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Água voltou ao Delta do Oder e, em poucos anos, zonas úmidas reapareceram, castores remodelaram rios, carbono deixou de escapar do solo e aves raras retornaram, revelando mudanças ecológicas profundas que já transformam paisagens agrícolas, reduzem secas e surpreendem pesquisadores

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 17/01/2026 às 13:57 Atualizado em 17/01/2026 às 13:58
Assista o vídeopântano no Delta do Oder: reumedecimento na Planície de Rożnowo com castores retém água, reduz carbono e reativa biodiversidade.
pântano no Delta do Oder: reumedecimento na Planície de Rożnowo com castores retém água, reduz carbono e reativa biodiversidade.
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No Delta do Oder, na fronteira germano-polonesa, um pântano drenado na Planície de Rożnowo recebe água de volta, protege turfeiras, reduz emissões e melhora solos, com castores reidratando até 80 hectares e atraindo novas espécies.

A água está retornando a um pântano que por décadas sofreu com drenagem, retificação de rios e barreiras artificiais no Delta do Oder, na fronteira entre Alemanha e Polônia. Na Planície de Rożnowo, pântano e turfeiras voltam a segurar água em 26 hectares, com impacto direto na biodiversidade e no clima.

O reumedecimento acontece na planície aluvial do rio Ina, dentro da paisagem de renaturalização do Delta do Oder, e já começa a transformar campos antes drenados em uma zona úmida funcional. O pântano volta a reter água, reativar processos naturais e criar benefícios concretos para agricultores e comunidades locais, numa região marcada por alterações humanas acumuladas ao longo de décadas.

Um pântano no Delta do Oder que volta a segurar água

O Delta do Oder é um grande ecossistema aquático na fronteira germano-polonesa, e a Planície de Rożnowo fica no lado polonês dessa paisagem, conectada à bacia do rio Ina.

Ali, o reumedecimento está devolvendo água a 26 hectares de área úmida, em um movimento que combina proteção do território, restauração ecológica e monitoramento dos efeitos sobre espécies e serviços ambientais.

A revitalização não acontece em um vazio. Ao longo do tempo, intervenções no Delta do Oder alteraram o fluxo natural da água: drenagens para agricultura e silvicultura, retificação e aprofundamento de leitos, represamento e instalação de barreiras como barragens e açudes.

O resultado foi a perda de conectividade entre trechos ribeirinhos e zonas alagáveis, além da degradação de habitats que dependem de água lenta e constante.

Com o reumedecimento, o objetivo é inverter essa lógica: aumentar a retenção de água, restaurar conectividade ribeirinha e permitir que o pântano volte a funcionar como um sistema vivo, com alagamentos naturais, refúgio para anfíbios e aves aquáticas e proteção contra secas.

Como a drenagem transformou a paisagem e por que o pântano importa

Marta Hapoń-Sobieraj e Maciej Sobieraj, moradores de longa data de Rożnowo, descrevem um cenário típico de muitas regiões europeias: áreas úmidas drenadas para intensificar o uso do solo.

Segundo Maciej, um agricultor local chegou a intensificar a drenagem sem perceber que a água retirada afetava não apenas sua propriedade, mas também terras vizinhas e habitats ribeirinhos que deveriam servir de base para uma área protegida adjacente.

O caso local reflete um processo muito maior.

Mais de metade das zonas úmidas europeias desapareceram nos últimos 300 anos, e a Polônia foi uma das mais afetadas.

No último século, a drenagem em larga escala devastou zonas úmidas antes vistas como improdutivas, com perda de mais de quatro milhões de hectares de habitat, além de impactos sobre a qualidade da água e sobre as espécies que dependem desses ambientes.

Nesse contexto, um pântano reumedecido não é apenas um “lugar alagado”.

Ele funciona como regulador hídrico, base de cadeias alimentares e componente-chave na estabilidade do território, porque retém água, reduz extremos e sustenta vida selvagem.

A virada em Rożnowo e a criação de uma fundação local

Em 2023, para responder aos desafios no rio Ina e em sua bacia hidrográfica, Marta e Maciej criaram a Fundação para o Clima e a Biodiversidade.

A motivação era direta: Rożnowo é uma fonte valiosa de água para o rio Ina e abriga biodiversidade considerada por eles como excepcional, mas, apesar de a planície ter sido identificada como área de proteção em 2001 pelo município de Maszewo, nenhuma ação efetiva havia sido tomada.

A partir daí, o casal passou a buscar formas de promover a recuperação da natureza na área, vista como refúgio crucial para aves aquáticas e anfíbios.

O reumedecimento do pântano surge como resposta prática: interromper a perda contínua de água, restaurar condições de habitat e criar uma paisagem que funcione para a natureza e também para quem vive do entorno.

Castores como engenheiros e o salto de 26 para 80 hectares reidratados

os castores são engenheiros naturais e ajudam a restaurar processos naturais

Com apoio e colaboração da equipe do projeto Rewilding Oder Delta, Marta e Maciej obtiveram financiamento para comprar e proteger quase 26 hectares da Planície de Rożnowo, garantindo espaço para que os processos naturais voltassem a acontecer.

A diferença, no entanto, não ficou limitada ao perímetro adquirido.

Os castores retornaram à área há cerca de uma década e, na prática, passaram a operar como engenheiros ambientais.

Segundo Marta, eles remodelaram a paisagem para reduzir a fuga de água, e o impacto positivo pode ser observado em uma área ampla.

Considerando as zonas florestais adjacentes, o casal afirma ser possível dizer com segurança que os castores reidrataram 80 hectares.

Isso muda a dinâmica do pântano e de seu entorno: represas criam lagoas, o fluxo desacelera, áreas antes secas voltam a permanecer úmidas, e surgem novos habitats.

Marta também descreve regeneração de bosques de amieiros e o aparecimento de ambientes que antes não existiam ali na mesma escala.

Quando o pântano para de “vazar”, ele começa a reter vida junto com a água.

Biodiversidade retorna e um pântano vira ponto de encontro de espécies

A revitalização está associada ao retorno e à presença registrada de muitas espécies. Maciej relata que foi registrada a presença de todas as espécies que poderiam potencialmente viver ali, incluindo as mais raras.

No primeiro ano, um casal de cegonhas-pretas encontrou um local adequado e criou filhotes.

No ano seguinte, um casal de águias-pomarinas, chamadas também de “comedoras de rãs”, construiu ninho na borda do pântano, atraído pelo retorno de anfíbios.

Além das aves, há menção à presença de lobos, texugos, furões e lontras, além de uma grande variedade de espécies de aves em geral.

Recentemente, foi encontrado até um bisão europeu, indicando como a paisagem reumedecida pode atuar como corredor e área de uso para fauna maior.

A água mais alta também traz expectativa para o rio Małka, afluente do rio Ina que vinha sofrendo com secas e, nos últimos anos, chegou a se reduzir a um fio de água.

Trutas migratórias e lampreias de rio costumavam desovar no Małka, e a esperança é que retornem à medida que o fluxo seja gradualmente restaurado.

Impacto climático do pântano e o freio em emissões de carbono

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Além da biodiversidade, o reumedecimento é tratado como ação climática.

Ao reduzir a velocidade do fluxo de água na bacia hidrográfica, as represas feitas pelos castores permitem que as terras circundantes reabsorvam água, algo descrito como especialmente importante numa região florestal considerada de alto risco de seca e incêndios florestais.

O pântano, por envolver turfeiras, também tem papel direto na lógica de carbono.

Maciej afirma que turfeiras saudáveis são sumidouros de carbono e que, se a turfeira fosse drenada, liberaria em média 14 toneladas de carbono por hectare a cada ano.

Ou seja, manter a turfa úmida significa evitar emissões indesejáveis associadas ao ressecamento e à decomposição acelerada do material orgânico.

Ele também menciona que estudos mostram brejos criados por castores como fonte vital de água doce em períodos de seca, capazes de reduzir impacto de inundações ao retardar o avanço da água e atuar como barreiras naturais contra incêndios florestais.

Na prática, o pântano passa a funcionar como infraestrutura natural, com respostas múltiplas para extremos climáticos.

Agricultores, conflitos locais e soluções para controlar água sem destruir o pântano

Com o abate de árvores e a busca localizada de alimento, os castores ajudam a criar habitats complexos que podem amortecer os impactos das mudanças climáticas.

Nem todo mundo gosta das mudanças causadas por castores, e isso aparece no relato.

Marta reconhece que há conflitos, especialmente quando a água sobe e pode gerar inundações localizadas.

A solução citada é pragmática: medidas simples, como tubos de controle de fluxo em barragens, permitem controlar o nível da água e minimizar alagamentos pontuais.

A ideia é equilibrar interesses.

Segundo Marta, o controle de fluxo funciona bem, satisfazendo castores e pessoas: os animais continuam vivendo, o pântano permanece úmido e plantações e estradas ficam seguras.

Maciej ainda destaca um ponto que conecta diretamente a conservação ao uso do solo: silvicultores passaram a entender que áreas próximas a riachos e pântanos abrigam 90% das populações de anfíbios locais e evitam a coleta nesses locais.

Para agricultores, ele aponta vantagens produtivas em áreas adjacentes a zonas úmidas: vegetação de zonas úmidas acumula nitrogênio e funciona como “estação de tratamento biológico”, filtrando águas residuais, poluentes e fertilizantes.

O resultado descrito é um microclima mais favorável, solos reidratados e culturas como o milho crescendo melhor.

O pântano não vira apenas refúgio de animais: ele vira um sistema que melhora água, solo e produtividade ao redor.

Um modelo europeu de reumedecimento com lições para o futuro

O reumedecimento da Planície de Rożnowo é apresentado como um exemplo do que pode ser alcançado quando a conservação equilibra biodiversidade e meios de subsistência locais.

O caso combina aquisição e proteção de área, colaboração com parceiros, monitoramento de benefícios ecológicos e participação ativa de moradores na limpeza de rios e plantio de árvores.

Num continente onde zonas úmidas desapareceram em massa, a experiência do Delta do Oder reforça a ideia de que reumedecer turfeiras e recuperar conectividade hídrica pode mudar a paisagem, fortalecer a biodiversidade e criar um impacto climático positivo.

Em Rożnowo, o pântano volta a ser o centro dessa transformação, com castores como agentes de mudança e com benefícios que se espalham para rios, florestas e comunidades.

Qual você acha que é o maior ganho quando um pântano volta a existir de verdade: mais biodiversidade, menos emissões de carbono ou água disponível o ano inteiro?

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Lonely Rabbit
Lonely Rabbit
18/01/2026 13:25

Love it. When I was a young fellow we used to fish behind a large beaver dam. I estimate it was about 3m high. One day we returned with our fishing poles and found the dam had been dynamited. A sad day for everyone?

Fonte
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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