O Brasil economizou US$ 32,4 bilhões em 2025 substituindo combustíveis fósseis por fontes renováveis, ficando em terceiro lugar no ranking mundial da IRENA e só perdendo para China e Estados Unidos, um número que, de tão grande, precisa ser desmembrado pra fazer sentido, porque explica boa parte do porquê a matriz brasileira segue sendo apontada como referência global.
O relatório foi divulgado no dia 3 de julho pela IRENA, a Agência Internacional de Energia Renovável, sediada em Abu Dhabi, e apareceu no radar do setor brasileiro na semana passada, quando o Canal Solar destrinchou a comparação por país. Na leitura da agência, o mundo inteiro poupou US$ 480 bilhões em 2025 evitando queimar carvão, gás natural e derivados de petróleo pra gerar eletricidade. Desse total, quase um terço ficou na China, US$ 177 bilhões, um valor que só faz sentido pra um país com a escala de renovável instalada que os chineses têm.
Os Estados Unidos aparecem em segundo, com US$ 35 bilhões economizados, empurrados pela leva de solar e eólica que entrou em operação no meio-oeste e no Texas desde a Inflation Reduction Act. O Brasil, com seus US$ 32,4 bilhões, praticamente encosta neles, algo que, considerando o tamanho da economia americana em relação à nossa, é bastante impressionante. Índia e Alemanha vêm empatadas em quarto, com US$ 18 bilhões cada. O Japão fecha o top-6 com US$ 15 bilhões.

O que a IRENA está de fato medindo
A metodologia da agência é direta. Ela pega o volume de eletricidade gerada por solar, eólica, hidrelétrica, biomassa e nuclear em cada país, calcula quanto do combustível fóssil correspondente foi substituído, e multiplica isso pelo preço internacional daquele combustível durante o ano. Se um megawatt-hora de solar tira um megawatt-hora de gás natural do sistema, a economia é a diferença de custo entre os dois.
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Como o Brasil tem uma matriz elétrica que ainda depende muito de hidrelétrica, algo em torno de 55% do consumo em 2025, o país entra na conta da IRENA com um baseline alto de fósseis evitados só pelo peso das grandes usinas do Norte e do Sudeste. Mas o pulo do gato do ano passado foi o avanço da solar centralizada, que já chegou a 22,51 gigawatts de capacidade instalada, e da solar distribuída, que passou dos 49,74 gigawatts, os painéis nos telhados de residências, comércios e agroindústria brasileira.
Por que a solar distribuída virou o motor silencioso
Confesso que os quase 50 gigawatts de solar distribuída sempre me impressionam. É mais capacidade instalada do que Angra 1 e 2 somadas, mais que o parque nuclear do México, mais do que boa parte dos países europeus tem em qualquer fonte renovável. E o crescimento acontece de forma pulverizada, não são cinco grandes usinas, são milhões de instalações espalhadas pelo país, cada uma decidindo por conta própria trocar a conta de luz por painel no telhado.

O Nordeste continua sendo o coração da eólica brasileira. Os parques instalados no Rio Grande do Norte, Bahia, Piauí e Ceará já respondem por praticamente toda a geração eólica do país, e várias das maiores fazendas solares centralizadas também ficam nessa região. É uma vantagem geográfica que combina radiação altíssima, ventos constantes e terrenos amplos com custo baixo de aquisição, algo que pouquíssimos países grandes do mundo têm.
A leitura de Francesco La Camera e o que ela diz
O diretor-geral da IRENA, Francesco La Camera, aproveitou o lançamento do relatório pra reforçar um ponto que virou lugar-comum no debate energético global: as renováveis não são só ferramenta climática, elas viraram ferramenta de segurança energética. Depois da guerra na Ucrânia, do choque de preços do gás europeu e da instabilidade recorrente no Golfo, os países que dependem de importação de combustível ficaram muito mais vulneráveis a solavancos geopolíticos.
O Brasil escapa desse pesadelo justamente porque a matriz é doméstica. A gente não importa vento do Cazaquistão nem sol da Arábia Saudita. Cada painel solar instalado no telhado de uma padaria no interior de Goiás é energia que sai do balanço de importação e vai pro balanço de segurança. E é por isso que, quando o preço internacional do barril de petróleo dispara, o Brasil sofre menos que Europa e Japão.
O que os US$ 32,4 bilhões escondem
Uma parte grande da economia calculada pela IRENA vem de hidrelétrica, o que é meio óbvio, mas nem sempre lembrado. Nossa matriz não é limpa por causa da solar de ontem, é limpa porque, há 60 anos, uma geração de engenheiros brasileiros construiu Itaipu, Tucuruí, Sobradinho e mais três dezenas de grandes usinas que continuam produzindo até hoje. Sem essa herança, o Brasil estaria queimando gás como a Europa e economizaria uma fração do que economiza.

O relatório também não deixa claro o quanto do cálculo considera hidrelétrica versus fósseis num país como o nosso, em que grande parte do sistema já é limpa por padrão. É uma limitação metodológica que os próprios técnicos do setor reconhecem, o número é indicativo, não contábil. Ainda assim, o recado principal fica de pé: o Brasil se tornou um dos maiores substitutores de fóssil do planeta em 2025, e isso tem valor econômico mensurável em dezenas de bilhões de dólares por ano.
O que fica pra 2026 e além
Fico imaginando o número de 2026, com o calendário de leilões de reserva de capacidade da EPE e ONS já engatilhado e o parque solar distribuído continuando a crescer no ritmo dos últimos cinco anos. Se as projeções batem, o Brasil deve romper a marca dos 40 gigawatts em solar centralizada e distribuída somadas por ano em algum momento antes de 2028, o que colocaria o país num pódio ainda mais elevado no ranking da IRENA.
A gente sabe que ainda tem pedreira pela frente, armazenamento de energia, cortes na geração renovável durante horários de baixa demanda, integração de redes de transmissão. Mas o dado dos US$ 32,4 bilhões diz uma coisa importante: a decisão econômica de investir em solar e eólica no Brasil já está pagando fatura. Não é só ambiental, é dinheiro que fica no país.
US$ 32,4 bilhões é razão pra celebrar ou pra puxar ainda mais o pé no acelerador das renováveis brasileiras?
