O Túnel Huanggang Road, aberto ao tráfego em Jinan em 25 de agosto de 2026, foi cavado por uma tuneladora de 17,5 metros de diâmetro. É o maior túnel sob o Rio Amarelo já escavado em diâmetro no mundo, com dois pisos, seis faixas e uma travessia que caiu de 30 a 40 minutos para cinco
A obra fica em Jinan, capital da província de Shandong, no leste da China, a cerca de 400 quilômetros ao sul de Pequim. Segundo o People’s Daily, o túnel tem 5.755 metros de extensão total. Desse total, 3.290 metros foram escavados por tuneladora, justamente o segmento que passa por baixo do leito do rio.
O governo municipal de Jinan descreve a estrutura como o primeiro túnel de tubo único e dois pisos sob o Rio Amarelo na China. Cada piso tem três faixas e 4,2 metros de altura livre. O piso superior recebe o tráfego no sentido norte, e o inferior leva os veículos no sentido sul, com velocidade de projeto de 60 km/h.
Além disso, a ligação tem um papel urbano claro. Conforme o site oficial da prefeitura, o túnel conecta a área urbana principal de Jinan à chamada Start-up Area, uma zona piloto de nível nacional na margem norte do rio. Ou seja, a obra existe para mover uma cidade de nove milhões de habitantes para o outro lado da água. Antes dela, conforme o Global Times, o mesmo trajeto de carro consumia entre 30 e 40 minutos, dependendo do trânsito nas pontes.
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A tuneladora Shanhe e o desafio de furar o Rio Amarelo
A máquina que fez o serviço chama-se Shanhe. Foi fabricada pela alemã Herrenknecht, por meio da subsidiária chinesa Herrenknecht Tunnelling Machinery. O construtor é o China Railway 14th Bureau Group, e o cliente, o Jinan Urban Construction Group. De acordo com o comunicado da fabricante, a tuneladora tem 163 metros de comprimento e 5.200 toneladas.
O equipamento é do tipo Mixshield, uma tecnologia de escudo com circuito de lama pressurizada. Nesse sistema, a frente de escavação fica cheia de uma suspensão de bentonita. Ela sustenta o solo e equilibra a pressão da água enquanto a cabeça de corte avança. A Herrenknecht diz que projetou um circuito de lama novo para a Shanhe, com a pressão na câmara controlada por um colchão de ar automático.
O motivo dessa preocupação está debaixo do rio. A geologia do trajeto mistura argila, areia, silte e nódulos calcários, segundo a fabricante, com pressão de água de 7,5 bar sob o leito. A cabeça de corte tem 5.600 kW de potência. Além disso, o Rio Amarelo em Jinan corre com o leito cerca de 5 metros acima do nível do solo na margem sul. É um rio suspenso, e isso obriga o túnel a mergulhar fundo.

Recorde de velocidade e 28 problemas técnicos no caminho
O Global Times relata que a equipe superou 28 grandes desafios técnicos durante a escavação. O ritmo chegou a 18 metros por dia, com avanço mensal de 426 metros. O jornal chama esse desempenho de recorde mundial para tuneladoras da classe de 17 metros. Enquanto isso, foram trocadas 104 ferramentas de corte em 21 dias, uma operação delicada em frente pressurizada.
A cronologia ajuda a entender o feito. Conforme a revista New Atlas, a escavação começou em 1º de setembro de 2024, e o trecho sob o rio foi concluído em 110 dias. O revestimento foi montado com cerca de 500 anéis de segmentos pré-moldados.
Depois, veio a parte que menos aparece em foto. O governo de Jinan informa que o piso superior foi concluído em 17 de março de 2026, com mais de 30 mil metros cúbicos de concreto lançados em espaço confinado. Tudo isso aconteceu ao mesmo tempo em que a tuneladora e o transporte de material continuavam operando.
Da escavação à abertura ao tráfego, portanto, foram menos de dois anos. Confesso que esse prazo é o número que mais impressiona quando se olha para o conjunto, mais até do que o diâmetro. Túneis submersos costumam consumir uma década entre projeto e inauguração em qualquer país.
A prefeitura acrescenta detalhes de operação: robôs de inspeção inteligentes, detecção de incêndio por inteligência artificial e acabamento interno inspirado nas curvas do próprio Rio Amarelo. O túnel está dimensionado para ônibus, veículos de bombeiros, manutenção e emergência, não apenas carros de passeio. Por isso a altura livre de 4,2 metros em cada piso, dimensão pouco comum em túneis rodoviários urbanos de dois níveis.

O que 17,5 metros significam para quem acompanha obras no Brasil
Para colocar o número em escala, vale olhar para a maior tuneladora que já chegou ao Brasil. Segundo reportagem do Correio da Manhã, a máquina que vai escavar cerca de 7 quilômetros da extensão da Linha 2-Verde do Metrô de São Paulo, entre Penha e Dutra, tem 11,67 metros de diâmetro e 2.600 toneladas. A fabricante é a chinesa CREG, e a escavação deve começar no segundo semestre de 2026.
Ou seja, a Shanhe é quase seis metros mais larga e pesa o dobro da maior tuneladora em operação no país. A diferença não é só de escala. Um diâmetro de 17,5 metros permite empilhar dois pisos rodoviários com três faixas cada em um único tubo. Dessa forma, dispensa-se a escavação de dois túneis paralelos.
O Global Times lembra ainda que a China fechou o mesmo verão com outro marco. Em 30 de julho, a tuneladora Linghang concluiu o trecho subaquático do túnel ferroviário Chongming-Taicang, sob o Rio Yangtzé, projetado para trens a 350 km/h. É difícil não ver aí uma cadeia industrial que já trata tuneladoras de 17 metros como ferramenta de rotina.
Para Jinan, o resultado prático é simples. Um trajeto que levava até 40 minutos de carro passou a levar cinco, e a margem norte do rio deixa de ser periferia. Para o setor de infraestrutura fora da China, fica a dúvida sobre quanto de tecnologia, prazo e escala será preciso importar para atravessar rios e baías nesse ritmo. Conta nos comentários o que você achou.
Você acredita que uma obra desse porte, com dois pisos sob um rio, seria viável no Brasil em menos de dois anos?

