126 mil tambores radioativos foram enterrados na mina Asse II na Alemanha desde 1967. Infiltração de água ameaça o local e resgate pode custar € 4,7 bilhões.
A história da mina Asse II Mine, localizada no estado da Lower Saxony, tornou-se um dos casos mais controversos da gestão de resíduos nucleares na Europa. A cerca de 750 metros de profundidade, milhares de tambores contendo lixo radioativo foram depositados entre as décadas de 1960 e 1970 com a expectativa de que o sal subterrâneo fosse capaz de isolá-los do ambiente por milhões de anos. Décadas depois, porém, um problema geológico começou a alterar completamente esse cenário. Infiltrações constantes de água salgada passaram a entrar na mina, levantando preocupações sobre a estabilidade da estrutura e o risco de contato entre água e material radioativo.
Hoje, o que inicialmente foi apresentado como um experimento científico controlado transformou-se em uma operação de engenharia extremamente complexa. O governo alemão planeja retirar os resíduos nucleares do local, um projeto considerado inédito e que já tem custo estimado em cerca de € 4,7 bilhões, com início previsto para 2033. A operação pode levar décadas para ser concluída e envolve desafios técnicos sem precedentes.
Como a mina Asse II passou de exploração de sal para depósito de lixo nuclear
A mina Asse II começou a operar no início do século XX como uma exploração tradicional de sal e potássio. O complexo subterrâneo possui dezenas de quilômetros de galerias escavadas no interior de uma formação geológica salina conhecida como domo de sal, uma estrutura comum em várias regiões da Alemanha.
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Entre 1906 e 1964, a mina funcionou principalmente como instalação de mineração. Após o encerramento da exploração comercial, o local chamou a atenção de cientistas que estudavam soluções para o armazenamento geológico de resíduos nucleares.
Na época, muitos especialistas acreditavam que formações de sal profundo eram ideais para esse tipo de armazenamento, pois o sal apresenta características consideradas vantajosas:
- baixa permeabilidade à água
- capacidade de se deformar lentamente, fechando fissuras
- isolamento natural em profundidades elevadas.
Essas propriedades levaram pesquisadores e autoridades da então Alemanha Ocidental a utilizar a mina como um local experimental para armazenamento de resíduos radioativos. Em 1965, o governo alemão adquiriu a instalação e iniciou os preparativos para receber material nuclear de baixa e média atividade.
126 mil tambores radioativos enterrados entre 1967 e 1978
Entre 1967 e 1978, a mina recebeu um total de aproximadamente 126.000 recipientes de resíduos radioativos, distribuídos em diversas câmaras subterrâneas.
Esses resíduos foram colocados em profundidades que variam entre 725 e 750 metros abaixo da superfície, dentro de galerias escavadas no interior da estrutura salina. Os materiais armazenados incluem principalmente:
- equipamentos contaminados
- resíduos laboratoriais
- filtros industriais
- materiais utilizados em pesquisas nucleares
- resíduos provenientes de usinas nucleares.

Grande parte desse material veio de instalações de pesquisa e do setor nuclear alemão, que estava em expansão nas décadas de 1960 e 1970. Na época, a operação foi tratada oficialmente como um experimento científico, e não como um repositório definitivo.
Com o passar dos anos, no entanto, a quantidade de resíduos armazenados transformou a mina em um dos maiores depósitos subterrâneos de lixo nuclear da Alemanha.
Inventário posterior revelou materiais mais perigosos do que o esperado
Durante décadas, o inventário exato do que havia sido depositado na mina permaneceu incompleto. Somente anos depois investigações revelaram que parte dos recipientes continha materiais mais perigosos do que inicialmente declarado.
Em revisões realizadas no início da década de 2010, especialistas identificaram inconsistências nos registros originais. Entre as descobertas que aumentaram a preocupação pública estavam:
- estimativas revisadas da quantidade de material nuclear presente
- recipientes com conteúdo não claramente identificado
- registros incompletos sobre o tipo de resíduos armazenados.
Essas revelações contribuíram para transformar a mina Asse II em um dos maiores escândalos da política nuclear alemã.
Infiltração de água começou a ser registrada em 1988
O problema mais sério começou a surgir na década de 1980.m Em 1988, técnicos detectaram pela primeira vez infiltrações de salmoura, uma mistura de água e sal, penetrando nas galerias da mina.
Esse fenômeno ocorre quando água subterrânea encontra caminhos para penetrar na estrutura geológica que envolve o complexo. Atualmente, estima-se que cerca de 12.000 litros de água salgada entram na mina todos os dias.
Essa água é coletada e bombeada continuamente para evitar que entre em contato com os resíduos radioativos. Mesmo assim, a presença constante de infiltração levanta preocupações entre especialistas. Se a água atingir os tambores que armazenam material radioativo, existe o risco de contaminação ambiental.
Estrutura da mina também apresenta deformações geológicas
Além da infiltração de água, outro problema estrutural vem sendo monitorado há anos. Formações de sal profundo sofrem um fenômeno chamado creep geológico, no qual o sal se move lentamente sob pressão.
Esse movimento provoca deformações nas cavidades escavadas dentro da mina. Estudos geomecânicos indicam que partes da estrutura subterrânea estão se deslocando cerca de 15 centímetros por ano.
Com o tempo, isso pode levar ao colapso de túneis e câmaras onde os resíduos estão armazenados. Esse cenário aumenta ainda mais a urgência de encontrar uma solução definitiva para o local.
Alemanha decide retirar todo o lixo nuclear da mina
Diante do risco crescente, o governo alemão tomou uma decisão considerada histórica. Em vez de tentar estabilizar o local permanentemente, foi determinado que todos os resíduos radioativos devem ser retirados da mina.
A operação será conduzida pela empresa estatal Bundesgesellschaft für Endlagerung, responsável pela gestão de depósitos nucleares na Alemanha. A recuperação do material é considerada uma tarefa extremamente complexa por diversos motivos:
- muitos tambores podem estar corroídos
- parte dos resíduos foi simplesmente empilhada nas câmaras
- a estrutura da mina é instável
- o ambiente é radioativo.
Para lidar com esses desafios, o projeto prevê o uso de tecnologia robótica, equipamentos remotos e novas galerias de acesso.
Operação inédita de engenharia nuclear pode começar em 2033
O plano atual prevê que a recuperação dos resíduos comece em 2033. Antes disso, será necessário construir infraestrutura adicional para garantir a segurança da operação.
Entre as etapas planejadas estão:
- escavação de novos túneis de acesso
- construção de áreas de contenção
- instalação de sistemas de ventilação e monitoramento
- desenvolvimento de robôs capazes de operar em ambientes radioativos.
Cada tambor retirado da mina terá que ser reembalado em recipientes modernos de segurança nuclear antes de ser transportado para armazenamento temporário. Especialistas estimam que o processo completo pode levar décadas para ser concluído.
Custo estimado de € 4,7 bilhões pode aumentar
Até agora, os custos estimados para o projeto já ultrapassam € 4,7 bilhões. Esse valor inclui:
- manutenção da mina
- monitoramento da infiltração de água
- preparação da infraestrutura de recuperação
- estudos técnicos e geológicos.
No entanto, especialistas alertam que o custo total pode ser significativamente maior. Projetos nucleares complexos frequentemente enfrentam imprevistos técnicos que podem elevar os gastos ao longo do tempo.
Além disso, a operação envolve tecnologias que ainda estão sendo desenvolvidas.
O caso Asse II virou símbolo de erros na gestão de lixo nuclear
A mina Asse II tornou-se um exemplo frequentemente citado em debates sobre energia nuclear e gestão de resíduos radioativos. Durante décadas, o local foi apresentado ao público como um experimento seguro.
Posteriormente, descobriu-se que o planejamento inicial não havia considerado adequadamente diversos fatores geológicos. Entre os principais problemas apontados por especialistas estão:
- falta de estudos detalhados antes do armazenamento
- registros incompletos dos resíduos depositados
- subestimação de riscos geológicos.
Hoje, muitos especialistas consideram o caso um alerta sobre os desafios de armazenar lixo nuclear por longos períodos de tempo.
Desafio técnico sem precedentes para a engenharia nuclear
Retirar resíduos radioativos de uma mina subterrânea instável é uma tarefa extremamente complexa. Os engenheiros responsáveis pela operação terão que lidar com uma combinação de fatores difíceis:
- ambiente radioativo
- risco de colapso estrutural
- infiltração constante de água
- recipientes possivelmente degradados.
Por causa dessas condições, a operação planejada para Asse II pode se tornar uma das mais difíceis intervenções já realizadas em um depósito nuclear subterrâneo.
Um problema que pode levar décadas para ser resolvido
Mesmo que a recuperação dos resíduos comece em 2033, o processo provavelmente continuará por muitos anos. Após a retirada dos tambores, ainda será necessário:
- descontaminar áreas da mina
- selar permanentemente as galerias
- monitorar o local por décadas.
O caso da mina Asse II mostra como decisões tomadas décadas atrás podem gerar desafios tecnológicos e ambientais complexos para gerações futuras.
Hoje, a antiga mina de sal da Baixa Saxônia permanece como um dos locais mais monitorados do sistema nuclear alemão e como um lembrete de que a gestão de resíduos radioativos exige soluções que precisam funcionar não apenas por anos, mas por séculos ou até milênios.


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