir níveis elevados de capacidade instalada. A aplicação dessas soluções pode representar um avanço relevante no acesso à energia limpa, contínua e confiável em regiões remotas.
Desenvolvimento científico, inovação e formação de especialistas
Do orçamento total do projeto, R$ 4,3 milhões serão destinados a bolsas de pesquisa para estudantes de mestrado, doutorado e pós-doutorado. As atividades serão realizadas em parceria com a UFRJ, UFPA, UFPE e FGV.
Esse investimento fortalece a formação de especialistas em energia renovável, tecnologias offshore, engenharia oceânica e hidrogênio verde, criando uma base sólida de capital humano para sustentar o avanço tecnológico no longo prazo.
A produção de conhecimento nacional reduz a dependência de soluções importadas e aumenta a competitividade do Brasil no cenário internacional, especialmente no contexto da economia de baixo carbono.
Projetos-piloto e avanço da energia renovável no oceano
Ao longo do projeto, serão desenvolvidos quatro equipamentos principais: um conversor de energia das ondas, um sistema OTEC baseado no ciclo de Rankine com amônia, um módulo de produção de hidrogênio verde e uma turbina para correntes de maré.
Esses equipamentos serão projetados, construídos e testados em ambiente laboratorial e operacional, permitindo validar desempenho, eficiência e confiabilidade. A entrega de projetos-piloto prontos para instalação no mar representa um marco para a energia offshore no Brasil, preparando o caminho para aplicações comerciais em larga escala.
O oceano como fronteira estratégica da transição energética brasileira
A criação do Centro Temático de Energia Azul consolida uma visão de longo prazo para o uso sustentável do oceano. Com liderança do INPO, apoio institucional da Finep e integração com universidades de referência, o projeto conecta ciência, inovação e estratégia energética.
O avanço das tecnologias offshore e do hidrogênio verde posiciona o Brasil em uma nova etapa da energia renovável, com potenciais impactos diretos na economia, no meio ambiente e na segurança energética. Mais do que um centro de pesquisa, a iniciativa simboliza a transformação do potencial marítimo brasileiro em desenvolvimento sustentável, competitivo e alinhado aos desafios do século XXI.


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