Em fevereiro de 2026, Buenos Aires começou a construir o Anillo La Pampa — um túnel de 540 metros mais uma ponte circular de 140 metros de diâmetro com mirante panorâmico para aviões. O prazo é de apenas 20 meses, e a obra vai cortar em 50% o tempo de viagem em uma das regiões mais congestionadas da capital argentina.
Segundo o Governo da Cidade de Buenos Aires (GCBA), o Anillo La Pampa é o projeto de mobilidade urbana da Argentina em décadas.
As obras foram iniciadas em fevereiro de 2026 pela Autopistas Urbanas S.A. (AUSA), com investimento de 57,44 bilhões de pesos argentinos e prazo de 20 meses para entrega.
O projeto resolve uma desconexão histórica entre os bairros de Bajo Belgrano e Palermo e a Costanera Norte, o Aeroparque Jorge Newbery e a Cidade Universitária.
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Portanto, trata-se de uma obra que afeta diretamente a rotina de centenas de milhares de portenhos.
Além disso, o design é inédito na América do Sul.
O projeto combina engenharia subterrânea — com um túnel que passa sob uma avenida, uma autopista e linhas de trem — com uma ponte em formato de anel,
algo que não existe em nenhuma outra cidade do continente.
O que é o Anillo La Pampa e por que é inédito

A obra é composta por duas estruturas distintas. A primeira é um túnel vehicular de 540 metros de comprimento, com quatro faixas de circulação — duas em cada sentido.
A altura livre é superior a quatro metros, o que permite a passagem de ônibus e caminhões.
Conforme o GCBA, o túnel passa por baixo da avenida La Pampa, da Autopista Illia e das vias do Ferrocarril Belgrano Norte.
Na prática, isso elimina cruzamentos em nível que hoje travam o tráfego por longos períodos.
A segunda estrutura é a ponte circular — o elemento mais inusitado do projeto. Trata-se de um anel peatonal com 140 metros de diâmetro, que inclui ciclovia, área de lazer e um mirante panorâmico.
Da passarela, pedestres têm vista direta para decolagens e aterrissagens no Aeroparque.
- Túnel vehicular: 540 metros, 4 faixas (2 por sentido), altura livre >4m
- Ponte anel peatonal: 140m de diâmetro com ciclovia e mirante
- Área total da intervenção: mais de 10.000 m²
- Redução de tempo de viagem: 50% em horário de pico
- Investimento: 57,44 bilhões de pesos argentinos (≈ US$ 57 milhões)
- Prazo: 20 meses — entrega prevista para fins de 2027
O problema histórico de mobilidade que a obra resolve

O norte de Buenos Aires é uma das regiões com maior congestionamento da cidade.
Segundo o Observatorio AMBA, os moradores de Bajo Belgrano e Palermo precisam hoje dar grandes desvios para chegar à Costanera Norte, ao Aeroparque ou à Cidade Universitária.
As conexões existentes — pelas pontes Labruna, Scalabrini Ortiz ou pelo passo sob o Sarmiento — geram rotas extensas e tempos elevados, especialmente nos picos da manhã e da tarde.
Além disso, os cruzamentos ferroviários acrescentam paradas imprevisíveis ao trajeto.
Dessa forma, uma viagem que deveria durar 10 minutos pode levar 20 a 25 minutos em dias normais.
A obra promete eliminar esse gargalo com uma solução permanente, sem semáforos ou cruzamentos no mesmo nível.
Conforme o GCBA, os testes de solo realizados em fevereiro confirmaram que as instalações subterrâneas de serviços públicos coincidem com os planos existentes.
Portanto, os riscos de interferências inesperadas foram mitigados antes do início das escavações principais.
O mirante com vista para aviões: o detalhe que viralizou
Entre todos os elementos do projeto, o mirante panorâmico da ponte anel foi o que mais chamou atenção.
O espaço fica no ponto mais alto da estrutura circular e oferece visão privilegiada sobre o Aeroparque Jorge Newbery — um dos aeroportos mais movimentados da Argentina.
Na prática, pedestres e ciclistas que usarem a passarela poderão observar aeronaves em manobras de aproximação e decolagem a poucos metros de distância. Contudo, o mirante não é apenas uma atração turística.
Ele também serve como ponto de conexão entre a ciclovia e os caminhos do Parque Costeiro.
Segundo o GCBA, o objetivo é criar um espaço que, além de resolver o problema de mobilidade, seja “desfrutable e vivible” — um polo de lazer integrado ao rio e ao entorno verde da Costanera.
O calendário de obras e os impactos no trânsito

As obras provocam alterações significativas no trânsito do norte de Buenos Aires. O trecho da avenida La Pampa entre Lugones e Figueroa Alcorta foi fechado ao tráfego no início de março de 2026.
Além disso, a saída de Lugones para La Pampa e a saída de Udaondo foram temporariamente encerradas.
Consequentemente, o Observatorio AMBA recomendou alterações de rotas para motoristas e usuários de transporte público. Linhas de ônibus que passavam pela região receberam desvios temporários.
Ainda assim, a AUSA coordenou os fechamentos para evitar sobreposições com outras obras simultâneas — como a ampliação da Ponte Labruna, que ocorre no mesmo período. O cronograma foi elaborado para minimizar o impacto cumulativo.
Em outras palavras, a perturbação temporária no trânsito faz parte do plano. A AUSA optou por concentrar os transtornos em 20 meses para entregar uma solução definitiva em vez de prolongar intervenções pontuais por anos.
Como se compara a obras similares no mundo
Projetos que combinam túnel vehicular e estrutura peatonal elevada existem em cidades como Bilbao (País Basco) e Bilbao e Roterdã, mas com escalas e contextos distintos.
Na América do Sul, não há precedente direto de uma ponte em formato de anel integrada a um túnel urbano de acesso ao aeroporto.
Por outro lado, a engenharia subterrânea urbana é tema recorrente em cidades que precisam resolver gargalos sem desapropriar imóveis.
Como mostra um estudo recente, o Brasil investe apenas 2,24% do PIB em infraestrutura — bem abaixo dos padrões recomendados para países em desenvolvimento.
A Argentina, com essa obra, escolheu uma solução de alta engenharia em espaço urbano denso.
Da mesma forma, a aposta no design icônico segue a tendência de infraestruturas que funcionam como marcos urbanos
É o caso da ponte suspensa de dois andares que a China ergueu com 5 recordes mundiais — referência global em engenharia com identidade visual
O que a obra diz sobre Buenos Aires em 2026
O projeto é parte de uma agenda mais ampla de requalificação urbana da Cidade de Buenos Aires.
O projeto integra-se ao Parque da Inovação, ao Parque Costeiro e à Cidade Universitária — formando um corredor de modernização no norte da capital.
Segundo o GCBA, a expectativa é que a estrutura valorize imóveis na região e atraia novos usos para os espaços públicos ao redor.
Na prática, a ponte anel e o mirante funcionarão como ancoras para um projeto maior de integração com o Rio da Prata.
Seria possível replicar um projeto assim em outras metrópoles da América do Sul — como São Paulo, que debate há décadas soluções para seus gargalos de mobilidade urbana?
A resposta depende menos de tecnologia do que de decisão política e planejamento de longo prazo.
Ainda assim, vale lembrar: o prazo de 20 meses é ambicioso para uma obra urbana complexa.
Nota: o investimento de 57,44 bilhões de pesos argentinos reflete os valores oficiais do GCBA, divulgados em fevereiro de 2026. Dada a volatilidade cambial da Argentina, conversões podem variar.
O prazo de 20 meses está sujeito a revisões, conforme ocorre com obras urbanas complexas em ambiente inflacionário.

Simboliza o buraco negro onde o Milei enfiou a Argentina (pra não dizer coisa pior)
Cada um lê o cenário argentino do seu jeito, Antônio. Independentemente da leitura política, o projeto começou em fevereiro de 2026 e tem entrega prevista para 2031 com financiamento misto. Vamos acompanhar como anda.
Interessante o projeto, mais por onde é que sobe nessa ponte?
Boa pergunta, C.j. O projeto do Anillo La Pampa publicado pela prefeitura de Buenos Aires mostra o anel como passarela peatonal com ciclovia integrada, o que pressupõe rampas de acesso a partir do nível da rua (e não escadas isoladas). O detalhamento final do acesso, contudo, ainda não foi divulgado: deve sair junto com o cronograma de obras civis nos próximos meses. Quando a prefeitura publicar, atualizamos a matéria.
A matéria é curiosa, projeto ousado e inovador mas embaixo das pontes comumente corre um rio….. seria um elevado, mesanino, viaduto menos ponte.
Boa observação, Anderson. Tecnicamente o conjunto mistura viaduto elevado nas rampas circulares e ponte propriamente dita no trecho principal sobre o Río Salado, em La Pampa. O projeto oficial usa ‘puente anillo’ como nome, mas a estrutura é híbrida como você apontou.