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A Rússia viu sanções fecharem portas na cooperação orbital, mas o detalhe mais improvável veio do Golfo: os Emirados Árabes Unidos não tinham programa espacial em 2014, criaram a missão Hope do zero em seis anos e chegaram à órbita de Marte e tornou-se a primeira sonda interplanetária árabe

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 06/06/2026 às 16:20
Atualizado em 06/06/2026 às 16:24
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Missão Hope dos Emirados Árabes Unidos chegou a Marte
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Missão Hope dos Emirados Árabes Unidos chegou a Marte em 2021, tornou-se a primeira sonda interplanetária árabe e produziu um mapa global inédito da atmosfera marciana.

Segundo a agência oficial dos Emirados Árabes Unidos WAM, em publicação de 2 de fevereiro de 2021, a Hope Probe, missão Al Amal dos Emirados Árabes Unidos, foi lançada em 20 de julho de 2020 a partir do Centro Espacial Tanegashima, no Japão, a bordo de um foguete Mitsubishi H-IIA, e entrou na fase mais crítica de sua viagem de sete meses rumo a Marte. A missão foi apresentada como a primeira missão interplanetária realizada por uma nação árabe, com o objetivo de estudar a dinâmica atmosférica e o clima do Planeta Vermelho.

A etapa decisiva estava marcada para 9 de fevereiro de 2021, quando a sonda acionaria seus seis propulsores Delta V para reduzir a velocidade de aproximadamente 121 mil km/h para 18 mil km/h e ser capturada pela gravidade marciana. Segundo a WAM, a manobra de inserção orbital duraria cerca de 27 minutos e seria executada de forma autônoma, já que o atraso do sinal entre Marte e a Terra impedia intervenção em tempo real da equipe de missão.

Missão Hope marcou a chegada dos Emirados Árabes Unidos a Marte em apenas 50 anos de história nacional

A chegada da Hope Probe não foi planejada apenas como um feito técnico. A missão foi desenhada para coincidir com o 50º aniversário da fundação dos Emirados Árabes Unidos, país criado em 1971 pela união de sete emirados.

Em meio século, a nação saiu de uma estrutura estatal recém-formada para colocar uma sonda em órbita de Marte.

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O Mohammed Bin Rashid Space Centre, o MBRSC, foi fundado em 2006. Em poucos anos, os Emirados lançaram satélites de observação da Terra, desenvolveram o KhalifaSat com engenheiros locais e, em 2014, anunciaram oficialmente a missão a Marte. O salto foi tão rápido que comprimiu em poucos anos um caminho que outras potências espaciais levaram décadas para percorrer.

Essa velocidade ajudou a transformar a missão em algo maior do que um projeto científico. Ela virou também uma demonstração de capacidade nacional, ambição tecnológica e construção acelerada de capital humano em ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Hope foi construída com universidades americanas e equipe conjunta entre Dubai e Estados Unidos

Segundo a Physics World, a missão foi desenvolvida em parceria entre o MBRSC e três universidades americanas: a University of Colorado Boulder, a Arizona State University e a University of California, Berkeley. A própria nave, com cerca de 1.500 quilos, foi montada fisicamente nas instalações do Laboratory for Atmospheric and Space Physics, o LASP, na Universidade do Colorado.

A construção não foi uma terceirização simples. O projeto reuniu engenheiros emiradenses e americanos em uma equipe integrada, o que permitiu aos Emirados acelerar a curva de aprendizado e absorver capacidade técnica durante o processo.

Esse modelo foi central para tornar a missão viável no prazo extremamente curto que o país havia imposto a si mesmo.

Para Fatma Lootah, integrante da equipe científica do MBRSC, os anos anteriores à chegada a Marte foram totalmente dominados pela preparação para aquele momento. A missão carregava, ao mesmo tempo, expectativa científica, peso político e enorme valor simbólico para toda a região árabe.

Manobra de inserção orbital de 27 minutos decidiu o sucesso da missão sem chance de correção em tempo real

A etapa mais perigosa da Hope Probe foi a inserção orbital em Marte. Segundo Agência Brasil, a distância entre a Terra e Marte naquele momento era tão grande que qualquer sinal levava cerca de 11 minutos para chegar. Isso significava que, se algo desse errado durante a manobra, a equipe em Dubai só descobriria depois de o problema já ter ocorrido.

Por isso, a sonda precisou executar toda a sequência de forma autônoma. Durante 27 minutos, seus seis propulsores trabalharam para desacelerar a nave e permitir sua captura gravitacional pelo planeta vermelho. Não havia espaço para intervenção humana imediata. Tudo dependia do software, dos sensores e da confiabilidade da engenharia embarcada.

Esse tipo de operação ajuda a explicar por que tantas missões a Marte fracassaram ao longo da história. A janela de erro é mínima, a distância impede correção rápida e qualquer falha na sequência pode significar a perda total da nave. Quando a confirmação chegou a Dubai, o momento foi tratado como um marco histórico para a exploração espacial árabe.

Órbita da Hope permitiu o primeiro mapa global completo da atmosfera de Marte

Segundo o LASP e a University of Colorado, a grande diferença da missão não estava apenas em chegar a Marte, mas na forma como ela foi desenhada para observá-lo. A Hope Probe foi colocada em uma órbita elíptica entre 20 mil e 43 mil quilômetros de altitude, completando uma volta ao redor do planeta a cada 55 horas.

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Essa configuração deu à sonda uma capacidade que missões anteriores não tiveram da mesma forma. Em vez de observar regiões limitadas em horários parecidos, a Hope conseguiu enxergar Marte em escala global, acompanhando como a atmosfera mudava em diferentes latitudes, horários do dia e estações. Isso permitiu construir o primeiro mapa global completo da atmosfera marciana.

Esse ponto é importante porque muitas missões anteriores de Estados Unidos, Rússia, ESA e Índia produziram dados valiosos, mas não tinham uma órbita desenhada para capturar esse retrato atmosférico global com o mesmo padrão de cobertura sistemática.

Os três instrumentos da Hope mostraram poeira, vapor d’água, ozônio e escape atmosférico em Marte

Segundo o LASP, a Hope levava três instrumentos científicos. O primeiro era o Emirates eXploration Imager, o EXI, responsável por observar água, gelo, poeira, aerossóis, ozônio e também gerar imagens de alta resolução de Marte nas faixas visível e ultravioleta.

O segundo era o Emirates Mars Infrared Spectrometer, o EMIRS, que monitorava temperatura, vapor d’água e poeira usando infravermelho térmico. Já o terceiro, o Emirates Mars Ultraviolet Spectrometer, o EMUS, analisava emissões ultravioletas na alta atmosfera, permitindo estudar a termosfera marciana e os halos de hidrogênio e oxigênio ao redor do planeta.

A combinação dos três instrumentos deu à missão uma capacidade rara. Ela conseguia conectar fenômenos da atmosfera baixa com os da atmosfera superior, oferecendo uma visão integrada de como o clima marciano se comporta e de como o planeta continua perdendo gases para o espaço.

Hope registrou a corona de hidrogênio e oxigênio de Marte com detalhe inédito

Uma das primeiras imagens científicas importantes enviadas pela missão em 20 de fevereiro de 2021, apenas 11 dias após a inserção orbital, mostrou a corona de hidrogênio e oxigênio ao redor de Marte com uma qualidade que os cientistas ainda não tinham obtido daquela forma.

O EMUS capturou imagens em três comprimentos de onda ultravioleta ao mesmo tempo, permitindo observar o comportamento desses átomos na atmosfera superior. Esse resultado ajudou a confirmar que Marte continua perdendo atmosfera para o espaço, um processo que ao longo de bilhões de anos contribuiu para transformar um planeta que já teve mais água e atmosfera mais densa no ambiente frio e rarefeito conhecido hoje.

A missão também identificou o que os cientistas chamaram de aurora discreta, além de mapear a distribuição de poeira, gelo e vapor d’água durante um ano marciano completo. Esses dados foram disponibilizados para a comunidade científica internacional, ampliando o alcance da missão muito além dos Emirados Árabes Unidos.

Sarah Al Amiri virou símbolo da missão e da liderança feminina na ciência espacial árabe

Um dos rostos mais associados ao sucesso da Hope foi o de Sarah Al Amiri, engenheira de sistemas de satélites que se tornou líder científica da missão e depois presidente da UAE Space Agency. Quando a sonda chegou a Marte, ela tinha 33 anos e passou a ser vista como uma das figuras centrais do programa espacial emiradense.

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A visibilidade de Al Amiri teve peso especial porque a missão também funcionou como uma mensagem sobre quem pode liderar ciência e tecnologia de ponta no mundo árabe. A imagem de uma engenheira emiradense no centro de uma operação interplanetária ajudou a projetar internacionalmente uma narrativa de modernização tecnológica e investimento em capital humano.

Esse aspecto foi deliberado desde o início. A missão não foi apresentada apenas como uma busca por dados sobre Marte, mas também como uma ferramenta para inspirar jovens, ampliar o interesse por STEM e reposicionar os Emirados Árabes Unidos no imaginário científico global.

Missão Hope mostrou que os Emirados queriam mais do que chegar a Marte

A Hope Probe não tentou repetir exatamente o modelo americano ou russo de programa espacial. Segundo as instituições envolvidas, ela foi concebida como uma missão focada, rápida, cientificamente clara e fortemente conectada à transformação interna dos Emirados Árabes Unidos.

Ao entregar o primeiro mapa global completo da atmosfera de Marte, a missão garantiu relevância científica real. Ao mesmo tempo, ao ser lançada por um país com centro espacial fundado em 2006 e chegar a Marte em 2021, ela se transformou em prova de que os Emirados queriam acelerar sua entrada no grupo de nações capazes de operar em fronteiras tecnológicas extremas.

No fim, a Hope foi mais do que uma sonda marciana. Ela virou uma declaração de capacidade nacional, um projeto científico com resultados concretos e um símbolo de como os Emirados Árabes Unidos decidiram usar o espaço para redefinir sua imagem no século XXI.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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