Erguida em ritmo acelerado na Mongólia Interior, Kangbashi tinha avenidas largas, museus, teatros e prédios públicos antes de ter moradores suficientes para ocupar seus bairros. O distrito de Ordos foi planejado para receber até 1 milhão de pessoas, mas chegou a registrar apenas 28 mil habitantes em 2010.
Kangbashi nasceu como uma cidade pronta demais para uma população que ainda não existia. No norte da China, em uma área ligada à cidade de Ordos, o governo local ergueu avenidas largas, praças monumentais, prédios administrativos, bibliotecas, teatros e conjuntos residenciais em uma velocidade que chamou atenção fora do país.
O problema apareceu quando os guindastes foram embora e as janelas continuaram apagadas. Em 2010, a estrutura havia sido desenhada para até 1 milhão de moradores, mas o distrito tinha apenas 28 mil residentes fixos, segundo dados divulgados à época.
O apelido de “cidade fantasma” veio dessa diferença brutal entre concreto e vida cotidiana. Não faltavam prédios, mas faltavam supermercados, escolas em quantidade suficiente, hospitais, transporte mais dinâmico, comércio de rua e motivos práticos para as famílias deixarem Dongsheng, o antigo centro urbano de Ordos.
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Hoje, a história é menos simples. Kangbashi ainda está longe do plano inicial, mas deixou de ser apenas um cenário vazio. Dados recentes do governo distrital apontam 131,3 mil moradores permanentes, além de escolas, parques, repartições públicas, hotéis, áreas turísticas e novos serviços urbanos.
A riqueza do carvão abriu espaço para uma cidade inteira sair do papel em poucos anos
A origem de Kangbashi está ligada ao crescimento de Ordos no começo dos anos 2000. A região da Mongólia Interior concentra grandes reservas de carvão e gás natural, e a exploração desses recursos gerou uma onda de receita pública, valorização imobiliária e confiança política.
Como informou um estudo publicado na revista Sustainability, Ordos tinha reservas de 149,6 bilhões de toneladas de carvão, volume equivalente a cerca de um sexto das reservas chinesas, além de 700 bilhões de metros cúbicos de gás natural. Esse dinheiro ajudou a financiar a expansão urbana em uma escala rara mesmo para os padrões chineses.
O governo municipal decidiu criar a Zona de Desenvolvimento de Qingchunshan em 2000. Em 2004, a área foi rebatizada como Kangbashi, e a construção ganhou ritmo. A ideia era aliviar as limitações de espaço de Dongsheng e criar um novo centro político, cultural e administrativo para Ordos.
O plano parecia lógico no papel. Havia dinheiro, terras disponíveis, ambição pública e uma economia aquecida pelo carvão. O erro foi acreditar que infraestrutura sozinha conseguiria atrair moradores no mesmo ritmo das obras.
O distrito tinha museu, biblioteca e avenidas antes de ter uma rotina de bairro
De acordo com o China Daily, Kangbashi recebeu investimentos de 17 bilhões de yuans em seis anos para transformar uma área de dunas em uma metrópole planejada, com prédios públicos futuristas, museus, bibliotecas, teatros, praças com esculturas e edifícios residenciais. A reportagem, publicada em 2010, registrava um contraste evidente entre a escala da cidade e o número real de habitantes.

A cidade tinha aparência de capital moderna, mas ainda não funcionava como uma cidade comum. Uma professora ouvida pela reportagem relatou que, ao chegar em 2007, teve dificuldade até para encontrar onde comprar comida. O cenário ajuda a entender por que Kangbashi virou um caso estudado em urbanismo, economia e planejamento público.
A arquitetura reforçou a imagem de cidade espetacular. O Museu de Ordos, projetado pelo escritório MAD Architects, foi concluído em 2011 com uma forma metálica irregular, inspirada na paisagem árida da região. O prédio virou um dos símbolos visuais da tentativa de criar identidade cultural antes mesmo de consolidar a vida urbana ao redor.
Mas cidade não se sustenta apenas com monumentos. Sem comércio forte, serviços cotidianos e empregos próximos, muitos moradores continuaram ligados a Dongsheng. Parte dos apartamentos foi comprada como investimento, não como moradia, o que deixou bairros inteiros com aparência vazia durante a noite.
O apelido de cidade fantasma cresceu porque havia concreto demais e gente de menos
Kangbashi ficou conhecida internacionalmente porque condensava uma crítica recorrente ao modelo chinês de expansão urbana. A cidade mostrava o risco de construir grandes áreas residenciais, avenidas e prédios públicos antes de existir demanda real para ocupá-los.
O The China Story Project, ligado à Australian National University, descreveu Kangbashi como uma das “cidades fantasmas” mais ricas da China. O texto aponta que muitos moradores e funcionários públicos continuavam morando no antigo centro e apenas se deslocavam para trabalhar, porque o novo distrito ainda carecia de lojas, conveniências e serviços consolidados.
Essa lacuna deu força às imagens de ruas largas quase sem carros, praças vazias e torres residenciais com poucas luzes acesas. Para quem olhava de fora, Kangbashi parecia uma cidade abandonada. Para quem morava ali, a realidade era mais gradual, com famílias tentando transformar um projeto estatal em lugar de vida cotidiana.
Pesquisadores da área urbana também alertam que o rótulo de “cidade fantasma” pode simplificar demais o caso. O problema não era ausência total de moradores, mas subocupação, especulação imobiliária e um descompasso entre planejamento, mercado e necessidades reais da população.
Escolas, repartições e serviços ajudaram a acender as janelas da nova cidade
A recuperação de Kangbashi não veio de um único projeto. Ela avançou aos poucos, com a transferência de repartições públicas, abertura de escolas, expansão de serviços médicos e incentivos à compra de imóveis. A estratégia foi criar razões concretas para as famílias ficarem, e não apenas visitar ou trabalhar durante o dia.
O governo local também investiu em educação como ferramenta de atração. Escolas melhores levaram pais a considerar a mudança para o distrito, principalmente famílias de servidores, professores e trabalhadores ligados a empresas estatais. Esse tipo de ocupação cria movimento diário, abre espaço para comércio de bairro e reduz a sensação de vazio.
Segundo o governo do Distrito de Kangbashi, em página institucional atualizada em 14 de abril de 2026, a área tem 372,55 km², 4 subdistritos, 21 comunidades e 131,3 mil moradores permanentes. O mesmo órgão define Kangbashi como centro político, cultural, científico e educacional de Ordos.
O número continua distante do sonho de 1 milhão de habitantes, mas muda a leitura do caso. Kangbashi não virou uma metrópole cheia, porém também não cabe mais na imagem congelada de 2010, quando quase tudo parecia pronto e quase ninguém circulava.
Você moraria em uma cidade planejada do zero, com prédios modernos e ruas largas, mas ainda em processo de ganhar comércio, vizinhança e rotina? Deixe seu comentário e conte se Kangbashi parece um erro de planejamento, uma aposta de longo prazo ou um pouco dos dois.

