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Após a “seca do milênio” que devastou reservatórios entre 2000 e 2009, a Austrália investiu em 6 gigantes usinas de dessalinização, com Perth operando a primeira planta do país movida 100% por energia eólica que já fornece 47% da água da cidade, enquanto o governo aprova 11 novos projetos avaliados em US$ 15 bilhões até 2035 para garantir abastecimento no continente habitado mais seco do planeta

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 09/03/2026 às 15:45
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Após a “seca do milênio” que devastou reservatórios entre 2000 e 2009, a Austrália investiu em 6 gigantes usinas de dessalinização, com Perth operando a primeira planta do país movida 100% por energia eólica que já fornece 47% da água da cidade, enquanto o governo aprova 11 novos projetos avaliados em US$ 15 bilhões até 2035 para garantir abastecimento no continente habitado mais seco do planeta
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Austrália construiu seis grandes plantas de dessalinização entre 2006 e 2012 após a seca do milênio, que durou 14 anos e derrubou reservatórios abaixo de 50%. Perth inaugurou em 2006 a primeira grande planta do Hemisfério Sul, com 145 ML por dia e energia 100% compensada por parque eólico. Em 2021, a dessalinização já fornecia 47% da água da cidade.

Seca do milênio expôs a vulnerabilidade hídrica da Austrália, o continente habitado mais seco do planeta: Entre 1996 e 2010, a Austrália enfrentou a chamada Millennium Drought, uma seca prolongada que entrou para a história como o evento climático mais severo da era moderna do país. O fenômeno atingiu com força especial o sudeste australiano, região mais populosa e economicamente estratégica, onde estão cidades como Sydney, Melbourne, Brisbane e Adelaide. A combinação de chuvas persistentemente abaixo da média, calor intenso e evaporação elevada impôs uma pressão extrema sobre a agricultura, os rios, os reservatórios e o abastecimento urbano de água.

A Austrália já parte de uma condição geográfica difícil. Entre todos os continentes habitados, é o mais seco. Apenas a Antártica recebe menos precipitação média anual. Em termos nacionais, a chuva média gira em torno de 470 milímetros por ano, mas essa distribuição é extremamente desigual. Enquanto Darwin, no Território do Norte, recebe aproximadamente 1.700 milímetros anuais, Adelaide recebe menos de um terço desse volume. Em partes do interior, a precipitação cai para menos de 200 milímetros anuais, tornando o abastecimento altamente dependente de sistemas de captação, represas e planejamento hídrico de longo prazo.

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Esse quadro natural já frágil passou a ser agravado pelas mudanças climáticas. O continente aqueceu cerca de 1 grau Celsius em relação a um século atrás, e esse aumento de temperatura elevou as taxas de evaporação, reduziu a confiabilidade das chuvas e ampliou a frequência de eventos extremos. Em 2018, por exemplo, quase todos os estados australianos, com exceção da Tasmânia e da Austrália Ocidental, registraram precipitação abaixo da média.

Em Queensland, as temperaturas persistentemente altas ajudaram a impulsionar taxas recordes de evaporação. O período mais severo da seca do milênio ocorreu entre 2001 e 2009, mas os seus efeitos foram muito além desses anos, reconfigurando a política hídrica nacional.

A seca do milênio não foi apenas uma estiagem prolongada: ela obrigou a Austrália a admitir que seu antigo modelo de dependência de represas já não bastava.

Reservatórios de Sydney, Melbourne e Brisbane despencaram e colocaram as grandes cidades em risco

O ano de 2006 foi particularmente dramático. Em muitas partes da Austrália, foi o ano mais seco já registrado até então, e as condições quentes e áridas permaneceram até o início de 2010. Nas principais cidades do país, os níveis de armazenamento de água caíram para patamares críticos.

Os grandes reservatórios das capitais continentais passaram a operar abaixo de 50% da capacidade, cenário que transformou a escassez hídrica em uma ameaça concreta à vida urbana.

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Em Sydney, a situação se tornou simbólica da crise. A represa de Warragamba, principal fonte de abastecimento da cidade, caiu para 33% da capacidade em 2007. Em Melbourne, os níveis chegaram a uma mínima histórica de 25,6%, enquanto Brisbane viu seus reservatórios recuarem para menos de 20% da capacidade, depois de anos sem entradas substanciais de água.

A percepção pública de que uma metrópole poderia efetivamente ficar sem água deixou de ser teórica e passou a ser parte do cotidiano.

Antes da seca, a Austrália confiava de forma predominante em represas para abastecer cidades, atender a agricultura e sustentar a economia. A crise alterou radicalmente essa lógica. À medida que a seca se prolongava, os governos estaduais passaram a diversificar suas estratégias, combinando medidas de emergência e políticas permanentes.

Surgiram programas de reciclagem de águas cinzas, subsídios para instalação de tanques de água da chuva, restrições mais rigorosas ao consumo industrial, campanhas de conscientização e novos planos de segurança hídrica.

Ainda assim, ficou claro que apenas controlar demanda não seria suficiente. Se a escassez se prolongasse, era necessário criar novas fontes de água independentes da chuva.

Dessalinização de água do mar virou resposta estratégica e levou o governo a construir seis grandes plantas entre 2006 e 2012

Com o agravamento da seca, as concessionárias de água ao redor da Austrália começaram a tratar a dessalinização de água do mar não mais como uma tecnologia marginal ou de último recurso, mas como parte central da segurança hídrica nacional.

Os governos responderam com rapidez incomum. Em um intervalo de poucos anos, o país construiu seis grandes plantas de dessalinização ao longo da costa para abastecer as principais capitais australianas.

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A primeira planta moderna de grande escala foi a Perth Seawater Desalination Plant, concluída em novembro de 2006. Depois dela, vieram outras cinco instalações importantes até 2012. Até 2015, essa rede já era capaz de fornecer até 30% das necessidades de água potável de Perth, cerca de 10% de Brisbane, 15% de Melbourne, 10% de Sydney e aproximadamente 40% de Adelaide, tudo a partir de um recurso abundante, mas até então pouco explorado na matriz hídrica do país: a água do mar.

A combinação de seca severa, mudança climática, crescimento populacional, avanço tecnológico na osmose reversa e redução gradual de custos permitiu um salto impressionante.

Foto: Australian Water Association

Em apenas dez anos, entre 2005 e 2015, a produção de água dessalinizada na Austrália cresceu de menos de 100 ML por dia para mais de 1.800 ML por dia. Para um país que até então tratava a dessalinização como solução periférica, a velocidade dessa transformação foi extraordinária.

Em apenas seis anos, a Austrália ergueu uma infraestrutura de dessalinização capaz de mudar a lógica do abastecimento urbano em escala nacional.

Perth inaugurou em 2006 a primeira grande planta de dessalinização do Hemisfério Sul

A planta de Perth, localizada em Kwinana, em Cockburn Sound, na Austrália Ocidental, tornou-se um marco mundial. Quando foi construída entre 2005 e 2006, ao custo de cerca de 387 milhões de dólares australianos, era a maior planta de dessalinização do Hemisfério Sul e a primeira instalação de grande escala do tipo no país.

Ela foi implantada por uma joint venture entre Multiplex e Degremont, em aliança com a Water Corporation, e projetada para operar por pelo menos 25 anos. Sua capacidade de 145 megalitros por dia fez dela a maior fonte individual de água para a região metropolitana de Perth, respondendo por cerca de 17% das necessidades públicas de abastecimento logo após a sua entrada em operação.

O projeto também ganhou atenção internacional por seu modelo energético. A eletricidade consumida pela planta passou a ser compensada por geração renovável, permitindo que a operação fosse associada a uma matriz mais limpa. A planta também incorporou dispositivos isobáricos de recuperação de energia, reduzindo o consumo específico por metro cúbico produzido e tornando-se referência global em eficiência.

Parque eólico Emu Downs compensou 100% da energia da planta de Perth e virou vitrine mundial

A planta de Kwinana compra eletricidade de uma rede alimentada, em parte decisiva, pelo Emu Downs Wind Farm, parque eólico localizado cerca de 200 quilômetros ao norte de Perth, próximo de Cervantes. O parque possui 48 turbinas eólicas Vestas de 1,65 MW, totalizando aproximadamente 80 MW de capacidade instalada, e injeta mais de 272 GWh por ano na rede.

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A Water Corporation compra dessa produção cerca de 185 GWh anuais, volume suficiente para compensar toda a energia utilizada pela planta de dessalinização.

Isso fez de Perth um caso emblemático de integração entre dessalinização e energia renovável. Em vez de tratar a água dessalinizada como simples “eletricidade engarrafada”, a Austrália Ocidental tentou reposicionar o modelo como uma fonte hídrica mais sustentável.

Além da energia limpa, o projeto também foi associado a uma redução estimada de 220 mil toneladas de CO₂, equivalente à retirada de aproximadamente 50 mil carros das estradas da Austrália Ocidental. O êxito técnico e simbólico da planta levou Perth a avançar para uma segunda grande instalação.

Southern Seawater Desalination Plant ampliou a dependência de Perth da água do mar

A segunda grande planta de Perth, a Southern Seawater Desalination Plant, foi construída em Binningup e concluída em 2012 por um consórcio que incluía Técnicas Reunidas, Valoriza Agua, AJ Lucas e Worley Parsons. Com capacidade de 150 ML por dia, ela praticamente dobrou a oferta de água dessalinizada da cidade.

Em 2020-2021, a água produzida pelas duas plantas de dessalinização respondeu por 47% do abastecimento de Perth, transformando a dessalinização em fonte de carga-base, e não apenas em reserva emergencial.

Vista aeréa da Southern Seawater Desalination Plant, – créditos: Parry and Rosenthal Architects

Isso ocorreu num contexto em que as represas da cidade registraram algumas das menores entradas de água de sua história recente. Em 2010, Perth viveu seu terceiro ano mais seco já registrado, acompanhado pela primavera mais quente da série histórica local.

A experiência de Perth chamou atenção internacional também por outro motivo: até então, os estudos e o monitoramento ambiental não identificaram impacto adverso significativo da descarga de salmoura no ambiente marinho local. A planta recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais, incluindo o de Planta Internacional de Dessalinização do Ano, concedido pela International Desalination Association em 2007.

Sydney construiu planta de US$ 1,7 bilhão, desligou em 2012 e voltou a usá-la anos depois

Sydney seguiu uma trajetória diferente. A capital de Nova Gales do Sul começou a discutir dessalinização em meados dos anos 2000, mas o projeto enfrentou resistência pública e dúvidas técnicas. A princípio, a ideia era só acionar a planta caso os reservatórios da região caíssem abaixo de 30%.

Quando os níveis se aproximaram perigosamente desse patamar em 2007, no auge da seca, a construção avançou. Mesmo com a recuperação temporária das represas, a obra foi mantida. A planta de dessalinização de Kurnell, avaliada em 1,7 bilhão de dólares, foi concluída e inaugurada em janeiro de 2010.

No entanto, como a seca terminou pouco depois e os reservatórios voltaram a encher, a planta foi desligada em 2012 após um curto período de operação. A crítica pública aumentou, porque o investimento parecia excessivo diante da volta das chuvas.

Ainda assim, a infraestrutura permaneceu pronta, e anos depois voltaria a ser considerada essencial. Em janeiro de 2019, a planta foi religada pela primeira vez desde 2012 e passou a integrar novamente a estratégia de abastecimento da cidade.

O caso de Sydney mostrou que a dessalinização na Austrália não seria uma solução linear. Em alguns casos, as plantas funcionariam continuamente; em outros, seriam tratadas como seguro hídrico caro, mas estrategicamente necessário.

Wonthaggi virou a maior planta de dessalinização da Austrália e símbolo do custo da segurança hídrica

Melbourne construiu a maior planta de dessalinização do país. A Wonthaggi Desalination Plant, iniciada em 2009 e operando comercialmente a partir de 2012, custou cerca de US$ 3,5 bilhões e possui capacidade de 450 ML por dia. Foi construída pelo consórcio Aquasure e passou a representar o investimento mais emblemático da resposta australiana à seca.

Ao mesmo tempo, a planta se tornou símbolo da controvérsia em torno da dessalinização. Embora gigantesca, ela nunca foi usada em sua plena capacidade por longos períodos, o que alimentou críticas sobre custo de capital, tarifas e retorno efetivo.

A crise hídrica, no entanto, havia sido real e extrema. O governo de Victoria também investiu em oleodutos, tratamento de água, programas de reembolso para reaproveitamento de águas cinzas e campanhas para redução do consumo.

Em Melbourne, a resposta não ficou restrita à oferta. A cidade promoveu uma transformação impressionante do lado da demanda.

Melbourne cortou o consumo de água pela metade e virou referência mundial em conservação

Durante a seca do milênio, Melbourne reduziu seu consumo per capita de água de forma dramática. Em 2010, empresas e moradores consumiam cerca de 155 litros por pessoa por dia, aproximadamente metade do volume registrado em 1997, antes da seca se agravar. Essa queda representou, em média, 107 GL de água potável economizados por ano, volume próximo de 70% da produção anual máxima da planta de Wonthaggi.

A redução foi resultado de uma combinação de restrições de uso, programas de eficiência hídrica, subsídios para aparelhos economizadores, financiamento para a indústria e campanhas educativas amplas. Uma das estratégias mais eficazes foi também uma das mais simples: painéis eletrônicos exibindo em tempo real os níveis dos reservatórios.

Ao mostrar visualmente o risco de ficar sem água, a política conseguiu mobilizar a população em torno de uma ameaça concreta.

Estudos acadêmicos, inclusive análises da Universidade da Califórnia, passaram a citar Melbourne como um dos casos mais bem-sucedidos de resposta urbana à escassez hídrica. A cidade provou que é possível cortar a demanda sem colapso social, desde que haja comunicação clara, pressão política e senso coletivo de urgência.

Melbourne não respondeu à seca apenas com concreto e tubos: respondeu também mudando o comportamento de milhões de pessoas.

Gold Coast, Brisbane e Adelaide completaram até 2012 a rede australiana de seis grandes plantas

A resposta australiana à seca do milênio se consolidou entre 2006 e 2012 com a entrada em operação de plantas adicionais em Queensland e na Austrália do Sul. A Gold Coast desalination plant, em Bilinga, entrou em operação a partir de 2009. Em Queensland, o governo federal também prometeu recursos para uma planta de 1,1 bilhão de dólares, com capacidade de 50 gigalitros, como parte de uma estratégia mais ampla para o sudeste do estado.

Na Austrália do Sul, o governo anunciou em 2007 a construção da Adelaide Desalination Plant, em Port Stanvac. Antes da grande planta, uma instalação piloto de 100 mil litros por dia foi concluída em 2008 para testar tecnologias e operação local. Até o fim de 2012, a Austrália tinha colocado em pé seis grandes plantas de dessalinização de água do mar em apenas seis anos, alcançando todas as capitais estaduais do continente.

Essa velocidade foi notável. O país, que tratava a dessalinização como último recurso duas décadas antes, passou a incorporá-la como componente central da sua segurança hídrica.

O fim da seca veio com chuvas extremas e enchentes, mas não anulou os investimentos

O fim da seca do milênio foi tão dramático quanto o próprio período seco. Em 2010, a Austrália entrou numa fase de forte influência de La Niña, e chuvas recordes passaram a atingir várias regiões. A Bacia Murray-Darling registrou sua maior precipitação anual da série histórica. Sydney teve um ano muito úmido em 2010 e, em 2011, viveu seu ano mais chuvoso em mais de 150 anos.

Em Queensland e Victoria, as chuvas se transformaram em enchentes devastadoras. Em dezembro de 2010 e janeiro de 2011, inundações violentas atingiram diferentes áreas do país. A mudança de cenário levou parte da opinião pública a questionar se os investimentos em dessalinização haviam sido exagerados.

Mas a leitura estratégica dos governos foi outra. Em vez de tratar as plantas como erros, muitos formuladores de políticas passaram a vê-las como infraestrutura de resiliência diante de um clima mais instável, no qual secas longas e enchentes severas podem se alternar em intervalos cada vez mais curtos.

A infraestrutura hídrica criada após a seca continua moldando a política da água na Austrália

A seca do milênio deixou uma herança institucional profunda. Muitos estados australianos elaboraram pela primeira vez planos formais de segurança hídrica, incorporando cenários climáticos, diversificação de fontes e coordenação intergovernamental.

Na Austrália do Sul, por exemplo, esse processo resultou no plano Water for Good. Em escala de bacia, o período ajudou a fortalecer a governança do sistema Murray-Darling e a consolidar a Murray-Darling Basin Authority.

Os governos federal e estaduais perceberam que decisões sobre água não poderiam mais ser tomadas apenas com base em séries históricas de chuva. A incerteza climática passou a exigir novas combinações entre represas, águas subterrâneas, água reciclada, gestão da demanda e dessalinização.

Essa mudança de paradigma continua em curso. Hoje, o país volta a projetar novos investimentos.

Austrália projeta 11 novas plantas de dessalinização e mais de US$ 15 bilhões em investimentos na próxima década

A Austrália caminha para uma nova expansão da dessalinização. Projeções indicam que o país poderá construir ou ampliar 11 plantas de dessalinização nos próximos dez anos, com investimentos estimados em mais de 23 bilhões de dólares australianos, equivalentes a cerca de US$ 15 bilhões.

A razão é clara. À medida que as secas se tornam mais longas, as chuvas mais irregulares e a população urbana continua crescendo, a dependência exclusiva de represas se torna cada vez menos segura. Em Perth, por exemplo, a infraestrutura atual de represas, água subterrânea e dessalinização deverá fornecer menos de 200 gigalitros por ano até 2050, enquanto a população pode chegar a 3,5 milhões de pessoas. O déficit projetado equivale a algo como cinco novas plantas do porte de Kwinana.

A pressão não é apenas em Perth. A população australiana vive majoritariamente em cidades costeiras, e espera-se que as áreas urbanas recebam cerca de 20 milhões de pessoas adicionais nos próximos 30 anos. O consumo urbano de água pode crescer 73%, superando 2.650 gigalitros por ano. Para atender a essa demanda, o país está olhando além das soluções históricas e aprofundando a aposta em tecnologia.

Dessalinização segue controversa por causa do custo, da energia e da salmoura

Apesar do avanço técnico, a dessalinização continua sendo uma solução controversa. Ela oferece uma fonte altamente confiável e praticamente independente da chuva, mas cobra um preço elevado. As plantas são caras para construir, intensivas em energia para operar e produzem salmoura concentrada, que precisa ser descartada com segurança no ambiente marinho.

Em Sydney, por exemplo, a planta pode custar cerca de 500 mil dólares australianos por dia para operar, mesmo quando a lógica econômica da sua ativação é debatida. É por isso que a água dessalinizada ficou conhecida por alguns críticos como “eletricidade engarrafada”. No entanto, o contraponto também é forte: em contextos de seca severa, não ter água custa muito mais.

A questão central deixou de ser apenas se a dessalinização deve existir. Hoje, o debate é sobre qual nível de segurança hídrica a sociedade australiana está disposta a pagar. Quanto mais resiliente o sistema, maior tende a ser o custo da infraestrutura. Por outro lado, quanto menor o investimento, maior o risco de colapso durante secas prolongadas.

Na Austrália, a dessalinização deixou de ser exceção e passou a ser tratada como seguro hídrico nacional.

A experiência australiana virou referência global em segurança hídrica, mas a grande pergunta continua aberta

A Austrália é hoje frequentemente citada como referência em gestão hídrica moderna por ter combinado investimento em infraestrutura, inovação tecnológica, conservação e comunicação pública. A resposta à seca do milênio foi ampla e mudou a cultura da água no país. Mesmo assim, o sistema continua sob pressão, e a questão central permanece sem resposta definitiva.

Até onde vale investir em grandes obras caras para se proteger de secas futuras? Qual é o equilíbrio ideal entre dessalinização, reciclagem, eficiência e restrição de demanda? E, sobretudo, a Austrália fez o suficiente para garantir água a uma população crescente em um continente cada vez mais quente e mais seco?

A seca do milênio mostrou que a antiga lógica da abundância já não serve. As seis grandes plantas construídas entre 2006 e 2012 não foram um detalhe técnico: foram a materialização de uma mudança histórica. A Austrália, o continente habitado mais seco da Terra, decidiu que o mar também faria parte da sua matriz de abastecimento.

E tudo indica que essa decisão está apenas começando a moldar o futuro hídrico do país.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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