Muralhas erguidas em torno de oásis no noroeste da Arábia Saudita ajudam pesquisadores a revisar a ocupação antiga do deserto, com indícios de comunidades sedentárias, agricultura organizada e controle territorial em uma paisagem historicamente vista de outra forma.
Um conjunto de muralhas erguidas em torno de oásis no noroeste da atual Arábia Saudita está levando arqueólogos a revisar a leitura sobre a ocupação humana do deserto.
Em vez de indicar apenas circulação de grupos móveis, pesquisas recentes apontam a presença de comunidades sedentárias capazes de construir grandes estruturas, organizar áreas agrícolas e controlar fontes de água ao longo de séculos.
O estudo mais amplo sobre esse sistema foi publicado na revista Antiquity.
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Segundo os autores, as evidências reforçam a existência de um complexo formado por seis grandes oásis murados no noroeste da Península Arábica, associado a um modelo de assentamento duradouro em ambiente desértico.
Tayma e Qurayyah já eram conhecidos pela arqueologia.
O trabalho mais recente, porém, consolidou esse quadro regional ao reunir também dados sobre Khaybar, Dumat al-Jandal, Hait e Huwayyit.
Com isso, o foco deixou de ser um sítio isolado e passou a recair sobre um sistema mais amplo de ocupação, com características recorrentes em diferentes áreas.
Oásis murados e controle da água no deserto
As estruturas descritas no estudo não delimitavam apenas um núcleo habitado.
De acordo com os pesquisadores, os muros protegiam fontes de água, zonas de cultivo, rebanhos e espaços ligados à vida cotidiana dessas comunidades.
Nesse contexto, o oásis murado funcionava como uma unidade territorial organizada em torno de recursos essenciais.
O artigo relaciona esse padrão à produção agrícola e à criação de animais.
Os autores mencionam cereais, frutas e, a partir do segundo milênio a.C., tamareiras, além da presença de cabras e ovelhas.
A muralha, portanto, cercava uma paisagem produtiva inteira, e não só um ponto de abrigo.
Segundo os especialistas, esse dado é central para entender o significado dessas construções.
No estudo, a equipe afirma que o oásis murado não deve ser interpretado apenas como uma obra defensiva, mas como parte de um modelo de desenvolvimento socioeconômico e de controle territorial em áreas rurais irrigadas.
Ainda de acordo com os autores, a construção e a manutenção dessas muralhas exigiam mobilização coletiva e investimento contínuo.
Para a equipe, isso sugere planejamento, coordenação de trabalho e permanência populacional em um ambiente no qual água e terra cultivável tinham peso decisivo para a sobrevivência.

Como arqueólogos identificaram o complexo de oásis
A reconstituição desse sistema foi feita a partir de mais de um método.
No estudo de 2025, os pesquisadores cruzaram imagens de satélite com observações em campo e, em alguns casos, recorreram a registros antigos.
Em Dumat al-Jandal, por exemplo, a análise incluiu fotografias aéreas georreferenciadas feitas em 1964.
Esse material ajudou a identificar uma rede de muros de tijolo de barro na parte oriental do oásis.
Segundo o artigo, o conjunto tem cerca de 2 quilômetros de extensão e reforça a interpretação de que o local fazia parte do mesmo modelo de ocupação murada observado em outros pontos da região.
Já em Harrat Khaybar, as visitas de campo a Al-Ayn e al-Tibq revelaram muralhas com bastiões comparáveis aos de Khaybar.
Os pesquisadores estimam que esses circuitos tinham, na fase inicial, cerca de 8 e 2 quilômetros de extensão, respectivamente, além de aproximadamente 2 metros de espessura.
Com base na arquitetura e no material cerâmico coletado na superfície, os autores consideram possível que essas estruturas sejam contemporâneas, em torno de 2000 a.C.
No entanto, o estudo trata essa cronologia como uma estimativa apoiada pelas evidências disponíveis para o conjunto analisado.
Datação das muralhas mostra fases distintas de ocupação
Os próprios pesquisadores ressaltam que nem todas as muralhas pertencem ao mesmo momento histórico.
Em vez de um único episódio de construção, o que aparece é uma tradição de longa duração, com adaptações locais e cronologias distintas em cada oásis.
Segundo a Antiquity, esse modelo pode ter começado na primeira metade do terceiro milênio a.C., em Tayma e Qurayyah.
Por isso, os exemplos mais antigos desse tipo de estrutura remontam a cerca de 5 mil anos.
Depois, o padrão teria alcançado a região de Khaybar no fim do terceiro milênio a.C.
No caso de Dumat al-Jandal, as fortificações monumentais registradas pertencem a um momento bem posterior, no fim do primeiro milênio a.C., o que indica permanência ou reaproveitamento desse tipo de organização espacial em épocas diferentes.
Essa distinção é importante para evitar simplificações.
O estudo não descreve um sistema criado de uma só vez, mas um modelo de ocupação que, segundo os autores, foi adotado e transformado ao longo do tempo em diferentes oásis do noroeste da Arábia.
Khaybar ajuda a medir a escala das construções antigas
Entre os exemplos mais extensos já documentados está Khaybar, tema de um estudo anterior publicado no Journal of Archaeological Science: Reports.
Nessa pesquisa, a equipe estimou que a muralha tinha originalmente cerca de 14,5 quilômetros de extensão, com espessura entre 1,70 e 2,40 metros.
Hoje, pouco menos da metade do traçado original permanece preservada, o que corresponde a cerca de 5,9 quilômetros.
O levantamento também registrou 74 bastiões ainda visíveis ao longo do circuito remanescente.
A datação por radiocarbono situou a construção entre 2250 e 1950 a.C.
Segundo os pesquisadores, a fortificação cercava um território rural amplo, o que reforça a leitura de que o espaço abrigava uma comunidade sedentária e uma área produtiva, e não apenas um ponto defensivo isolado.
O estudo de 2024 também observou que a descoberta levanta questões sobre a função precisa da muralha e sobre a relação entre os grupos instalados dentro e fora do oásis.
Nesse caso, a interpretação proposta pelos autores evita reduzir a estrutura a uma resposta militar simples e destaca a necessidade de compreender o contexto social e territorial em que ela foi construída.
Al-Natah amplia o quadro sobre a ocupação sedentária
Outro trabalho do mesmo projeto, publicado em 2024 na revista PLOS One, tratou do sítio de al-Natah, localizado no interior do oásis murado de Khaybar.
Ali, os pesquisadores descreveram uma pequena cidade da Idade do Bronze, ocupada entre a segunda metade do terceiro milênio a.C. e, ao menos, meados do segundo milênio a.C.
Segundo a equipe, o conjunto reúne elementos que apontam para uma organização mais complexa do que a geralmente atribuída a áreas desérticas da região nesse período.
Entre esses elementos estão o assentamento permanente, a articulação com a agricultura e a presença de estruturas associadas a uma ocupação estável.
Combinados, os estudos de Khaybar, al-Natah e dos demais oásis murados ampliam o quadro sobre o noroeste da Arábia antiga.
Em vez de uma paisagem interpretada apenas a partir da mobilidade, as evidências passam a indicar também formas de fixação territorial, manejo de recursos e construção coletiva em escala significativa.

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