Cientistas japoneses criaram a primeira bateria que respira ar e armazena o dobro de energia das baterias comuns — e ela funciona à temperatura ambiente, sem precisar de oxigênio puro
Uma bateria que usa o próprio ar como combustível. Parece ficção científica, mas pesquisadores do NIMS (Instituto Nacional de Ciências dos Materiais do Japão), em parceria com a Softbank Corp., conseguiram criar um protótipo funcional de bateria lítio-ar com densidade de 500 Wh/kg.
O número pode parecer abstrato, mas a comparação o torna concreto. Baterias de lítio-íon convencionais — as mesmas que alimentam seu celular e carros elétricos — armazenam cerca de 250 Wh/kg. A bateria lítio-ar japonesa armazena o dobro.
“É a primeira realização mundial de uma reação de carga e descarga de uma bateria lítio-ar de alta qualidade à temperatura ambiente”, afirmaram os pesquisadores do NIMS e da Softbank no estudo.
-
Cientistas brasileiros avançam simultaneamente em duas pesquisas sobre hidrogênio limpo e impulsionam soluções que podem transformar a matriz energética, ampliar a competitividade industrial e acelerar metas de redução de emissões em larga escala
-
Avanço em energia renovável: Projeto de R$ 150 milhões lançado por Petrobras e Finep busca criar eletrolisadores de última geração para hidrogênio verde, fortalecendo pesquisa nacional e preparando o Brasil para disputar espaço em um mercado energético bilionário
-
Avós analfabetas ou semialfabetizadas foram treinadas para consertar sistemas solares, abrir oficinas rurais e iluminar casas que ainda dependiam de querosene
-
Feito inédito na Índia: uma colossal escavadeira de 650 toneladas e quase 3.000 cv é transformada em 100% elétrica em feito marca nova fase da mineração pesada
Portanto, não se trata apenas de um avanço teórico. O protótipo funciona em condições reais, sem câmaras especiais de oxigênio puro.

Com a bateria lítio-ar, carros elétricos poderiam rodar mais de 600 km — com bateria mais leve
A consequência prática mais impactante da bateria lítio-ar é a autonomia de veículos elétricos. Com 500 Wh/kg, um carro elétrico poderia percorrer mais de 600 km com uma única carga.
Além disso, a bateria seria significativamente mais leve do que as atuais de lítio-íon, já que armazena o dobro de energia por quilo.
A comparação com a gasolina se torna cada vez mais favorável. A energia armazenada em 500 Wh/kg começa a se aproximar da densidade energética dos combustíveis fósseis.
As aplicações, contudo, não se limitam a carros. O NIMS e a Softbank fundaram o Centro de Desenvolvimento de Tecnologias Avançadas em 2018 com foco em estações rádio-base, dispositivos IoT e plataformas de alta altitude (HAPS).
Dessa forma, torres de celular em regiões remotas poderiam operar com baterias que duram semanas sem recarga.
A corrida global pela bateria do futuro: Japão, Coreia do Sul, China e EUA disputam cada watt
O Japão não está sozinho nessa corrida. Pesquisadores do KAIST (Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia da Coreia do Sul), liderados por Hyeokjin Kwon, alcançaram um avanço significativo em baterias de lítio-metálico de estado sólido.
O protótipo coreano promete autonomia de 800 km, vida útil de mais de 300.000 km e carregamento em apenas 12 minutos.
Na China, a fabricante estatal FAW anunciou uma bateria semisólida de lítio-manganês com 500 Wh/kg — o mesmo patamar do protótipo japonês, mas já integrada em veículos de produção.
- Japão (NIMS/Softbank): Bateria lítio-ar, 500 Wh/kg, protótipo funcional à temperatura ambiente
- Coreia do Sul (KAIST): Lítio-metálico estado sólido, 800 km autonomia, carga em 12 minutos
- China (FAW): Semisólida, 500 Wh/kg, já em veículos de produção
- EUA/Alemanha (QuantumScape): Estado sólido, 301 Wh/kg, produção para motos VW em 2026
- Japão (Toyota): Estado sólido, mais de 1.200 km, recarga em 5 minutos
A bateria de sódio da CATL e BYD, 50% mais barata que lítio, representa outra frente dessa revolução — focada em custo, não em densidade.

Como funciona uma bateria que literalmente respira: o ar entra, reage com o lítio e gera energia
A bateria lítio-ar funciona de forma radicalmente diferente das convencionais. Em vez de carregar todos os reagentes internamente, ela utiliza o oxigênio do ar ambiente como um dos componentes da reação eletroquímica.
Durante a descarga, o lítio no ânodo reage com o oxigênio que entra pela estrutura porosa do cátodo. Essa reação gera energia elétrica.
Durante a recarga, o processo se inverte. O oxigênio é liberado de volta ao ar.
O grande obstáculo sempre foi fazer essa reação funcionar de forma estável à temperatura ambiente, sem oxigênio puro. Até agora, a maioria dos protótipos exigia câmaras seladas com oxigênio concentrado.
O protótipo japonês superou essa limitação. É o primeiro a demonstrar ciclos estáveis de carga e descarga usando ar ambiente comum.
No Brasil, a aceleração da produção de ônibus elétricos mostra que o país já se prepara para absorver as próximas gerações de baterias quando elas chegarem ao mercado.

Ainda é protótipo — e a distância entre laboratório e rua continua enorme
Por outro lado, é fundamental manter os pés no chão. A bateria lítio-ar do NIMS ainda é um protótipo de laboratório. Não há previsão de produção comercial.
A vida útil — descrita como “a melhor já alcançada” — não foi quantificada publicamente em número de ciclos. Baterias de lítio-íon comerciais sobrevivem a 1.000-2.000 ciclos. Não há dados comparáveis para a lítio-ar japonesa.
Além disso, a mineração de lítio continua sendo um problema ambiental sério, independentemente do tipo de bateria. Extrair lítio de salmouras consome grandes volumes de água em regiões áridas.
A QuantumScape, por exemplo, já produz baterias de estado sólido para motos do grupo Volkswagen em 2026, mas com “apenas” 301 Wh/kg. A distância entre 500 Wh/kg no laboratório e 500 Wh/kg na fábrica pode levar anos.
Ainda assim, o marco japonês é real e verificável. Pela primeira vez, uma bateria que respira ar funcionou em condições normais. O caminho de laboratório para a rua é longo, mas o primeiro passo acaba de ser dado.
