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Alta dos juros nos EUA, para conter a inflação local, deve acentuar a ‘fuga’ do capital estrangeiro da bolsa brasileira, além de valorizar o dólar ante o real, pressionando, com isso, também, os preços na economia brasileira

Escrito por Marcello Sigwalt
Publicado em 08/06/2026 às 20:44
Atualizado em 08/06/2026 às 20:46
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A escalada dos preços estadunidense, deflagrada pelo conflito geopolítico sem solução à vista no Oriente Médio, vai obrigar o bc ianque, o Federal Reserve (Fed) a subir as taxas de juros daquele país. A consequência desse ato é atrair o investidor internacional para a maior (e mais segura) economia do planeta

Não é só a ‘segunda onda’ de tarifaço – que impõe uma alíquota média superior a 37% ao produto ‘made in Brazil’ – o mais relevante a se considerar, entre os efeitos do ataque comercial, com motivações políticas inconfessas, do governo Trump sobre a economia brasileira.

Apesar de ter registrado a maior saída de capital externo, desde 2022 (R$ 14,91 bilhões), em maio último, o ingresso de recursos estrangeiros no mercado secundário da B3 (B3SA3) ainda acumula saldo positivo de R$ 41,6 bilhões este ano. Em que pese esse perfil ‘superavitário’, a tendência continua a ser de retirada do recurso externo de mercados emergentes, como o Brasil.

Federal Reserve deve subir juros nos EUA

Ante o avanço da inflação nos EUA – cuja taxa anual subiu, de 3,3% em março para 3,7% em abril deste ano, a maior alta em três anos – o Federal Reserve (Fed), bc ianque, deve voltar a elevar os juros daquele país, hoje entre 3,5% e 3,75% ao ano, exercendo atração extra do capital estrangeiro ao mercado estadunidense, em detrimento do brasileiro.

Tal mudança de cenário tem como ‘pano de fundo’ o choque do petróleo, devido ao conflito geopolítico bilionário no Oriente Médio, em que o investidor busca maior proteção e menos risco (hedge) para suas aplicações.

Além de impactar diretamente o preço das ações na Bovespa (B3), a fuga do capital de fora igualmente pressiona o câmbio, valorizando o dólar frente ao real, e ‘joga pressão’ para que o Banco Central (BC) adie ou reduza a intensidade do aperto monetário, mediante o recuo da taxa básica de juros (Selic) – atualmente no patamar ‘cavalar’ de 14,50% ao ano. É uma notícia ruim, tanto para empresários, quanto para o próprio consumidor.

Principais impactos do aperto monetário estadunidense

Fuga de capitais para a renda fixa americana: com juros mais altos nos títulos do Tesouro dos EUA (considerados os ativos mais seguros do mundo), investidores globais reduzem sua exposição a mercados emergentes como o Brasil, resultando em desvalorização das ações. 

Pressão sobre o câmbio: a saída de dólares do país reduz a oferta da moeda estrangeira no mercado interno, encarecendo o dólar frente ao real. Como a depreciação cambial acaba pressionando a inflação interna do país, o BC também tende a ‘segurar’ a taxa Selic em patamares mais elevados, ‘sine die’.

Aumento do custo de capital: Com um dólar mais forte e inflação global, empresas brasileiras endividadas em moeda estrangeira ou dependentes de insumos importados enfrentam margens de lucro menores, o que afeta suas cotações em bolsa. 

Trava nos juros internos: a pressão externa impede que o Banco Central brasileiro (BC) reduza a taxa Selic conforme o desejado, mantendo o custo do crédito elevado para o mercado doméstico e favorecendo a renda fixa brasileira em detrimento da renda variável.

Em termos fiscais, embora ideologicamente separados, os governos dos EUA e do Brasil podem ser considerados ‘siameses’, no que toca ao montante astronômico e crescente das respectivas dívidas públicas federais. Enquanto no primeiro caso, a Dívida Pública Federal (DPF) atingiu R$ 8,798 trilhões em abril último, no segundo, ela bateu US$ 3,4 trilhões (R$ 17,1 trilhões). Em ambos os países, há mais de cinco anos a meta de inflação tem sido sistematicamente ‘estourada’, de 2% nos EUA e 3% no Brasil.

Em comum, pagamento de juros e gastos com previdência

Mas há um detalhe que faz toda a diferença: a economia estadunidense, cujo PIB é mais de 15 vezes superior ao brasileiro, de US$ 32,38 trilhões, para US$ 2,64 trilhões, respectivamente. Aqui, como lá, os pagamentos com juros e os gastos com a previdência são os maiores responsáveis pela dívida pública.

Em momento de estresse global, como o atual, os maiores compradores dos títulos do Tesouro dos EUA, os fundos de hedge (hedge fund) exigem maior retorno para o investimento, o que favorece o mercado estadunidense, em detrimento dos chamados emergentes, como o Brasil. Em razão dessa reorganização dos fluxos de capital, ativos mais arriscados, como títulos públicos e privados de países emergentes (moedas e ações) passam a ser menos atrativos.

Enquanto a economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli avalie que as reservas internacionais brasileiras (US$ 366 bilhões) e o superávit comercial projetado (R$ 72,1 bilhões) contribuam para reduzir o risco de uma crise cambial, o CEO da gestora Hike Capital, Jonas Carvalho acentua que  “o Brasil segue sendo devedor líquido internacional, depende de fluxo estrangeiro para bolsa e renda fixa, tem risco fiscal doméstico e uma dívida pública muito sensível à Selic”.

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Marcello Sigwalt

Sou um profissional de comunicação, especializado em Economia, Política, Meio Ambiente, Ciência & Tecnologia, Educação, Esporte e Polícia, nas quais exerci as funções de editor, repórter, consultor de comunicação e assessor de imprensa. Destaco as atividades de edição e reportagem, mediante o uso de linguagem informativa e fluente que estimule o debate, a reflexão e a consciência crítica. No período de 2003-2011, em Brasília, atuei como assessor de imprensa no Congresso Nacional (na Câmara dos Deputados e no Senado federal); consultor de comunicação do Projeto de Gestão Ambiental Rural (PGAR), do Ministério do Meio Ambiente e das Nações Unidas, em 2006; editor da Assessoria de Comunicação do Ministério de Ciência e Tecnologia (Ascom/MCTI), em 2012. Como repórter especial, assinei a capa das revistas: Veja (prisão do senador Luiz Estevão, 2000); Galileu (Peritos criminais, 2010) e Conjuntura Econômica-FGV (Comércio exterior do Brasil e Crise Argentina, 2002). Atuei como editor-assistente do Portal iG para as eleições de 2010. Em 2013, cobri a cobertura do seminário internacional sobre energia, para a Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (Amcham-Rio). De 2014 a 2015, atuei como repórter especial da revista Desafios do Desenvolvimento (Ipea); repórter da revista Brasil Energia Petróleo (RJ) e editor do site Janus Investimentos (SP), em 2018 e 2019, e redator e editor do site Capitalist. De 2022 a 2025, fui editor de Economia do jornal Correio da Manhã (RJ). Atualmente, produzo conteúdo para os sites Linkedin e Substack.

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