A Argentina aprovou em setembro de 2025 a maior concessão mineira do país desde a década de 1980 e a McEwen Copper vai investir 4 bilhões de dólares no projeto Los Azules, na cordilheira andina da província de San Juan, para extrair 205 mil toneladas anuais de cobre a partir de 2029 ou 2030. Conforme cobertura especializada do portal Mining.com, o depósito é o nono maior reservatório de cobre ainda não desenvolvido do planeta e tem parceria estratégica direta com a montadora franco-italiana Stellantis, que detém 18,3% das ações, e com a mineradora britânico-australiana Rio Tinto, dona de 17,2% via sua subsidiária Nuton.
A aprovação ocorreu dentro do Regime de Incentivo para Grandes Investimentos, conhecido pela sigla RIGI, política criada pelo governo de Javier Milei em 2024 para destravar capital estrangeiro em projetos acima de 200 milhões de dólares. Com a entrada de Los Azules, a Argentina garantiu uma onda de 2,7 bilhões de dólares em incentivos tributários e regulatórios de longo prazo, formalmente assinada em setembro de 2025.
O projeto vai funcionar em modelo de mina a céu aberto, com sistema de lixiviação em pilha e extração por solvente seguida de eletrowinning, processo que produz catodos de cobre Grau A da London Metal Exchange diretamente no sítio, sem necessidade de transporte de minério bruto para refinarias longínquas. A previsão é que a operação opere 100% em energia renovável desde o primeiro dia e atinja neutralidade de carbono em 2038.
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Como a Patagônia argentina pode substituir o Congo nos próximos anos
O Congo é hoje, conforme dados do US Geological Survey, o quarto maior produtor mundial de cobre, atrás somente do Chile, Peru e China, com volume anual próximo a 2,8 milhões de toneladas. A Argentina, em contraste, praticamente não produz cobre em escala industrial desde o fechamento da mina Alumbrera, na província de Catamarca, em 2018.
Pesquisadores descobrem que quanto mais a Argentina libera depósitos andinos historicamente travados por instabilidade política, mais o eixo geográfico global de produção de cobre se desloca para o cone sul-americano, alterando rotas comerciais e custos de transporte para indústrias automotivas e elétricas asiáticas e europeias. Los Azules sozinho pode adicionar 1,5% ao mercado global de cobre na próxima década.
A combinação de Los Azules com outros projetos avançados na província de San Juan, como Filo del Sol e Josemaría, ambos sob controle parcial da BHP e da Lundin Mining, pode triplicar a produção argentina de cobre até 2032. Com isso, o país pode entrar no grupo dos dez maiores produtores globais antes de 2035, segundo análises do Centro de Estudos para a Indústria Mineira.

O Regime RIGI de Milei que destravou o capital estrangeiro
O Regime de Incentivo para Grandes Investimentos foi aprovado pelo Congresso argentino em junho de 2024, como parte do pacote de reformas econômicas do governo Milei. O programa oferece a investidores em projetos acima de 200 milhões de dólares estabilidade fiscal por 30 anos, redução para 25% de imposto de renda corporativo, livre conversão cambial dos dividendos e isenção de tributos de importação para equipamentos industriais.
Segundo análise da consultoria Discovery Alert, dedicada a mercados de mineração, o RIGI já viabilizou em 2025 e 2026 a aprovação formal de 13 projetos no setor de mineração, com volume total comprometido superior a 18 bilhões de dólares. Os investimentos vão concentrar-se em cobre, lítio e prata nas províncias de San Juan, Catamarca, Salta e Jujuy ao longo da próxima década.
Conforme as informações divulgadas pela própria McEwen Copper em comunicado oficial, a inclusão do projeto no RIGI ocorreu após meses de revisão técnica de equipes da Secretaria de Mineração da Nação e contou com aval ambiental prévio do governo provincial de San Juan, liderado por Marcelo Orrego.

Por que Stellantis e Rio Tinto entraram juntos na operação
A Stellantis, dona de marcas como Fiat, Jeep, Citroën, Peugeot e Maserati, entrou como sócia de Los Azules em 2023 com investimento direto e compromisso de absorver parte significativa da produção futura para alimentar a fabricação de veículos elétricos.

A montadora projeta usar cobre argentino na produção de motores elétricos, baterias e sistemas de carregamento rápido em fábricas distribuídas pelo mundo.
A Rio Tinto entrou via sua subsidiária Nuton, especializada em técnicas de biolixiviação de cobre, com aporte inicial de 100 milhões de dólares. O acordo permite à Rio Tinto testar tecnologias proprietárias de extração mais eficiente em larga escala, em modelo que pode ser replicado em depósitos sul-americanos similares ao longo da próxima década.
O empresário canadense Rob McEwen, fundador da McEwen Mining e nome forte do setor de ouro desde os anos 1990, mantém 12,7% das ações remanescentes em participação pessoal direta. A McEwen Copper como holding controla 46,4% do projeto, e os demais 5,4% são distribuídos entre o conglomerado Smorgon, da Austrália, e outros investidores menores.
O IPO de US$ 300 milhões previsto para o último trimestre de 2026
A McEwen Copper anunciou preparativos para abertura de capital em bolsa, com janela tentativa entre outubro e dezembro de 2026, em oferta inicial estimada em 300 milhões de dólares. A operação visa complementar o financiamento de Los Azules e marcar o retorno de uma grande mineradora junior ao mercado de capitais norte-americano após anos de retração no setor.
O financiamento total do projeto Los Azules está estruturado em duas pernas. A primeira, de 2,4 bilhões de dólares, será captada via dívida estruturada com uma instituição financeira internacional ainda não nomeada publicamente. A segunda, de 1,6 bilhão de dólares, virá de capital próprio dos sócios estratégicos e de aportes futuros, incluindo o IPO planejado.
Conforme acompanhamento do portal BNamericas, especializado em mineração latino-americana, a previsão de produção do primeiro lote de catodos de cobre Grau A está marcada para 2029, com possibilidade de antecipação para o final de 2028 caso o cronograma de construção avance sem grandes atrasos logísticos nas obras de infraestrutura de acesso.
Por que o Brasil deve acompanhar de perto a corrida do cobre andino
O Brasil é importador líquido de cobre refinado e depende fortemente de fornecedores chilenos e peruanos para alimentar sua indústria elétrica e automotiva. A entrada da Argentina como produtor de escala muda a equação regional, abrindo possibilidade de redução de custos logísticos para importações via portos do Atlântico Sul, em especial Buenos Aires e Bahía Blanca.
Por outro lado, especialistas brasileiros do Instituto Brasileiro de Mineração apontam que o sucesso do RIGI pode pressionar o Brasil a oferecer condições competitivas equivalentes para destravar projetos parados em Minas Gerais e no Pará, onde existem reservas de cobre exploráveis mas com cronogramas regulatórios mais lentos.
Cabe destacar que outras descobertas sobre megaprojetos andinos, metais críticos e transição energética aparecem com frequência em nossas editorias de Curiosidades e Ciência, conectando avanços globais a oportunidades regionais para a indústria brasileira.
O risco político que sempre paira sobre projetos argentinos de longo prazo
Especialistas em risco-país alertam que a Argentina é historicamente vulnerável a alternâncias bruscas de regime econômico, com episódios passados de controles cambiais, congelamento de preços de exportação e alteração unilateral de contratos de concessão. O próprio RIGI já enfrenta questionamentos de movimentos políticos opositores que prometem revogá-lo em eventual mudança de governo.
Por outro lado, o blindagem fiscal de 30 anos prevista no regime cria barreira jurídica significativa para reversões. Investidores institucionais europeus e norte-americanos parecem confortáveis o suficiente com essa garantia para autorizar o desembolso de bilhões em projetos que só vão gerar caixa após 2029.
Ainda assim, o cronograma de Los Azules depende crucialmente da estabilidade política argentina pelos próximos 25 anos, prazo médio de vida útil esperada da mina. A próxima década dirá se Argentina e o eixo andino podem mesmo se firmar como contraponto estrutural ao Congo no abastecimento de cobre para a transição energética mundial.
