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Após 25 anos, finalmente o acordo entre Mercosul e União Europeia é “confirmado”, cria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo e reacende disputas políticas, protestos agrícolas e interesses estratégicos globais

Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 10/01/2026 às 15:39
Assista o vídeoPresidente do Brasil em destaque ao lado dos mapas do Mercosul e da União Europeia simbolizando o papel central do país no acordo de livre comércio
Acordo entre Mercosul e União Europeia cria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo.
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Entenda como o histórico do acordo, as resistências internas, as salvaguardas econômicas e os impactos no consumo, na indústria e na geopolítica explicam a formação de um bloco que reúne quase 750 milhões de pessoas

Depois de mais de 25 anos de negociações, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia foi oficialmente confirmado pela presidência da União Europeia, atualmente exercida pelo Chipre, em conjunto com representantes do bloco sul-americano, incluindo declarações públicas da Argentina. O anúncio marca um dos movimentos mais relevantes da geopolítica econômica global nas últimas décadas, ao criar uma das maiores zonas de livre comércio do planeta, envolvendo cerca de 295 milhões de pessoas no Mercosul e aproximadamente 450 milhões na União Europeia.

A informação foi divulgada por representantes oficiais da União Europeia e por autoridades do Mercosul, conforme declarações públicas de chanceleres e membros da Comissão Europeia, repercutidas por veículos internacionais especializados em economia e geopolítica. Ainda assim, apesar da confirmação política, o acordo segue cercado por tensões internas, protestos agrícolas e disputas estratégicas que ajudam a explicar por que esse tratado levou tanto tempo para sair do papel.

O avanço ocorre em um contexto global marcado por guerras comerciais, aumento do protecionismo, disputas entre grandes potências e uma reconfiguração das cadeias produtivas internacionais. Nesse cenário, o acordo não representa apenas redução de tarifas, mas também uma tentativa de reposicionamento estratégico tanto da Europa quanto da América do Sul diante de um mundo cada vez mais fragmentado economicamente.

O contexto histórico: da criação do Mercosul à retomada das negociações com a Europa

Mapa do Mercosul e da União Europeia conectados por rotas de comércio internacional após acordo histórico
Acordo entre Mercosul e União Europeia cria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo. Créditos: Imagem ilustrativa criada por IA – uso editorial.

Para compreender a dimensão do acordo, é necessário voltar a 1991, quando o Mercosul foi criado pelo Tratado de Assunção, em um momento de profundas transformações globais. O fim da Guerra Fria, a queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética abriram espaço para a expansão do liberalismo econômico, da globalização e da formação de blocos comerciais.

Na década de 1990, o mundo viveu a consolidação de grandes áreas de livre comércio. Em 1994 e 1995, o Mercosul deixou de ser apenas uma zona de livre comércio e passou a ser uma união aduaneira, com a assinatura do Tratado de Ouro Preto, adotando a chamada tarifa externa comum. Já naquele momento, havia previsão de acordos com outros blocos econômicos, incluindo a União Europeia.

Os Estados Unidos, por exemplo, chegaram a propor a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas). No entanto, o projeto foi rejeitado pelos países latino-americanos, que viam a proposta como desequilibrada, já que os EUA desejavam acesso livre aos mercados, mas mantinham forte protecionismo agrícola. Paralelamente, a União Europeia buscava ampliar sua influência econômica na América Latina, o que levou ao início formal das negociações com o Mercosul em 1999, durante o governo Fernando Henrique Cardoso.

Entretanto, os anos 2000 trouxeram uma mudança de cenário. A chamada Rodada Doha, organizada pela Organização Mundial do Comércio (OMC), expôs conflitos profundos entre países desenvolvidos e emergentes. O Brasil liderou o G20 Comercial, grupo de países em desenvolvimento que denunciava os subsídios agrícolas e barreiras comerciais impostas por europeus e norte-americanos. Esse impasse acabou esfriando as negociações entre Mercosul e União Europeia por mais de uma década.

O acordo em números: tarifas, prazos, salvaguardas e impactos no consumo

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Somente em 2019 a parte técnica do acordo foi concluída, mas sua aprovação política levou quase cinco anos adicionais, marcados por críticas ambientais, disputas internas e resistência de países europeus. Agora, o desenho final prevê uma liberalização gradual do comércio, e não imediata.

Pelo acordo, 92% dos produtos exportados pelo Mercosul terão isenção tarifária em até 10 anos. Do outro lado, 91% dos produtos europeus vendidos ao Mercosul ficarão livres de tarifas em um prazo de até 15 anos. Esse escalonamento foi criado justamente para reduzir choques bruscos nas economias locais.

Entre os impactos diretos para os consumidores sul-americanos estão a redução de preços de produtos como vinhos, queijos, azeites, chocolates, destilados e automóveis. Atualmente, carros importados da União Europeia pagam tarifa de 35% para entrar no mercado brasileiro, percentual que será reduzido progressivamente até chegar a zero.

No entanto, o acordo também prevê salvaguardas. Produtos considerados sensíveis pela União Europeia, como carne bovina, aves, arroz, mel, ovos e etanol, estarão sujeitos a cotas de importação. Caso as exportações do Mercosul cresçam mais de 8% ou os preços fiquem 8% abaixo dos produtos locais, mecanismos de proteção poderão ser acionados.

Além disso, o Brasil se comprometeu a cumprir exigências ambientais, incluindo rastreabilidade de produtos, restrições ao uso de pesticidas proibidos na Europa e comprovação de que mercadorias não estão associadas ao desmatamento da Amazônia ou do Cerrado.

Resistências políticas, protestos agrícolas e o jogo de interesses globais

Apesar da confirmação do acordo, a resistência interna na Europa permanece significativa. França, Áustria, Irlanda, Polônia e Hungria lideram a oposição, principalmente por serem grandes produtores agrícolas. Na França, considerada o “celeiro agrícola” do continente, protestos de agricultores ganharam força, alimentados por partidos nacionalistas e eurocéticos.

O presidente Emmanuel Macron chegou a declarar que um francês não deveria consumir produtos que incentivassem o desmatamento da Amazônia, discurso amplamente interpretado como proteção à agricultura local. Ao mesmo tempo, líderes como Marine Le Pen e Jordan Bardella transformaram o acordo em bandeira política contra o governo francês.

Para superar resistências, a Comissão Europeia prometeu injetar 45 bilhões de euros em subsídios agrícolas a partir de 2028, medida que foi decisiva para reduzir a oposição da Itália, liderada por Giorgia Meloni, que anteriormente ameaçava bloquear o tratado.

Do lado do Mercosul, o Brasil buscou proteger sua indústria por meio da cláusula de compras governamentais, garantindo que aquisições de hospitais, escolas, forças armadas e instituições públicas priorizem produtos nacionais. A estratégia visa mitigar os efeitos da desindustrialização, processo que o país enfrenta desde a década de 1980.

Por fim, o contexto global acelerou o acordo. A guerra comercial dos Estados Unidos, as tarifas impostas por Donald Trump, o avanço do protecionismo chinês e disputas por dumping industrial levaram a União Europeia a buscar novos mercados com urgência. Nesse cenário, o Mercosul surgiu como alternativa estratégica.

Agora, o acordo ainda precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu e pelos parlamentos nacionais do Mercosul — Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Apesar disso, os sinais políticos indicam que a aprovação tende a ocorrer sem grandes obstáculos.

Diante de tantos impactos econômicos, ambientais e estratégicos, a pergunta que permanece é direta: o acordo entre Mercosul e União Europeia representa uma oportunidade histórica para o Brasil ou um risco à sua indústria e soberania econômica?

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Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com

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