O Trojena Lake será um lago artificial de água doce construído nas montanhas de Tabuk, na Arábia Saudita, a 2.600 metros de altitude. O projeto prevê três barragens, uma ilha artificial e um contrato de 4,7 bilhões de dólares com a construtora italiana WeBuild. Mas a origem da água segue sem resposta oficial.
A Arábia Saudita está construindo o que promete ser o maior lago artificial de água doce de todo o país, em pleno deserto, a 2.600 metros de altitude nas montanhas de Tabuk. O projeto se chama Trojena Lake e faz parte do megacomplexo NEOM, o ambicioso plano saudita de diversificação econômica previsto no Vision 2030. O reservatório terá 2,8 quilômetros de comprimento, 1,5 quilômetro quadrado de superfície e será contido por três barragens entre as montanhas. No seu interior, haverá ainda uma ilha artificial para uso recreativo.
O contrato para a construção foi assinado em janeiro de 2024 com a construtora italiana WeBuild, por um valor inicial de 4,7 bilhões de dólares. Já há máquinas operando na montanha e cerca de 10 mil trabalhadores no canteiro de obras. Mas o maior mistério do projeto permanece sem resposta oficial: de onde virá a água para encher esse lago artificial de água doce. Não há rios nas proximidades e o comunicado da WeBuild não especifica a origem do recurso. Segundo o Arabian Gulf Business Insight, a água viria de uma área próxima ao Golfo de Aqaba, a mais de 200 quilômetros de distância.
Os números do Trojena Lake: o lago artificial de água doce mais ambicioso do mundo

Os dados do Trojena Lake impressionam pela escala. O lago artificial de água doce terá 2,8 quilômetros de extensão e 1,5 quilômetro quadrado de superfície, o que o tornará o maior corpo de água artificial da Arábia Saudita.
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Para conter a água entre as montanhas, o projeto utilizará três barragens: a principal terá 145 metros de altura e 475 metros de comprimento, feita de concreto HCR. A segunda barragem também será de concreto, enquanto a terceira será de rocha, com volume de 4,3 milhões de metros cúbicos.
A escavação avança ao ritmo de 90 mil metros cúbicos de rocha por semana, com uma força de trabalho de 10 mil pessoas. A logística é extrema: o canteiro de obras está no deserto, sem infraestrutura prévia, o que exige transportar absolutamente tudo até esse local remoto nas montanhas de Tabuk.
A conclusão estava prevista para o final de 2026, mas vazamentos de funcionários sauditas já indicam atrasos de três a quatro anos.
The Bow: a estrutura suspensa sobre o lago que desafia a engenharia

Como se o lago artificial de água doce não fosse ambicioso o suficiente, o projeto inclui uma estrutura chamada The Bow. Trata-se de uma construção em balanço que estenderá a superfície do lago para além da frente da barragem principal, como uma espécie de varanda suspensa com vista para a montanha.
O formato é inspirado na proa de um navio e abrigará um hotel de luxo, áreas residenciais e espaços de entretenimento.
Do ponto de vista de engenharia, o The Bow é uma estrutura de grande vão suspensa sobre um reservatório ativo, combinando engenharia estrutural complexa com exposição contínua à carga hídrica.
Construir algo assim sobre um lago artificial de água doce a 2.600 metros de altitude, em ambiente desértico, coloca o projeto num patamar de dificuldade técnica que poucos empreendimentos no mundo já enfrentaram. A combinação de altitude, clima extremo e ausência de infraestrutura local torna cada etapa da construção exponencialmente mais complexa.
O grande mistério: de onde virá a água para encher o lago no deserto
A Arábia Saudita é um dos países mais áridos do planeta. Não há rios permanentes em seu território e a precipitação anual é mínima. Construir um lago artificial de água doce nessas condições levanta uma questão óbvia: de onde vem a água?
O comunicado oficial da WeBuild não especifica a origem do recurso hídrico. Não há rios nas proximidades das montanhas de Tabuk e a única indicação concreta até agora vem do Arabian Gulf Business Insight, que aponta uma área próxima ao Golfo de Aqaba como fonte.
Se essa informação se confirmar, a água precisará ser transportada por mais de 200 quilômetros e, possivelmente, passar por um processo de dessalinização antes de abastecer o reservatório. Outras possibilidades incluem bombeamento de aquíferos subterrâneos ou captação de água de chuva, ambas com limitações severas numa região desértica.
O fato de que o projeto avança sem uma resposta pública clara sobre a origem da água é um dos pontos que mais geram ceticismo entre analistas e engenheiros que acompanham o NEOM.
O contexto do NEOM: atrasos, estouro de orçamento e incertezas sobre o futuro
O Trojena Lake não pode ser compreendido isoladamente. Ele faz parte do NEOM, o megaprojeto de desenvolvimento urbanístico que é a face mais expressiva do Vision 2030, o plano da Arábia Saudita para diversificar sua economia e reduzir a dependência do petróleo.
O NEOM pretende ser um polo de turismo, tecnologia e investimento internacional, mas nos últimos anos tem enfrentado atrasos sucessivos e estouros de orçamento. A cidade futurista anunciada originalmente terá, provavelmente, sua escala severamente reduzida.
O lago artificial de água doce nas montanhas de Tabuk é considerado um dos projetos mais avançados e tangíveis dentro do NEOM. Há contrato assinado, máquinas operando e avanços concretos no terreno. Ainda assim, os atrasos já se acumulam: a conclusão prevista para o final de 2026 foi empurrada para três ou quatro anos à frente, segundo funcionários sauditas.
A guerra na região adiciona uma camada extra de dificuldade, com ataques de drones que já atingiram Riad, bloqueio do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz e redução do investimento estrangeiro diante da instabilidade geológica no Oriente Médio.
Engenharia no limite: o que torna esse lago artificial de água doce tão difícil de construir
Além da questão da água, os desafios de engenharia do Trojena Lake são enormes. A barragem principal, com 145 metros de altura, precisa ser construída em terreno rochoso de montanha, a 2.600 metros de altitude, num ambiente onde as temperaturas variam drasticamente entre o dia e a noite.
As três barragens do projeto enfrentam condições técnicas completamente diferentes entre si. A escavação de 90 mil metros cúbicos de rocha por semana dá a dimensão da operação, que precisa manter ritmo constante apesar das condições extremas.
A construtora WeBuild, responsável pela execução, é uma das maiores da Itália e tem experiência em obras de grande porte ao redor do mundo. Mas mesmo para uma empresa desse calibre, o Trojena Lake representa um desafio sem precedentes.
Construir um lago artificial de água doce onde a água não deveria existir de forma natural é, por si só, um ato de engenharia que desafia a lógica geográfica. Se o projeto for concluído, será uma demonstração de que dinheiro e tecnologia podem remodelar até mesmo a paisagem de um deserto. Se fracassar, será mais um capítulo na lista de promessas faraônicas que a Arábia Saudita não conseguiu cumprir.
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