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Brasil pode ficar para trás, e de forma irreversível, na corrida tecnológica global que envolve a implantação de Data Centers e investimentos em Inteligência Artificial (IA). Economias muito menores, mas mais ágeis, como às da Argentina e Paraguai, saíram na frente

Escrito por Marcello Sigwalt
Publicado em 08/06/2026 às 11:00
Atualizado em 08/06/2026 às 11:02
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Situação crítica enfrenta contagem regressiva, uma vez que persiste a inércia para a aprovação do projeto que regula o setor (PL n.º 2.338/2023), até hoje ‘empacado’ no Congresso Nacional, por conta de ‘discussões intermináveis’ e nada proativas. Outro fator determinante é a falta de uma infraestrutura computacional. Enquanto isso, cresce a ‘fuga de cérebros’ para outros mercados com maior segurança jurídica

O Brasil pode estar ficando para trás (e de forma irreversível) na corrida global por data centers e Inteligência Artificial (IA), caso não reverta, no curto prazo, a atual morosidade no processo de regulamentação do setor (projeto de lei n.º 2.338/2023, ‘empacado’ no Congresso Nacional). A consequência é o atraso de investimentos em negócios de alta performance, que deve comprometer a infraestrutura computacional.

A previsão sombria é do diretor da Divisão Enterprise da Nvidia – empresa mais valiosa do mundo em valor de mercado e líder absoluta na fabricação de semicondutores (microchips) e infraestrutura dedicados à Inteligência Artificial (IA) – Márcio Aguiar, ao acentuar que, sem projetos locais robustos no campo dos data centers, a tendência é a fuga de cientistas de dados, engenheiros de ‘machine learning’ e pesquisadores para oportunidades, inclusive, para concorrentes vizinhos, na própria América Latina.

https://marcellosigwalt.substack.com/p/atraso-em-adaptacao-a-novas-tecnologias

Iniciativas oficiais ‘mergulham’ em discussões ‘sem fim’

Enquanto isso, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) e o programa Redata (Regime Especial de Incentivos para Computação em Nuvem e Centros de Dados) estão ‘mergulhados’ em discussões sem fim em Brasília.

O PBIA prevê investimentos de R$ 23 bilhões, com foco em infraestrutura, capacitação e em áreas prioritárias como saúde e educação. No entanto, para que seja efetiva, a iniciativa requer maior velocidade de execução governamental e a integração eficiente entre o setor público, a academia e a iniciativa privada.

Após ter sido aprovada pela Câmara dos Deputados, a Medida Provisória que institui o Redata acabou ‘caducando’ (perdeu o prazo de validade) no Senado. Ela previa a suspensão de tributos federais até cinco anos, visando a aquisição de máquinas, equipamentos e componentes de tecnologia, mediante o compromisso de empresas com a realização de investimentos produtivos, voltados à sustentabilidade e à ampliação da capacidade tecnológica instalada no país.

Inércia pode condenar o país a meroconsumidor de soluções prontas

Caso a ‘lerdeza’ na tomada decisão tupiniquim se cristalize, Aguiar admite que o país corre o risco de perpetuar a ‘atávica’ dependência tecnológica externa, se limitando a mero consumidor de soluções prontas, em lugar de produzir tecnologia de ponta. Esse padrão estrutural, que se repete em toda a América Latina, é um fator limitante da criação de propriedade intelectual local, bem como mantém as empresas dependentes da volatilidade dos custos determinados pelos provedores globais.   

Fazendo coro aos prognósticos de Aguiar, o sócio do Softbank, Eduardo Vieira ao participar do programa BM&C News Brazilian Week 2026, foi direto ao ponto: “Acho que a gente tem um descompasso muito grande entre o que está acontecendo no âmbito internacional e o que poderia estar acontecendo no Brasil e não está acontecendo”.

Ao destacar que no exterior, atualmente, o mercado tem dado ênfase a “investimentos em camadas de infraestrutura de IA, data centers, energia, chips, silício, sem contar a parte de fundação para as empresas e para a nova economia que vai surgir, com aplicações com base na IA no dia a dia, e transformar a indústria, como foi com o IPhone e Amazon, entre outros”.

Ao comentar que os investimentos nessa tecnologia de ponta “se concentram muito nos Estados Unidos, Vieira entende que o Brasil está perdendo essa oportunidade, apesar de possuir um matriz energética limpa e uma tecnologia para atrair data centers, mas não tem conseguido atrair o capital estrangeiro para essa área”. Como exemplo da perda de mercados, o sócio do Softbank lembra que a OpenAI está investindo em um data center na Argentina, enquanto o Paraguai avança na mesma direção.

Solução começa com uma política regulatória ‘clara’

Para reverter o viés negativo, Vieira entende que o país precisa, com urgência, oferecer “uma política regulatória bem clara, um projeto de país, para que a gente não fique para trás nessa corrida tecnológica, em que os EUA e a China estão bem à frente, com investimentos na casa de trilhões de dólares. Embora seja otimista, ao afirmar que ‘dá tempo’ para que o Brasil acompanhe o ritmo frenético da IA no planeta Vieira adverte: “Se houver uma vontade política, uma confluência de interesses e se o governo entender o que está acontecendo lá fora e priorizar esse diálogo com a iniciativa privada, ainda dá tempo, mas não temos muito tempo, pois estamos chegando num ponto crítico que talvez não dê mais para alcançar”.

Dados do Ministério de Minas e Energia (MME) revelam que os pedidos de conexão para novos projetos de data centers cresceram 330%, de 2024 para 2025. No final do ano passado, o estudo já contabilizava 28,5 GW de demanda solicitada para projetos previstos até 2038. Atualmente, os 205 data centers existentes no país, em fases que vão desde operação a projetos em construção totalizam R$ 114,5 bilhões em investimentos estimados.

Em entrevista à Bloomberg Línea, o executivo da Nvidia não mede palavras: “Estamos perdendo a oportunidade de embarcar nesse trem que está passando”, dispara, acrescentando que “a tecnologia está evoluindo tão rapidamente que cada um ou dois meses de atraso já nos colocam em uma nova era da inteligência artificial.”

Sobre a inércia tupiniquim no tema regulação, Aguiar revela que economias menores do que o Brasil e México têm apresentado ‘maior agilidade regulatória para atrair investimentos e retenção de capital humano’, em especial, Chile, Uruguai, El Salvador, Costa Rica, Equador, República Dominicana e Colômbia.

Desafios do ecossistema de IA brasileiro

Infraestrutura e hardware: O alto custo de equipamentos avançados, como os processadores gráficos (GPUs), torna a pesquisa de ponta e o treinamento de grandes modelos de linguagem (LLMs) muito mais caros e difíceis para empresas e centros de pesquisa nacionais.  

Legislação e regulamentação: O atraso na aprovação de marcos regulatórios (como o Projeto de Lei n.º 2.338/2023, que tramita no Congresso) gera incerteza jurídica para investidores e empresas que desejam desenvolver soluções locais.  

Desigualdade e adoção: O uso da IA é muito desigual no país. Ele está concentrado nas regiões Sul e Sudeste e nas classes sociais mais altas, o que impede uma democratização dos ganhos de produtividade proporcionados pela tecnologia.  

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Marcello Sigwalt

Sou um profissional de comunicação, especializado em Economia, Política, Meio Ambiente, Ciência & Tecnologia, Educação, Esporte e Polícia, nas quais exerci as funções de editor, repórter, consultor de comunicação e assessor de imprensa. Destaco as atividades de edição e reportagem, mediante o uso de linguagem informativa e fluente que estimule o debate, a reflexão e a consciência crítica. No período de 2003-2011, em Brasília, atuei como assessor de imprensa no Congresso Nacional (na Câmara dos Deputados e no Senado federal); consultor de comunicação do Projeto de Gestão Ambiental Rural (PGAR), do Ministério do Meio Ambiente e das Nações Unidas, em 2006; editor da Assessoria de Comunicação do Ministério de Ciência e Tecnologia (Ascom/MCTI), em 2012. Como repórter especial, assinei a capa das revistas: Veja (prisão do senador Luiz Estevão, 2000); Galileu (Peritos criminais, 2010) e Conjuntura Econômica-FGV (Comércio exterior do Brasil e Crise Argentina, 2002). Atuei como editor-assistente do Portal iG para as eleições de 2010. Em 2013, cobri a cobertura do seminário internacional sobre energia, para a Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (Amcham-Rio). De 2014 a 2015, atuei como repórter especial da revista Desafios do Desenvolvimento (Ipea); repórter da revista Brasil Energia Petróleo (RJ) e editor do site Janus Investimentos (SP), em 2018 e 2019, e redator e editor do site Capitalist. De 2022 a 2025, fui editor de Economia do jornal Correio da Manhã (RJ). Atualmente, produzo conteúdo para os sites Linkedin e Substack.

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