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Uma mina de ouro despejou resíduos tóxicos por décadas no norte do Canadá, e hoje 237 mil toneladas de arsênio estão enterradas sob Yellowknife, formando o maior depósito subterrâneo desse veneno já deixado pela mineração no planeta

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 18/03/2026 às 15:54
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Uma mina de ouro despejou resíduos tóxicos por décadas no norte do Canadá, e hoje 237 mil toneladas de arsênio estão enterradas sob Yellowknife, formando o maior depósito subterrâneo desse veneno já deixado pela mineração no planeta
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Durante décadas, uma mina de ouro no Canadá acumulou 237 mil toneladas de arsênio no subsolo de Yellowknife, criando um dos maiores passivos ambientais da mineração mundial.

Durante grande parte do século XX, uma mina de ouro localizada no extremo norte do Canadá ajudou a impulsionar o crescimento econômico da região de Yellowknife, nos Territórios do Noroeste. A exploração mineral trouxe empregos, infraestrutura e prosperidade para uma área que até então era pouco desenvolvida.

Mas por trás da riqueza gerada pela mineração existia um problema invisível que só se tornaria plenamente compreendido décadas depois. Ao longo de anos de operação, o processo de extração de ouro produziu enormes quantidades de resíduos tóxicos contendo trióxido de arsênio, um composto extremamente perigoso para a saúde humana e para o meio ambiente.

Hoje, mais de 237 mil toneladas desse material venenoso permanecem armazenadas no subsolo, formando um dos maiores passivos ambientais já deixados pela indústria de mineração no mundo.

A descoberta do ouro que transformou Yellowknife em cidade mineradora

A história começa nos anos 1930, quando depósitos de ouro foram descobertos na região de Yellowknife, próxima ao Grande Lago do Urso, no norte do Canadá. A descoberta atraiu empresas mineradoras e rapidamente transformou a área em um importante centro de exploração mineral.

Uma das operações mais importantes foi a Giant Mine, inaugurada em 1948. A mina se tornaria uma das maiores produtoras de ouro do país durante décadas.

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Ao longo de sua vida útil, a Giant Mine produziu aproximadamente 7 milhões de onças de ouro, ajudando a consolidar Yellowknife como um dos principais polos mineradores do Canadá.

No entanto, a geologia da região apresentava uma característica que traria consequências ambientais graves: o ouro estava associado a minerais contendo arsenopirita, um composto rico em arsênio.

O processo de mineração que gerou toneladas de arsênio

Para extrair o ouro do minério, era necessário aquecer o material em altas temperaturas. Esse processo liberava diversos gases e partículas, incluindo arsênio em forma de trióxido, um pó extremamente tóxico.

Nas primeiras décadas de operação da Giant Mine, praticamente não existiam regulamentações ambientais rigorosas para controlar esse tipo de resíduo. Como resultado, grandes quantidades de arsênio foram liberadas diretamente na atmosfera.

Durante os anos iniciais da mineração, a poeira tóxica acabou contaminando áreas próximas à mina. Somente mais tarde as autoridades começaram a perceber os riscos associados à exposição prolongada a esse material.

Com o passar do tempo, sistemas foram instalados para capturar o pó de arsênio produzido durante o processamento do minério. O problema, porém, era o destino final desse material.

O armazenamento subterrâneo de um dos venenos mais perigosos do planeta

A solução adotada pela empresa foi armazenar o pó de arsênio em câmaras subterrâneas escavadas na própria mina. Ao longo dos anos, dezenas de compartimentos foram utilizados para guardar o resíduo.

O material era bombeado para essas cavidades profundas, onde permanecia isolado do ambiente externo. Esse método parecia seguro na época, mas acabou criando um enorme depósito permanente de substâncias altamente tóxicas.

Com o encerramento das operações da mina, ficou claro que a quantidade acumulada era muito maior do que se imaginava.

Hoje se estima que cerca de 237 mil toneladas de trióxido de arsênio estão armazenadas em câmaras subterrâneas localizadas a centenas de metros abaixo da superfície. Essa quantidade é suficiente para representar um risco ambiental gigantesco caso o material seja liberado.

O fechamento da mina e o surgimento de um enorme passivo ambiental

A Giant Mine operou por mais de meio século antes de encerrar definitivamente suas atividades em 2004. Quando a mineração terminou, o governo canadense herdou a responsabilidade de lidar com o legado ambiental deixado pela operação.

O principal desafio era o enorme estoque de arsênio armazenado no subsolo. O composto é altamente solúvel em água e extremamente venenoso. Se entrar em contato com aquíferos ou sistemas de drenagem subterrânea, pode contaminar rios, lagos e reservatórios de água.

A proximidade da mina com o Grande Lago do Urso, uma das maiores reservas de água doce da América do Norte, tornou a situação ainda mais preocupante. Especialistas começaram a avaliar possíveis soluções para garantir que o material não escape para o ambiente.

O plano de congelar o veneno por tempo indefinido

Após anos de estudos técnicos, o governo do Canadá adotou uma estratégia considerada incomum, mas viável: manter o arsênio permanentemente congelado no subsolo.

O plano consiste em instalar um sistema de refrigeração que congela o solo ao redor das câmaras onde o material está armazenado. Ao transformar o terreno em uma espécie de bloco sólido de gelo, o arsênio permanece isolado e incapaz de se mover.

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Esse método é semelhante ao usado em algumas obras de engenharia subterrânea para estabilizar o solo durante escavações profundas. A ideia é que o congelamento impeça que a água subterrânea entre em contato com o arsênio, evitando sua dissolução e eventual dispersão no ambiente.

Um projeto ambiental que pode durar séculos

Embora o congelamento seja considerado uma solução eficaz no curto prazo, ele traz um desafio gigantesco: o sistema de refrigeração precisará funcionar por muitos anos, possivelmente séculos.

Caso o sistema pare de operar, existe o risco de o arsênio voltar a interagir com a água subterrânea. Por esse motivo, o projeto de remediação ambiental da Giant Mine é considerado um dos mais complexos da história da mineração canadense.

O custo total estimado do processo de contenção e monitoramento ultrapassa 1 bilhão de dólares canadenses, tornando-o um dos maiores projetos ambientais já financiados pelo governo do país.

O impacto ambiental e social na região de Yellowknife

A presença de grandes quantidades de arsênio no subsolo também gerou preocupação entre moradores e comunidades indígenas da região.

Durante décadas, povos locais dependem do lago e dos rios próximos para pesca e abastecimento. Qualquer contaminação poderia afetar diretamente esses recursos.

Por esse motivo, o projeto de remediação inclui programas de monitoramento ambiental contínuo e consultas com comunidades indígenas para acompanhar os impactos do antigo complexo minerador. O objetivo é garantir que o legado da mineração não comprometa a segurança ambiental da região.

Um alerta global sobre os riscos da mineração

A história da Giant Mine é frequentemente citada por especialistas como um exemplo claro de como atividades industriais podem gerar passivos ambientais de longo prazo.

Durante décadas, a mineração foi realizada sem que se compreendesse plenamente os riscos associados ao armazenamento de resíduos tóxicos.

Hoje, a mina abandonada em Yellowknife representa um lembrete permanente de que decisões tomadas durante a exploração de recursos naturais podem ter consequências que duram gerações.

Mais de meio século após o início da mineração, toneladas de arsênio continuam enterradas sob o solo canadense — um legado silencioso deixado por uma era em que a prioridade era extrair riqueza da terra, mesmo que o preço ambiental fosse pago apenas no futuro.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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