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Usinas nucleares aposentadas viram desmontagens bilionárias que parecem cirurgia de guerra: cada reator pode custar até US$ 2 bilhões, levar 20 anos para desaparecer e deixar toneladas de aço, concreto e resíduos radioativos sob controle técnico rígido

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 10/06/2026 às 19:45
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Descomissionamento de usinas nucleares
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Descomissionamento de usinas nucleares pode custar até US$ 2 bilhões, levar décadas e já virou um dos maiores desafios da engenharia e da energia no mundo.

Quando uma usina nuclear para de gerar eletricidade, a parte mais difícil da história muitas vezes ainda nem começou. Em vez de uma demolição convencional, a instalação entra em um processo longo de descomissionamento nuclear, com retirada de combustível, descontaminação, desmontagem controlada, monitoramento radiológico e gestão de resíduos. Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, o custo de descomissionar um reator nuclear de potência, incluindo o tratamento dos resíduos associados, normalmente varia entre US$ 500 milhões e US$ 2 bilhões.

Esse número ajuda a explicar por que o fim da vida útil de uma usina se tornou uma questão central para o setor nuclear global. A mesma agência afirma que o processo costuma levar em torno de 15 a 20 anos, embora possa variar conforme a tecnologia do reator, o estado da instalação, a estratégia regulatória escolhida e a complexidade do local.

O desafio cresce porque o mundo está entrando justamente na fase em que mais reatores envelhecem ao mesmo tempo. O World Nuclear Industry Status Report 2024 mostra que, entre os reatores já fechados, o número de instalações totalmente desmontadas ainda é pequeno, o que revela que a indústria nuclear mundial está apenas começando a enfrentar em escala real o custo total de encerrar suas usinas.

Desligar o reator é só o começo do descomissionamento nuclear

A ideia de que uma usina nuclear desativada desaparece logo após parar de operar está errada. Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, o desligamento definitivo é apenas a transição para uma etapa nova e extremamente técnica, que inclui a remoção do combustível nuclear, a limpeza de sistemas contaminados, a desmontagem de estruturas e o gerenciamento dos materiais resultantes.

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Esse processo é lento porque cada parte da instalação precisa ser medida, classificada e tratada de acordo com o nível de contaminação. Não basta cortar tubulações, remover concreto ou desmontar equipamentos pesados. É preciso verificar o que pode ser liberado, o que pode ser reciclado e o que precisa seguir para armazenamento especializado como resíduo radioativo.

É justamente essa combinação entre engenharia pesada, controle regulatório e proteção radiológica que transforma o descomissionamento em uma das operações industriais mais complexas do setor energético. A fase de geração de eletricidade termina, mas a fase de desmontagem segura pode se estender por décadas.

Por que desmontar uma usina nuclear custa tanto

Os custos impressionam porque uma instalação nuclear reúne estruturas enormes, equipamentos altamente especializados e áreas que permaneceram expostas à radiação por muitos anos. Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, o orçamento de US$ 500 milhões a US$ 2 bilhões já inclui não apenas a desmontagem física, mas também a gestão de resíduos e todo o aparato técnico necessário para garantir segurança ao longo do processo.

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Em reatores maiores e mais complexos, como os refrigerados a gás e moderados a grafite, o custo tende a ser ainda mais elevado.

A própria agência destaca que esse tipo de unidade é significativamente mais caro de descomissionar do que reatores de água pressurizada ou água fervente, justamente porque possui estruturas maiores e desmontagem mais complicada.

Isso significa que o custo final de uma usina nuclear não se resume à construção e à operação. Parte relevante da conta aparece no fim da vida útil, quando o objetivo deixa de ser produzir energia e passa a ser devolver o local a uma condição segura e regulatoriamente aceitável.

Nem tudo vira lixo radioativo no fim da usina

Uma percepção comum é imaginar que quase tudo dentro de uma usina nuclear vira resíduo radioativo. Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, essa visão é incorreta. Uma parcela dos materiais pode ser descontaminada e, se atender aos limites regulatórios, pode até ser reutilizada ou reciclada.

Isso vale para parte do aço, do concreto e de outros componentes que não ficaram contaminados acima dos níveis permitidos.

Por que desmontar uma usina nuclear custa tanto
Por que desmontar uma usina nuclear custa tanto

O problema é que a triagem exige medição detalhada e classificação rigorosa, o que torna a operação mais lenta, técnica e cara. O desafio não está apenas no volume físico da desmontagem, mas em identificar com precisão o destino correto de cada material.

Mesmo quando apenas uma fração precisa de armazenamento especializado, o volume total movimentado é enorme. Por isso, o descomissionamento nuclear depende tanto de logística, monitoramento e planejamento de longo prazo quanto de corte e demolição propriamente ditos.

A maioria dos reatores fechados ainda não desapareceu completamente

O retrato global mostra por que o tema ganhou tanto peso. Segundo o World Nuclear Industry Status Report 2024, de 213 reatores nucleares de potência já fechados, apenas 23 haviam sido totalmente descomissionados até a publicação do levantamento. Pior para quem busca recuperação completa do terreno: apenas 9 unidades tinham sido liberadas do controle regulatório como áreas efetivamente devolvidas em condição de “greenfield”.

 o mundo ainda acumula mais reatores aposentados do que reatores efetivamente desmontados até o fim
o mundo ainda acumula mais reatores aposentados do que reatores efetivamente desmontados até o fim

Esse dado mostra que o mundo ainda acumula mais reatores aposentados do que reatores efetivamente desmontados até o fim. Em outras palavras, a indústria nuclear global possui experiência operacional de desativação, mas ainda convive com um passivo crescente de instalações encerradas cujo ciclo final continua em andamento.

Quanto mais reatores antigos se aproximam do fim da vida útil, maior tende a ser essa pressão. O problema não é apenas tecnológico. É também financeiro, regulatório e logístico, porque cada projeto exige anos de trabalho especializado e grande volume de capital.

O grande desafio do século nuclear pode ser desmontar, não construir

Durante décadas, o foco principal do debate energético esteve na construção de novas usinas e na capacidade da energia nuclear de gerar eletricidade sem emissões diretas de carbono. Mas o cenário atual mostra que a fase final dessas instalações pode se tornar um desafio tão grande quanto a fase de expansão do parque nuclear.

Com custos bilionários, cronogramas longos e baixa proporção de projetos totalmente encerrados, o descomissionamento nuclear já deixou de ser um detalhe técnico para se transformar em uma das maiores frentes da engenharia pesada contemporânea. A usina pode parar de produzir em um dia. O fim real dela, porém, pode levar uma geração inteira.

No fim, a pergunta mais incômoda para o setor talvez não seja apenas como construir a próxima usina, mas como desmontar com segurança as centenas que envelhecem ao mesmo tempo no mundo inteiro.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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