O recuo parcial das tarifas dos EUA abriu espaço para que um setor brasileiro inesperado ganhasse força nas exportações, enquanto Brasília pressiona por um acordo mais amplo para derrubar o tarifaço de 40%
A decisão do governo Donald Trump de retirar parte da tarifa adicional de dez por cento aplicada desde abril reacendeu as discussões diplomáticas entre Brasília e Washington. O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que a mudança elevou de vinte e três para vinte e seis por cento o total das exportações brasileiras que entram nos Estados Unidos sem sobretaxas.
O volume representa cerca de dez bilhões de dólares em vendas e inclui produtos como café, carne bovina, açaí, castanhas, mandioca, tapioca e frutas tropicais.
O recuo parcial, no entanto, não altera o núcleo do tarifaço de quarenta por cento que permanece ativo desde agosto e que continua sendo o maior motivo de tensão nas relações comerciais entre os dois países.
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As alíquotas de julho foram adotadas após o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e empurraram boa parte das mercadorias brasileiras para um custo total de cinquenta por cento quando somadas aos dez por cento definidos em abril.
Suco de laranja se consolida como o principal ganhador
Entre todos os itens exportados pelo Brasil, o suco de laranja foi o maior beneficiado pelo anúncio de sexta-feira. O produto já estava livre da taxa de quarenta por cento e agora também foi isento do adicional de dez por cento, garantindo entrada plena no mercado americano.
O Brasil exporta cerca de um bilhão e duzentos milhões de dólares por ano em suco de laranja para os Estados Unidos, que respondem por quarenta por cento de todo o volume brasileiro enviado ao exterior. A produção industrial se concentra no Estado de São Paulo e depende diretamente da demanda americana.
Outros setores seguem pressionados. O café, mesmo sendo um dos produtos brasileiros mais consumidos nos EUA, continuará sujeito à tarifa de quarenta por cento. Alckmin afirmou que considera essa cobrança desproporcional e destacou que o governo deve insistir na redução durante as próximas rodadas de negociação.
Ele, Fernando Haddad e o chanceler Mauro Vieira coordenam a estratégia diplomática que deve ganhar impulso após a COP 30 em Belém.
Avanço político entre Lula e Trump e o novo clima nas negociações
A queda parcial das tarifas não faz parte diretamente da mesa formal entre os dois governos, mas sinaliza um ambiente mais favorável para avanços. Desde o encontro rápido entre Lula e Trump na Assembleia Geral da ONU, em setembro, houve reaproximação diplomática. Os presidentes voltaram a se reunir em outubro, na Malásia, para tratar do tema.
Nesta semana, Mauro Vieira e o secretário de Estado Marco Rubio conversaram duas vezes, primeiro no Canadá e depois em Washington. Vieira afirmou acreditar que ainda este mês pode surgir um acordo que defina um roteiro formal de trabalho.
Um documento desse tipo serviria para destravar temas sensíveis e permitir que o processo seja concluído em dois ou três meses. O Brasil enviou uma contraproposta em quatro de novembro, respondendo a uma lista apresentada pelos americanos em dezesseis de outubro.
Lula ainda não se pronunciou publicamente sobre a flexibilização anunciada na sexta-feira, mas integrantes do governo veem o gesto como sinal de que os Estados Unidos começam a recalibrar sua política tarifária diante da pressão interna.
Inflação e pressão doméstica ajudam a explicar a mudança de rumo
O documento assinado por Trump na sexta-feira menciona que a revisão das tarifas levou em conta relatórios técnicos, o andamento das negociações internacionais e a demanda interna por determinados produtos. O governo americano enfrenta críticas crescentes por causa da inflação, especialmente na área de alimentos, que subiu dois vírgula sete por cento em doze meses segundo o último relatório oficial.
O café é um dos casos mais sensíveis. As importações americanas do produto brasileiro caíram quarenta e sete por cento em setembro, comparado ao mesmo mês de dois mil e vinte e quatro. A restrição ampliou o custo final ao consumidor e pressionou o governo a buscar alternativas para evitar novos aumentos.
O presidente americano chegou a admitir, em conversa privada com Lula no início de outubro, que os Estados Unidos estavam sentindo falta de alguns produtos brasileiros.
Situação semelhante envolve mangueiras e goiabas. O Brasil é o quarto maior fornecedor desses itens para o mercado americano e embarcou cinquenta e seis milhões de dólares em dois mil e vinte e quatro. As tarifas causaram cancelamentos de pedidos e deixaram produtores com mercadorias encalhadas. A carne bovina completa o quadro.
Mesmo sendo um grande produtor, os Estados Unidos enfrentam o menor rebanho em setenta e quatro anos por causa de secas prolongadas e custos elevados. A redução de tarifas também interessa ao consumidor americano, que vem enfrentando preços mais altos nos supermercados.
O relaxamento parcial mostra que, embora Trump insista que as tarifas não encareceriam o custo de vida, os efeitos econômicos estão pesando mais que o discurso político. Para o Brasil, a mudança representa uma oportunidade concreta de avançar na eliminação do tarifaço de quarenta por cento, objetivo central das próximas conversas entre os dois países.

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