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Escavações para um estacionamento solar de 900 kW no litoral da Itália revelam no subsolo uma necrópole de 2.300 anos com cerca de 100 sepulturas e um cinto de bronze ligado à elite de um povo que habitava o Adriático antes de Roma

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 10/06/2026 às 19:21
Atualizado em 10/06/2026 às 19:25
Necrópole pré-romana com cerca de 100 sepulturas dos frentanos é achada em obra de estacionamento solar fotovoltaico em Vasto na Itália.
Necrópole pré-romana com cerca de 100 sepulturas dos frentanos é achada em obra de estacionamento solar fotovoltaico em Vasto na Itália.
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A Soprintendência de Arqueologia de Chieti e Pescara confirmou sepultamentos dos séculos V e IV antes de Cristo na zona industrial de Punta Penna. A obra fotovoltaica não foi cancelada e teve o perímetro ajustado, enquanto o Ministério da Cultura da Itália financia ao menos mais um ano de escavações e restauros.

A descoberta veio a público em 23 de maio de 2026, quando a prefeitura de Vasto e a imprensa da região do Abruzzo, no centro sul da Itália, confirmaram que as sondagens arqueológicas exigidas antes da construção de um estacionamento coberto por painéis solares haviam encontrado uma necrópole pré-romana intacta. O terreno fica na zona industrial de Punta Penna, na porção norte do município de Vasto, a cerca de 70 quilômetros de Pescara, de frente para o mar Adriático.

O achado só aconteceu porque a lei italiana de arqueologia preventiva obriga sondagens antes de obras desse tipo. Segundo o portal local Zonalocale, a Soprintendência de Arqueologia, Belas Artes e Paisagem das províncias de Chieti e Pescara exigiu, ainda em 2024, que a empresa responsável pelo projeto fotovoltaico contratasse investigações arqueológicas prévias como condição para liberar a licença. Foi durante essas operações preliminares, conduzidas pela arqueóloga Giuseppina Mazzella sob supervisão direta do órgão, que as primeiras sepulturas apareceram debaixo da terra, entre os galpões do distrito industrial.

Sepulturas variadas e um cinto de bronze que aponta para a elite local

Necrópole pré-romana com cerca de 100 sepulturas dos frentanos é achada em obra de estacionamento solar fotovoltaico em Vasto na Itália.
O comunicado oficial da Soprintendência, publicado no site do Ministério da Cultura da Itália, descreve um amplo núcleo funerário com numerosas sepulturas datadas preliminarmente entre os séculos V e IV antes de Cristo. 

O assessor de Meio Ambiente da prefeitura de Vasto, Gabriele Barisano, detalhou ao jornal Chiaro Quotidiano que o sítio reúne cerca de 100 sepulturas, o que faria dele uma das maiores necrópoles já encontradas no território, onde achados anteriores eram bem menores.

Os tipos de enterramento variam de fossas simples escavadas na terra a estruturas mais elaboradas. 

De acordo com o jornal regional Sardegna Oggi, que reproduziu as informações da Soprintendência, os arqueólogos identificaram covas preenchidas com pedras, sepultamentos sobre leitos de telhas e uma tumba em caixa de tijolos contendo um cinto de bronze, objeto interpretado como provável sinal de alto posto social do morto.

Elementos de ferro e peças de cerâmica também aparecem junto aos restos humanos, em bom estado de conservação segundo o Zonalocale.

Perto das tumbas, os pesquisadores encontraram ainda uma estrutura de alvenaria cuja função permanece desconhecida. 

Conforme a Soprintendência, o material recolhido na superfície sugere que o local não foi abandonado após a época pré-romana e continuou frequentado no período helenístico e romano, o que adiciona uma camada extra de interesse científico ao sítio.

Quem eram os frentanos que ocupavam a costa do Abruzzo antes da expansão romana

Necrópole pré-romana com cerca de 100 sepulturas dos frentanos é achada em obra de estacionamento solar fotovoltaico em Vasto na Itália.
A necrópole é atribuída aos frentanos, povo itálico que habitava a costa adriática meridional antes da romanização completa do território. 

Segundo o site especializado em patrimônio Stile Arte, Vasto corresponde à antiga Histonium, um dos principais centros frentanos, e naquela época a região ocupava posição estratégica nas rotas comerciais do Adriático, em contato com influências gregas e mediterrâneas.

Para os arqueólogos, cemitérios desse período valem ouro porque preservam informações sociais que os assentamentos nem sempre mantêm. 

O comunicado da Soprintendência afirma que o novo contexto abre uma oportunidade importante de aprofundamento sobre as dinâmicas de ocupação e os rituais funerários das comunidades itálicas do sul do Abruzzo, região já conhecida na literatura científica por vestígios de frequentação antiga.

A obra do estacionamento fotovoltaico de 900 kW continua com o perímetro ajustado

O projeto que motivou as escavações é um estacionamento solar de 900 kW de potência, pouco menos de 1 megawatt, com cerca de 200 vagas gratuitas e videomonitoradas. 

Segundo o Zonalocale, a iniciativa pertence à empresa Comunità Energetiche, sociedade com sede em Terni, na região da Úmbria, e a energia gerada pelos painéis deverá abastecer empresas da própria zona industrial de Punta Penna, com economia estimada pela companhia em 30% na conta de luz, número que é uma projeção do projeto e não um resultado verificado.

A descoberta não cancelou o empreendimento. 

O assessor Gabriele Barisano declarou ao Chiaro Quotidiano que o objetivo segue sendo construir o estacionamento sob os módulos fotovoltaicos e que a prefeitura estuda transformá-lo em um ponto intermodal com bicicletas e vans elétricas, por estar próximo da reserva natural de Punta Aderci.

Já o perímetro da estrutura de alvenaria antiga foi excluído da área de instalação do campo solar e do estacionamento, conforme informou o portal VastoWeb com base na Soprintendência.

Limites do achado e perguntas que seguem sem resposta

Necrópole pré-romana com cerca de 100 sepulturas dos frentanos é achada em obra de estacionamento solar fotovoltaico em Vasto na Itália.
Nem tudo poderá ser preservado no próprio terreno. 

Segundo o VastoWeb, a Soprintendência explicou que as sepulturas em fossa simples, sem muros ou elementos arquitetônicos, não permitem musealização no local: concluída a escavação e removidos os objetos e os restos ósseos, sobra apenas o buraco na terra.

Por isso, a valorização do sítio dependerá do restauro das peças e da pesquisa em laboratório, um trabalho que o próprio órgão estima em pelo menos mais um ano.

As próximas etapas já têm financiamento garantido. 

De acordo com o comunicado oficial, novas campanhas de investigação serão custeadas com recursos diretos do Ministério da Cultura da Itália, enquanto as escavações iniciais foram pagas pela empresa proponente, como manda a legislação de arqueologia preventiva.

Uma seleção das peças mais significativas será destinada ao novo percurso museológico em fase de projeto no Palazzo d’Avalos, em Vasto, segundo a Soprintendência.

A datação fina das tumbas, a identidade dos sepultados e a função da estrutura de alvenaria permanecem em aberto.

Quando a transição energética encontra o patrimônio enterrado

O caso de Vasto mostra um efeito colateral pouco comentado da corrida mundial por energia solar: quanto mais painéis avançam sobre terrenos nunca escavados, mais o subsolo devolve surpresas. 

Na Itália, a obrigação legal de sondagens prévias transformou um canteiro de obras comum em um dos achados arqueológicos mais relevantes da história recente da região, sem inviabilizar o projeto de energia limpa, que seguirá em área ajustada.

E você, acha que obras de energia renovável deveriam parar completamente diante de um achado arqueológico ou o ajuste de perímetro é a solução equilibrada? Deixe sua opinião nos comentários e participe da conversa, sempre com respeito às diferentes opiniões.

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Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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