Alterações silenciosas no microbioma intestinal podem persistir por anos após o uso de antibióticos, mesmo em tratamentos curtos, segundo estudo de grande escala que analisou quase 15 mil adultos e identificou impactos duradouros na diversidade de bactérias no intestino.
Mesmo um único ciclo de antibióticos orais pode deixar marcas prolongadas no microbioma intestinal por até oito anos, de acordo com um estudo publicado em março de 2026 na revista Nature Medicine, ampliando o entendimento sobre efeitos além do período imediato de tratamento.
Ao analisar dados de 14.979 adultos na Suécia, os pesquisadores observaram que as consequências do uso desses medicamentos vão além de reações conhecidas no curto prazo, indicando alterações persistentes na composição das bactérias intestinais ao longo dos anos.
Como o estudo analisou o microbioma ao longo dos anos
Para chegar a essas conclusões, o trabalho combinou registros nacionais de prescrições de antibióticos com análises genéticas detalhadas de bactérias presentes em amostras de fezes coletadas dos participantes ao longo do período estudado.
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Com esse cruzamento de informações, tornou-se possível avaliar de que forma o uso de medicamentos nos oito anos anteriores à coleta se relacionava com o perfil atual da comunidade microbiana intestinal de cada indivíduo analisado.
Efeitos mais intensos no primeiro ano, mas persistência prolongada

Logo após o uso recente de antibióticos, especialmente dentro de um intervalo inferior a um ano, os pesquisadores identificaram as mudanças mais acentuadas na diversidade das bactérias presentes no intestino dos participantes.
Ainda assim, mesmo quando o uso havia ocorrido entre um e quatro anos antes, ou até entre quatro e oito anos, as análises continuaram indicando associações relevantes entre o histórico de medicação e a composição do microbioma.
Chama atenção o fato de que essa persistência não ficou restrita a quem passou por tratamentos repetidos ou prolongados ao longo do tempo, contrariando uma percepção comum sobre a reversibilidade desses efeitos.
Quando comparados indivíduos que receberam um único ciclo de antibiótico entre quatro e oito anos antes com aqueles sem uso no período, os resultados mostraram diferenças semelhantes na estrutura do microbioma intestinal.
Classes de antibióticos com maior impacto
Entre as classes avaliadas, clindamicina, fluoroquinolonas e flucloxacilina apareceram com as associações mais expressivas, sendo ligadas à redução da diversidade bacteriana e a mudanças relevantes na abundância de diferentes espécies.
Nesses casos, o uso ocorrido entre quatro e oito anos antes da coleta esteve relacionado a alterações em aproximadamente 10% a 15% das espécies analisadas, indicando um impacto mais amplo dentro do ecossistema intestinal.
Por outro lado, outras classes apresentaram efeitos mais discretos ao longo das análises realizadas pelos pesquisadores envolvidos no estudo.
Penicilina V, penicilinas de espectro ampliado e nitrofurantoína surgiram associadas a mudanças em um número reduzido de espécies, sugerindo que o impacto varia conforme o tipo de antibiótico utilizado em cada tratamento.
Por que o microbioma intestinal é tão relevante
Dentro do organismo humano, o microbioma intestinal reúne uma vasta comunidade de bactérias, vírus e outros microrganismos que desempenham funções essenciais para o funcionamento do corpo, incluindo digestão e interação com o sistema imune.

Quando ocorre redução na diversidade ou alterações significativas na composição dessas espécies, o equilíbrio desse ambiente pode ser afetado, o que tem sido associado na literatura científica a diferentes desfechos de saúde.
Uso responsável e limites do estudo
Embora os resultados ampliem o debate sobre efeitos de longo prazo, o estudo não indica que antibióticos devam ser evitados quando existe indicação médica clara para seu uso em infecções bacterianas.
Esses medicamentos continuam sendo fundamentais em diversos tratamentos, especialmente em casos em que a intervenção rápida é necessária para evitar complicações mais graves no quadro clínico do paciente.
O que os dados reforçam é a necessidade de uso criterioso, prescrição adequada e escolha do antibiótico conforme o caso clínico, considerando possíveis impactos que vão além do período imediato após o tratamento.
Além disso, os próprios autores destacam que os resultados identificam associações e não estabelecem uma relação direta de causa e efeito entre as alterações observadas no microbioma e o desenvolvimento de doenças específicas.
Dessa forma, permanece a necessidade de estudos adicionais que acompanhem os indivíduos ao longo do tempo para entender melhor as consequências clínicas dessas mudanças na composição bacteriana intestinal.
Ao ampliar o foco para além dos efeitos imediatos, como desconforto digestivo ou diarreia, a pesquisa sugere a existência de uma marca biológica silenciosa que pode permanecer registrada no intestino por anos após o fim do tratamento com antibióticos.

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