O astrofísico Sérgio Sacani, criador do canal Space Today com 2,3 milhões de inscritos e 11 anos de vídeos diários sobre astronomia, detalhou em entrevista ao Flow por que pisar em Marte antes de 2050 continua sendo o problema técnico mais difícil que a espécie humana já enfrentou.
A Agência Espacial Europeia registra mais de 40 missões lançadas para Marte desde 1960. Mais da metade terminou em fracasso. Naves que explodiram antes de sair da órbita, sondas que perderam comunicação no caminho, módulos que se espatifaram na superfície. Segundo engenheiro brasileiro do JPL da NASA, cerca de 60% das missões ao planeta vermelho falharam. Os Estados Unidos são a exceção, com taxa de sucesso de 70%.
Rússia e Europa tentaram por décadas e não conseguiram realizar um pouso operacional. A sonda soviética Mars 3 tocou a superfície em 1971, mas transmitiu por apenas 14,5 segundos. A ESA tentou com a Beagle 2 em 2003 e com a Schiaparelli em 2016. As duas falharam.
Por que frear a nave antes de entrar na órbita de Marte é o momento mais perigoso de toda a viagem?

A nave viaja a cerca de 50.000 km/h durante os 9 a 10 meses de trajeto entre a Terra e Marte. Quando chega perto do planeta, precisa reduzir para cerca de 15.000 km/h em poucos minutos para entrar na órbita marciana.
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Se não reduzir, passa direto. Esse freio é feito por um motor projetado para funcionar no vácuo, e por cerca de 15 minutos contínuos. O problema, como Sacani explicou no Flow, é que esse motor não pode ser testado na Terra pelo tempo necessário, porque na atmosfera terrestre ele explode.
A consequência é direta. O motor mais crítico da missão inteira nunca foi ligado por 15 minutos seguidos antes do momento em que tudo depende dele. Cada missão que acerta esse passo é, em alguma medida, um teste inédito.
A janela de lançamento para Marte se abre a cada dois anos, quando a posição dos planetas permite que a nave intercepte a órbita marciana no ponto certo. Fora dessa janela, a distância torna a viagem inviável com a propulsão atual.
O que acontece com o corpo humano em 10 meses de microgravidade?
Na Estação Espacial Internacional, astronautas são obrigados a fazer exercício físico diário por horas, usando esteiras com alavancas e elásticos adaptados para a falta de gravidade.
Mesmo assim, a permanência prolongada causa atrofia muscular, espaçamento das vértebras da coluna, redistribuição de fluidos no rosto e perda óssea estimada em 1% por mês, segundo dados da NASA.
Sacani citou que especialistas discutem se quem for a Marte poderá voltar à Terra. A ida leva cerca de 10 meses. A permanência mínima no planeta, esperando a próxima janela orbital, é de quase 2 anos. O retorno são outros 10 meses. No total, são pelo menos 4 anos fora da gravidade terrestre.
Há quem defenda que, após esse período, o organismo humano pode não se readaptar às condições da Terra. O próprio Sacani estimou que um primeiro pouso humano em Marte pode acontecer por volta de 2050.
Se metade das missões falha, por que a humanidade insiste em ir?
Marte é o planeta mais parecido com a Terra no sistema solar. Já teve água líquida em superfície, atmosfera mais densa e possivelmente condições para abrigar vida. Entender o que aconteceu com Marte ajuda a entender o que pode acontecer com a Terra.
Além do interesse científico, há o fator estratégico. A corrida por Marte movimenta bilhões de dólares em contratos públicos e privados, acelera o desenvolvimento de propulsão, materiais e inteligência artificial aplicada à navegação autônoma.
A NASA já produziu oxigênio em Marte usando CO₂ da atmosfera marciana pelo experimento MOXIE, no rover Perseverance. A China projeta trazer amostras de solo marciano até 2031. A SpaceX trabalha no Starship com o objetivo de transportar humanos ao planeta. A cada 26 meses a janela se abre e mais missões partem. O número de tentativas só cresce, e cada erro reduz a margem de fracasso na seguinte.
Ir a Marte é o problema mais caro, mais lento e mais perigoso que a engenharia humana já tentou resolver. E mesmo assim, a fila de quem quer tentar não para de crescer.
E você, encararia uma viagem de 4 anos para pisar num planeta onde nenhum ser humano esteve, sabendo que talvez não consiga voltar? Ou acha que Marte deveria ficar só pros robôs? Comenta aí.

