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Milhares de barragens nos EUA são antigas, danificadas e incapazes de suportar condições climáticas extremas de 2026 – cientistas preocupados

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 01/02/2026 às 12:21
Atualizado em 01/02/2026 às 12:26
Barragens antigas e danificadas nos EUA enfrentam risco crescente diante de eventos climáticos extremos e falhas estruturais.
Barragens antigas e danificadas nos EUA enfrentam risco crescente diante de eventos climáticos extremos e falhas estruturais.
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Análises recentes indicam que milhares de barragens nos Estados Unidos, muitas com mais de 50 anos, apresentam danos estruturais, falhas de manutenção e limitações de projeto, enquanto eventos climáticos extremos mais frequentes elevam o risco de rompimentos, inundações súbitas e impactos diretos sobre populações, infraestrutura urbana e sistemas de abastecimento de água e energia

Milhares de barragens nos Estados Unidos são antigas, apresentam danos estruturais e não foram projetadas para suportar condições climáticas extremas, segundo análises recentes baseadas em imagens de satélite, que indicam riscos de falha maiores do que os identificados por inspeções tradicionais.

Imagens de satélite revelaram que dezenas de barragens nos Estados Unidos, incluindo a maior do Texas, podem estar em risco de colapso devido à movimentação do solo sob suas fundações. As inspeções convencionais normalmente não consideram esses deslocamentos, sugerindo que muitas estruturas estão em condição pior do que se estimava.

As descobertas levantam a possibilidade de que milhares de barragens que não são monitoradas de perto, em razão dos altos custos e da escassez de pessoal técnico, possam estar danificadas e em risco de rompimento. O cenário reacende o debate sobre a dimensão real do problema e sobre o uso de dados de satélite como ferramenta de alerta precoce.

Especialistas afirmaram que satélites podem oferecer uma forma relativamente simples de monitorar barragens, identificando locais onde movimentos do solo estão desestabilizando a estrutura. Ao mesmo tempo, os dados ressaltam um desafio adicional, já que mudanças climáticas aumentam o risco de falhas em barragens antigas em todo o país.

“Identificar problemas em barragens é crucial para prevenir falhas”, afirmou John Roche, regulador de barragens em Maryland e presidente da Associação de Autoridades Estaduais de Segurança de Barragens. Segundo ele, a falta de reabilitação oportuna, combinada ao aumento do estresse climático, amplia riscos à segurança pública, impactos econômicos e danos ambientais.

Monitoramento por satélite e deslocamentos do terreno

Em uma apresentação realizada à União Geofísica Americana em dezembro de 2025, cientistas utilizaram dez anos de imagens de radar do satélite Sentinel-1 para identificar barragens que sofreram deslocamentos provocados por afundamento ou elevação do solo. Dependendo do material da barragem, esses movimentos podem gerar rachaduras estruturais.

O risco aumenta quando diferentes partes da estrutura se movem em direções opostas ou em velocidades distintas. Nessas condições, a integridade da barragem pode ser comprometida de forma gradual, sem sinais visíveis imediatos durante inspeções de rotina realizadas no local.

“Essa tecnologia nos ajuda a encontrar possíveis problemas e, em seguida, informar as pessoas responsáveis”, disse o pesquisador principal Mohammad Khorrami, engenheiro geotécnico pós-doutoral da Virginia Tech e do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas.

O estudo analisou 41 barragens hidrelétricas classificadas como de alto risco, com mais de 15 metros de altura e avaliadas como em condição “ruim” ou “insatisfatória” pelo Inventário Nacional de Barragens. Essas estruturas apresentam defeitos conhecidos que comprometem a segurança operacional e exigem reparos.

Os resultados ainda são preliminares e não passaram por revisão por pares. Mesmo assim, apontam fragilidades antes desconhecidas em barragens localizadas em 13 estados norte-americanos e em Porto Rico, incluindo a barragem de Roanoke Rapids, na Carolina do Norte, e a barragem de Livingston, no Texas.

Algumas dessas barragens estão sofrendo deslocamentos considerados significativos. Na barragem de Livingston, a porção norte está afundando a uma taxa aproximada de 8 milímetros por ano, enquanto a porção sul se eleva simultaneamente na mesma proporção.

Essa barragem abastece duas estações de tratamento de água que fornecem água potável para mais de 3 milhões de pessoas na região de Houston. O movimento diferencial do solo levanta preocupações adicionais devido à importância do sistema para o abastecimento urbano.

Khorrami ressaltou que os dados não indicam que parte da barragem esteja desabando. No entanto, as diferenças de elevação justificam investigações mais aprofundadas, pois podem sinalizar problemas estruturais em barragens antigas e potencialmente defeituosas.

Dado que muitas dessas estruturas têm décadas de existência e afetam tanto comunidades a jusante quanto a geração de energia, deformações acumuladas podem resultar em consequências graves. Em casos extremos, falhas estruturais podem levar a inundações rápidas e de grande escala.

Exemplos internacionais e lições recentes

Um episódio ocorrido na Líbia em 2023 ilustra por que alterações na elevação do terreno não devem ser ignoradas. Em 11 de setembro daquele ano, duas barragens romperam após chuvas extremas associadas à tempestade Daniel.

Os rompimentos liberaram cerca de 30 milhões de metros cúbicos de água, volume equivalente a 10.000 piscinas olímpicas, sobre a cidade de Derna. O fluxo destruiu edifícios e pontes e resultou na morte de até 24.000 pessoas, segundo estimativas divulgadas à época.

Um estudo publicado em 2025 concluiu que deformações nas barragens, decorrentes de mudanças na elevação do terreno, provavelmente contribuíram para os colapsos. As imagens de satélite mostraram deformação constante e persistente em ambas as estruturas ao longo da última década.

“Portanto, essas barragens já eram vulneráveis”, afirmou Khorrami ao comentar os resultados. Segundo ele, o caso demonstra a importância de identificar sinais de alerta antes que eventos climáticos extremos ocorram.

Khorrami e seus colegas estão finalizando os resultados do estudo nos Estados Unidos. O próximo passo envolve a criação de um mapa ou banco de dados interativo que possa ser utilizado por formuladores de políticas públicas para avaliar a segurança das barragens em escala nacional.

O pesquisador destacou que o monitoramento por satélite não substitui inspeções presenciais. A proposta é oferecer uma ferramenta adicional capaz de indicar alertas precoces quando houver sinais de problemas estruturais ou potenciais riscos.

Infraestrutura envelhecida e expansão urbana

Os deslocamentos do solo representam apenas um dos fatores que ameaçam a segurança das barragens. Os Estados Unidos possuem quase 92.600 barragens, das quais mais de 16.700 são classificadas como de alto potencial de risco, segundo a Associação de Autoridades Estaduais de Segurança de Barragens.

Essa classificação indica que um eventual colapso poderia causar perda de vidas humanas e destruição significativa de propriedades. A maioria dessas barragens foi projetada há mais de 50 anos, e cerca de 2.500 apresentam sinais de danos que exigiriam bilhões de dólares em reparos.

Embora algumas estruturas sejam grandes barragens hidrelétricas, milhares são pequenas barragens de bacias hidrográficas. Elas foram construídas para prevenir inundações, fornecer água potável e preservar habitats de vida selvagem em diferentes regiões do país.

Quando muitas dessas barragens foram construídas, nas décadas de 1960 e 1970, havia pouca ocupação humana nas áreas vizinhas. Com o passar do tempo, comunidades cresceram ao redor dessas estruturas, aumentando significativamente o potencial de danos em caso de rompimento.

Atualmente, um colapso poderia afetar diretamente áreas residenciais, estradas, sistemas de abastecimento de água e infraestrutura energética. Esse cenário ampliou a importância de avaliações de risco mais detalhadas e frequentes.

Além disso, as barragens foram projetadas para condições ambientais específicas da época de sua construção. Desde então, o aquecimento global e as mudanças no uso da terra alteraram padrões hidrológicos em diversas regiões.

Alguns rios apresentam redução de vazão devido à seca prolongada, enquanto outros registram níveis de água mais elevados do que há 50 ou 60 anos. O aumento das chuvas intensas e a urbanização reduzem a capacidade de infiltração do solo, elevando o volume de escoamento superficial.

Segundo Ebrahim Ahmadisharaf, professor assistente de engenharia civil e ambiental da Universidade Estadual da Flórida, essas mudanças aumentam a pressão sobre barragens que não foram projetadas para tais condições. Ele não participou do estudo de satélite, mas comentou os riscos associados.

O clima também se tornou mais extremo e imprevisível, elevando a probabilidade de inundações repentinas. Eventos de chuva intensa podem levar rapidamente o nível da água acima da capacidade dos vertedouros das barragens.

Risco crescente de transbordamento

Em um estudo de 2025, Ahmadisharaf e seus colegas analisaram a probabilidade de transbordamento de barragens ao longo dos últimos 50 anos. O transbordamento ocorre quando o nível da água excede a capacidade dos vertedouros e passa por cima da barragem.

O estudo identificou aumento desse risco em 33 barragens no período analisado. O fenômeno é considerado um dos mecanismos mais perigosos de falha, pois pode causar erosão rápida e perda de estabilidade estrutural.

As barragens com maior probabilidade de transbordamento eram grandes estruturas localizadas próximas a centros populacionais. Entre elas estavam a barragem de Whitney, no Texas, a barragem de Milford, no Kansas, e a barragem de Whiskeytown, na Califórnia.

As áreas potencialmente afetadas incluem cidades como Waco, no Texas, com cerca de 150.000 habitantes, e Junction City, no Kansas, com aproximadamente 22.000 moradores. Em caso de falha, as consequências poderiam ser severas.

“O galgamento é um possível mecanismo de falha de uma barragem”, explicou Ahmadisharaf. Segundo ele, quanto maior a barragem e menor a distância até a população a jusante, mais perigoso se torna o transbordamento.

Ahmadisharaf afirmou ainda que imagens de radar por satélite podem ajudar a avaliar riscos de transbordamento ao fornecer estimativas mais precisas dos níveis de água e da extensão de inundações, permitindo alertas com maior antecedência.

Custos elevados e limitações financeiras

Um dos principais obstáculos para tornar as barragens mais seguras nos Estados Unidos é o financiamento. Quanto mais antigas as estruturas, maior tende a ser o custo de operação, manutenção e reabilitação.

Segundo Roche, esses custos podem variar de alguns milhares a milhões de dólares por barragem. A responsabilidade financeira recai sobre os proprietários, muitos dos quais não dispõem de recursos suficientes para arcar com as despesas necessárias.

A reabilitação apenas das barragens consideradas mais críticas foi estimada em US$ 37,4 bilhões. Esse valor tende a aumentar à medida que a manutenção é adiada, elevando o risco de falhas estruturais mais graves.

A implementação de monitoramento por satélite também representa um custo adicional. No entanto, Roche afirmou que o investimento pode ser justificado se ajudar a priorizar reparos e prevenir falhas catastróficas.

Um relatório forense sobre o incidente no vertedouro da barragem de Oroville, em 2017, mostrou que inspeções tradicionais nem sempre identificam problemas estruturais relevantes. O episódio levou à evacuação de mais de 180.000 pessoas, sem registro de mortes.

Com apenas resultados preliminares disponíveis, ainda é difícil avaliar a eficácia do uso de dados de satélite para priorizar reparos. Mesmo assim, Roche destacou que a deformação das estruturas pode indicar deterioração progressiva.

David Bowles, especialista em riscos de segurança de barragens e professor emérito da Universidade Estadual de Utah, expressou cautela em relação às conclusões. Segundo ele, há diversas formas pelas quais uma barragem pode falhar.

Em sua experiência, o assentamento da fundação não é a causa principal da maioria dos rompimentos. Ainda assim, pode atuar como fator contribuinte, especialmente se não for monitorado e gerenciado de forma adequada.

Potencial e limites do monitoramento remoto

Apesar das ressalvas, especialistas concordam que os satélites oferecem uma visão mais ampla dos riscos associados às barragens do que a disponível atualmente. A capacidade de monitorar grandes áreas de forma contínua é vista como uma vantagem significativa.

Ahmadisharaf afirmou que não é possível monitorar todas as barragens exclusivamente com inspeções presenciais. Nesse contexto, o uso de satélites amplia a cobertura e permite identificar áreas que merecem atenção imediata.

O monitoramento remoto não elimina a necessidade de vistorias detalhadas, mas pode orientar decisões estratégicas sobre onde concentrar recursos limitados. Para os pesquisadores, trata-se de uma ferramenta complementar.

De forma geral, os dados reforçam a gravidae do desafio enfrentado pela infraestrutura de barragens nos Estados Unidos. O envelhecimento das estruturas, combinado a mudanças climáticas e limitações financeiras, cria um cenário de risco crescente.

Segundo os especialistas, o uso integrado de inspeções tradicionais, dados de satélite e planejamento de longo prazo será essencial para reduzir a probabilidade de falhas e proteger populações a jusante, mesmo diante de um cenário climático cada vez mais imprevisível.

Este artigo foi elaborado com base em informações da Live Science, da Associação de Autoridades Estaduais de Segurança de Barragens (ASDSO) e do Inventário Nacional de Barragens dos EUA.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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