A montadora americana foi a queridinha da bolsa e prometeu aposentar o caminhão a diesel, até que um vídeo, uma denúncia de fraude e a condenação do fundador transformaram a promessa bilionária num dos maiores fiascos recentes da indústria automotiva
A Nikola já valeu quase 30 bilhões de dólares na bolsa prometendo caminhões a hidrogênio que mudariam o transporte, e terminou pedindo falência. A virada brutal começou quando se descobriu que o vídeo do seu caminhão “andando” na verdade mostrava o veículo apenas descendo uma ladeira, sem motor para se mover, uma fraude que derrubou o fundador e, anos depois, a empresa inteira.
Como uma companhia tão valiosa vira pó? Porque o valor todo estava apoiado em promessas, e não em produto. Quando ficou claro que a tecnologia não existia como anunciado, a confiança evaporou, os sócios pularam fora e o caixa secou. O caso virou o retrato perfeito de uma bolha inflada por hype, em que a expectativa correu muito mais rápido do que a engenharia conseguia entregar.
De promessa a 29 bilhões de dólares
O começo foi de sonho para os investidores. Segundo o Autopapo, a empresa foi fundada em 2014 por Trevor Milton com a proposta de construir caminhões elétricos e a célula de hidrogênio, prometendo substituir o diesel no transporte pesado.
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O mercado comprou a ideia com entusiasmo. Segundo o InfoMoney, depois de abrir capital em 2020 por meio de uma fusão com uma SPAC, a companhia chegou a valer cerca de 29 bilhões de dólares, um número gigantesco para uma empresa que mal tinha começado a produzir. Valer bilhões antes de vender um único caminhão em escala é o tipo de euforia que costuma cobrar a conta lá na frente.
O vídeo do caminhão descendo a ladeira

O símbolo do escândalo é um vídeo de 2020. Segundo o Autopapo, a empresa divulgou imagens do protótipo Nikola One como se fosse um caminhão rodando por uma estrada, mas depois se descobriu que o veículo tinha sido apenas jogado morro abaixo, sem nem sequer ter motor para se deslocar por conta própria.
O truque era simples e devastador. Filmar o caminhão descendo uma ladeira criava a ilusão de um veículo funcional, quando na verdade não havia tecnologia pronta ali. Fingir que um produto funciona é o pecado capital de qualquer empresa de tecnologia, e foi essa encenação que começou a ruir toda a fortuna construída em cima da promessa.
Trevor Milton e a acusação de fraude
A conta chegou primeiro para o fundador. Segundo o Autopapo, Trevor Milton foi indiciado em 2021 por fraude, num processo em que ficou claro que ele havia mentido sobre praticamente todos os aspectos do negócio para inflar o valor da companhia.
A empresa não escapou de assumir responsabilidade. Segundo o Autopapo, a própria Nikola admitiu culpa no caso, um golpe reputacional do qual a marca nunca se recuperou de fato. Quando o rosto da empresa é condenado por mentir sobre o produto, a desconfiança contamina tudo o que veio depois, e nenhum caminhão novo consegue apagar essa mancha.
Os sócios que pularam fora
Sem confiança, os parceiros começaram a debandar. Segundo o Autopapo, a General Motors, que chegou a estudar uma parceria para uma picape elétrica com a Nikola, desistiu do projeto, tirando da empresa um aval de peso que valia ouro na largada.
Outro golpe veio da Europa. Segundo o Autopapo, a Iveco, que fornecia a base do modelo TRE, encerrou a parceria em 2023 e ficou com a fábrica em Ulm, na Alemanha, deixando a montadora ainda mais sozinha. Quando os grandes parceiros saem do barco um atrás do outro, é sinal de que eles já enxergaram o naufrágio antes de todo mundo.
Recalls e o caixa que secou

No mundo real, os problemas se acumulavam. Segundo o InfoMoney, em 2023 a empresa teve de fazer um recall de caminhões após incêndios em baterias, um episódio que expôs ainda mais as fragilidades técnicas por trás do discurso grandioso.
E o dinheiro simplesmente evaporou. Segundo o InfoMoney, as ações da companhia despencaram cerca de 97% em doze meses, e o caixa foi minguando até sobrar por volta de 47 milhões de dólares, quase nada para uma operação tão intensiva em capital. Uma empresa de tecnologia pesada sem caixa é um relógio marcando o tempo até a parada final.
O pedido de falência da Nikola
O desfecho veio no início de 2025. Segundo o InfoMoney, em 19 de fevereiro de 2025 a empresa entrou com um pedido de recuperação sob o Capítulo 11 da lei americana, num tribunal de Delaware, oficializando o colapso de uma das maiores promessas do setor.
Os números do pedido mostram o tamanho do buraco. Segundo o InfoMoney, a companhia listou ativos entre 500 milhões e 1 bilhão de dólares, mas passivos que iam de 1 bilhão a 10 bilhões de dólares, um desequilíbrio que selou o destino do negócio. Dever muito mais do que se tem é a definição mais crua de um sonho que virou dívida.
Por que a Nikola virou símbolo do hype
O caso extrapola uma empresa só. A Nikola virou o exemplo clássico de como a moda das aberturas de capital via SPAC, no auge de 2020, encheu o mercado de companhias avaliadas em bilhões antes de terem um produto de verdade nas ruas.
A lição é dura e útil. Investidores aprenderam que promessa não é entrega, e que um vídeo bem-produzido ou um discurso empolgante não substituem uma tecnologia que realmente funciona. A distância entre o pitch e a fábrica é onde muitas promessas bilionárias vão morrer, e poucas ilustram isso tão bem quanto essa história.
O que essa queda representa
O colapso da Nikola é um alerta sobre os perigos de confundir marketing com engenharia. Mostra que o transporte limpo é uma corrida real e valiosa, mas que atalhos e exageros cobram um preço altíssimo, tanto dos investidores quanto da credibilidade de todo o setor. Para o consumidor e para o mercado, fica a lição de olhar com desconfiança para promessas grandes demais, e de cobrar produto na estrada antes de acreditar no próximo caminhão do futuro.
E você, acha que os caminhões a hidrogênio ainda têm futuro apesar desse fiasco, ou o diesel e o elétrico já ganharam essa disputa? Conta aqui nos comentários o que você pensa.
