A ANEEL projeta que o Brasil vai adicionar 9.142 MW de capacidade em 2026 — um salto de 23,4% sobre 2025 — com a energia solar liderando com 4.560 MW e confirmando a virada renovável da matriz brasileira
O Brasil vai instalar em 2026 o equivalente a 9 usinas nucleares de Angra III em capacidade de geração elétrica.
São 9.142 megawatts (9,1 GW) de nova capacidade, segundo projeção da ANEEL, divulgada em 13 de janeiro de 2026 via Relatório de Acompanhamento da Expansão (Ralie).
O número representa um crescimento de 23,4% sobre os 7.403 MW adicionados em 2025.
-
Onde muita gente pensaria que energia solar não funciona, 360 painéis operam no Ártico, aproveitam a neve refletida e ajudam uma estação isolada a gastar menos diesel
-
Sem terra suficiente para expandir energia limpa, uma ilha que pouca gente conhece levou 184 painéis solares para cima da água e transformou uma lagoa urbana em fonte de eletricidade
-
Mesmo no Japão, uma ilha com 417 moradores ainda depende de diesel trazido por navio e agora que testar viver metade do ano apenas com energia solar
-
Pescadores sem rede elétrica passam a usar energia solar, fabricam quase 1 tonelada de gelo por dia e impedem que o peixe estrague antes de chegar ao mercado
Para ter uma ideia da escala, esses 9,1 GW seriam suficientes para abastecer uma cidade do tamanho de São Paulo inteira.
Além disso, a projeção confirma uma mudança estrutural na matriz: a energia solar assumiu a liderança absoluta nas novas instalações.

Solar lidera com folga: 4.560 MW e crescimento de 61,7%
A energia solar fotovoltaica centralizada responde por 4.560 MW da expansão projetada para 2026.
Isso representa um aumento de 61,7% sobre os 2.815 MW solares adicionados em 2025.
Na prática, significa que a cada dia útil do ano, o Brasil vai inaugurar o equivalente a uma usina solar de médio porte.
Já a eólica contribuirá com 1.430 MW, abaixo dos 1.825 MW do ano anterior.
Portanto, a solar está crescendo enquanto a eólica desacelera — uma inversão de tendência significativa para o setor.
Termelétricas fósseis ainda aparecem com 2.770 MW, representando quase 30% do total.
Biomassa e geração hídrica somam os 362 MW restantes.
O que foi instalado em 2025 — a base de comparação
Em 2025, o Brasil adicionou 7.403 MW de capacidade distribuídos em 136 usinas.
A diversidade impressiona:
- 63 centrais solares: 2.815 MW (38% do total)
- 43 parques eólicos: 1.825 MW (25%)
- 15 termelétricas: 2.505 MW (34%)
- 11 PCHs: 199 MW
- 1 UHE: 50 MW
- 3 CGHs: 6,7 MW
Dessa forma, as renováveis já dominaram 2025.
Contudo, 2026 promete ampliar essa liderança com a solar crescendo mais de 60%.
84,63% renovável — mais que o dobro da média global
Em 1º de janeiro de 2026, a capacidade total instalada do Brasil atingiu 215.936 MW (215,9 GW), segundo dados do SIGA (Sistema de Informações de Geração da ANEEL).
Desse total, 84,63% vêm de fontes renováveis.
Para comparação, a média global de renováveis na matriz elétrica fica em torno de 40%.
O Brasil está mais que o dobro acima dessa média.
É uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo entre grandes economias.
Contudo, essa proporção inclui as hidrelétricas construídas décadas atrás, que respondem pela maior fatia.
O diferencial de 2026 é que solar e eólica crescem acelerado, reduzindo a dependência histórica da água dos rios.

Primeiro trimestre já confirmou a tendência
Nos primeiros três meses de 2026, o Brasil já adicionou 2.426 MW de nova capacidade.
Isso representa 26,5% da meta anual entregue em apenas um trimestre.
Só em março, foram 1.140 MW distribuídos em 27 usinas.
Dessas 27, 25 eram solares, somando 1.109 MW.
Os estados que mais receberam foram Ceará, Goiás, Bahia e Pernambuco.
Além disso, uma termelétrica de 26 MW e uma PCH de 5 MW completaram o mês.
Dessa forma, a dominância solar no primeiro trimestre confirma que a projeção anual é viável.
Contexto histórico: de 2024 ao pico e volta
A maior expansão da série histórica aconteceu em 2024, com 10,9 GW.
Em 2025, o número caiu para 7,4 GW — 32% abaixo do pico.
Agora, 2026 projeta recuperação com 9,1 GW, embora ainda 17% abaixo do recorde.
A volatilidade é esperada: fatores como licenciamento ambiental, financiamento e condições climáticas afetam o ritmo.
Ainda assim, a tendência de longo prazo é clara: o Brasil adiciona cada vez mais renováveis à sua matriz a cada ano.
A revolução invisível: geração distribuída não está nos 9.142 MW
Um detalhe importante: os 9.142 MW referem-se apenas à geração centralizada — grandes usinas fiscalizadas pela ANEEL.
A geração distribuída — painéis solares em telhados de casas, comércios e indústrias — cresce em paralelo e não está incluída nesse número.
O Brasil ultrapassou marcos históricos de capacidade solar distribuída nos últimos anos.
Portanto, a expansão real da solar é significativamente maior do que os 4.560 MW oficiais sugerem.
Para comparar: o que outros países instalam
Os 9,1 GW do Brasil são impressionantes para a América Latina, mas modestos no contexto global.
A China instala mais de 100 GW por ano em renováveis — mais de 10 vezes o Brasil.
Os Estados Unidos projetam 86 GW de nova capacidade em 2026, dos quais 99% renováveis.
Contudo, o Brasil tem uma vantagem que poucos conseguem replicar: 84,63% da matriz já é renovável.
A maioria dos países desenvolvidos luta para chegar a 40%.
Dessa forma, o desafio brasileiro não é começar a transição — é completá-la.

O elefante na sala: 2.770 MW fósseis
Apesar dos avanços, a expansão de 2026 inclui 2.770 MW em termelétricas fósseis.
Isso representa quase 30% da nova capacidade.
A razão é técnica: o sistema elétrico precisa de usinas despacháveis que possam ser ligadas rapidamente quando falta água nos reservatórios ou vento nos parques.
Sistemas de armazenamento por baterias podem substituir essa função no futuro, mas a tecnologia ainda está no início no Brasil.
Ressalvas
As projeções do Ralie são estimativas que dependem da entrada em operação comercial das usinas.
Atrasos regulatórios, problemas de financiamento ou questões ambientais podem reduzir o número final.
A eólica desacelerou de 1.825 para 1.430 MW — uma queda de 22% que preocupa o setor.
A série histórica mostra volatilidade: 2025 ficou bem abaixo de 2024, sem garantia de que 2026 atingirá a meta.
Ainda assim, com 84,63% de renováveis e solar crescendo 61,7% ao ano, o Brasil segue consolidando uma das matrizes mais limpas do planeta — mesmo que o caminho até a transição completa ainda seja longo.
