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Botsuana ergue mais de 5.000 km de cercas veterinárias para separar búfalos selvagens do gado, conter a febre aftosa e proteger uma indústria de carne que sustenta a economia do país

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 30/12/2025 às 22:13
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Botsuana construiu mais de 5.000 km de cercas veterinárias para conter a febre aftosa, proteger o gado e viabilizar exportações de carne.

Botsuana é um país pouco populoso, em grande parte coberto por savanas e áreas naturais, mas abriga um dos maiores sistemas de cercas sanitárias já implantados no mundo. Conhecidas oficialmente como Veterinary Cordon Fences, essas estruturas não foram pensadas para segurança humana ou fronteiras políticas, mas para algo ainda mais sensível: impedir que doenças animais destruam a principal base econômica do país.

O projeto começou a ganhar forma a partir da década de 1950 e se expandiu continuamente ao longo das décadas seguintes, criando uma malha territorial de cercas que hoje soma mais de 5.000 quilômetros de extensão.

Quando a doença vira questão nacional

O grande inimigo por trás das cercas é a febre aftosa, uma doença viral altamente contagiosa entre animais de casco fendido. Na África Austral, o principal reservatório natural do vírus é o búfalo-africano, abundante em áreas protegidas como o Delta do Okavango e parques nacionais.

Para Botsuana, o problema não era apenas sanitário, mas econômico. O país construiu sua reputação internacional como exportador de carne bovina de alta qualidade e, para manter acesso a mercados rigorosos como a União Europeia, precisava comprovar controle absoluto sobre doenças.

Sem as cercas, uma única transmissão poderia fechar mercados inteiros por anos.

Uma rede de separação territorial

As Veterinary Cordon Fences não formam uma linha contínua única, mas um sistema de corredores e barreiras estrategicamente posicionados para separar áreas de vida selvagem das regiões de criação de gado. Algumas cercas cruzam o país de leste a oeste; outras isolam zonas específicas próximas a parques naturais.

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Em termos práticos, Botsuana foi dividida em zonas sanitárias, cada uma com regras próprias de circulação animal, vacinação e transporte. As cercas são o elemento físico que torna essa divisão possível.

Engenharia simples, impacto gigantesco

Tecnicamente, as cercas são relativamente simples: postes cravados no solo e fios de arame, em geral com altura suficiente para impedir a passagem de búfalos.

O impacto, no entanto, é colossal. Ao longo de milhares de quilômetros, essas estruturas redefiniram fluxos de animais, rotas tradicionais de migração e até o uso do território por comunidades humanas.

Manter as cercas operacionais exige inspeções constantes, reparos após enchentes e substituição de trechos danificados por animais de grande porte.

Proteção econômica em números

A pecuária bovina já respondeu historicamente por até 80% das exportações agrícolas de Botsuana. Graças ao sistema de cercas e ao rigor sanitário associado, o país se tornou um dos raros da África autorizado a exportar carne bovina para mercados com exigências extremamente altas.

Sem as Veterinary Cordon Fences, esse acesso simplesmente não existiria.

O custo ambiental da separação

Embora eficazes do ponto de vista sanitário, as cercas também geraram controvérsias. Ao longo dos anos, pesquisadores documentaram impactos sobre rotas migratórias de animais silvestres, especialmente antílopes e zebras, que historicamente atravessavam grandes distâncias em busca de água e pastagem.

Em períodos de seca severa, essas barreiras físicas contribuíram para mortes em massa de animais incapazes de alcançar áreas mais favoráveis. O dilema ficou claro: proteger a economia significava alterar profundamente a ecologia.

Ajustes e redesenho ao longo do tempo

Diante das críticas, o governo de Botsuana passou a revisar o posicionamento de algumas cercas, remover trechos específicos e estudar soluções alternativas em áreas mais sensíveis. Ainda assim, o núcleo do sistema permanece ativo, porque a ameaça sanitária continua real.

A febre aftosa não desapareceu da África Austral, e o risco de reinfecção segue constante.

Um modelo copiado e debatido

O sistema de cercas veterinárias de Botsuana passou a ser estudado por organismos internacionais como a FAO e por outros países que enfrentam conflitos entre fauna selvagem, agricultura e exportação de alimentos.

Ele se tornou referência de engenharia territorial aplicada à biossegurança, mas também um exemplo dos limites desse tipo de solução.

Não é uma obra celebrada pela estética ou grandiosidade visual, mas pelo efeito invisível que produz na economia nacional.

Quando a cerca sustenta um país

As Veterinary Cordon Fences mostram que grandes obras não precisam ser pontes, barragens ou arranha-céus para mudar o destino de uma nação.

Em Botsuana, milhares de quilômetros de arame foram suficientes para transformar a pecuária em um pilar econômico estável, conectar o país ao comércio global e redesenhar o mapa sanitário do território.

No fim, essas cercas não apenas separam animais. Elas delimitam onde começa e onde termina a viabilidade econômica de um país inteiro.

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Richard Hoare
Richard Hoare
06/01/2026 12:26

This article is very inaccurate and biased towards the cattle industry Botswana’s economic mainstay is exported minerals NOT beef; the latter is very small compared to the former. The EU does not need high quality beef as it has enough of its own; Botswana exports low quality beef which is in short supply in the EU. The partitioning of the country’s rangelands has been devastating for their natural ecology. There are far less environmentally damaging ways to produce beef which is FMD free – look up ‘Commodity Based Trade’ in Botswana.

Dr. Fenix
Dr. Fenix
03/01/2026 21:12

Poderiam aproveitar as cercas e vacinar também os búfalos e assim preservar eles da aftosa.

J. T. Mukutiri
J. T. Mukutiri
01/01/2026 16:06

This is a good start not just for Botswana but Southern Africa and can be refined with time and the site specific biosecurity challenges. I have no doubt this can be helpful to the Northern Communal Areas of Namibia that have been affected by biosecurity issues for decades.

Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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