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Sensores sísmicos ao redor do mundo detectaram um zumbido monótono que durou 9 dias seguidos, um sinal diferente de qualquer terremoto já registrado, e quando cientistas finalmente rastrearam a origem descobriram que uma montanha inteira havia desmoronado dentro de um fiorde na Groenlândia

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 15/05/2026 às 15:29
Atualizado em 15/05/2026 às 15:32
Sensores sísmicos detectaram um zumbido global de 9 dias até cientistas descobrirem que uma montanha desabou em um fiorde na Groenlândia.
Sensores sísmicos detectaram um zumbido global de 9 dias até cientistas descobrirem que uma montanha desabou em um fiorde na Groenlândia.
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O fenômeno sísmico incomum intrigou pesquisadores globais durante dias até revelar um gigantesco deslizamento de montanha na Groenlândia, capaz de gerar vibrações contínuas nunca observadas anteriormente pela ciência moderna.

Em 16 de setembro de 2023, às 12h35 pelo horário universal, algo aconteceu num canto remoto do leste da Groenlândia que ninguém viu. Não havia testemunhas. Não havia câmeras. Não havia vilarejo nas proximidades. O que havia era um pico de montanha chamado Hvide Støvhorn que se erguia 1.200 metros acima de um fiorde estreito e gelado — o Fiorde Dickson, encaixado entre paredes de rocha a 200 quilômetros do oceano aberto.

E naquela manhã, o topo dessa montanha simplesmente caiu. Segundo a revista Science, a Smithsonian Magazine, a Live Science e a UCL News, 25 milhões de metros cúbicos de rocha e gelo — o equivalente ao volume de 25 edifícios Empire State — despencaram sobre uma geleira, deslizaram como uma avalanche mista de pedra e gelo e mergulharam no fiorde. O que aconteceu nos 9 dias seguintes não tem precedente na história da sismologia.

O sinal que ninguém reconheceu

Menos de uma hora depois do impacto, estações sismológicas na Antártida — do outro lado do planeta — registraram um sinal estranho. Não era o padrão de um terremoto. Terremotos produzem ondas complexas, com múltiplas frequências que sobem e descem em poucos minutos. Esse sinal era diferente: uma única frequência, 10,88 milihertz, repetindo a cada 92 segundos. Monótono. Constante. Como um sino que alguém bateu uma vez e deixou vibrando.

O sismólogo Stephen Hicks, um dos autores do estudo publicado na Science, descreveu a reação da comunidade científica ao New Scientist: “Ficamos tipo, ‘uau, esse sinal ainda está vindo. Isso é completamente diferente de um terremoto.'” O sinal não parou em minutos. Não parou em horas. Continuou por 9 dias consecutivos, registrado em estações sismológicas ao redor do mundo inteiro. E ninguém fazia ideia do que era.

A montanha que perdeu o chão

O Fiorde Dickson fica numa região tão remota que quase ninguém vai lá — exceto, ocasionalmente, navios de cruzeiro turístico que percorrem os fiordes da Groenlândia oriental. O pico Hvide Støvhorn era sustentado na base por uma geleira que preenchia um canal lateral do fiorde. Durante décadas, o aquecimento global foi afinando essa geleira. O gelo que funcionava como contraforte — segurando a montanha no lugar — ficou fino demais.

Em 16 de setembro, o suporte cedeu. Um bloco de rocha metamórfica de 150 metros de espessura, 480 metros de largura e 600 metros de comprimento se desprendeu do topo da montanha. A massa atingiu a geleira abaixo, incorporou gelo à avalanche e mergulhou no fiorde a uma velocidade de pico de 42 metros por segundo — mais de 150 km/h. O volume total do deslizamento foi de 25 milhões de metros cúbicos. O impacto com a água gerou uma coluna de respingo que subiu 200 metros no ar.

Uma onda de 200 metros sem saída

O tsunami inicial atingiu 200 metros de altura perto do ponto de impacto — uma das ondas mais altas registradas na história recente. Ao longo de um trecho de 10 quilômetros do fiorde, a altura média de espraiamento foi de 60 metros. Marcas na rocha e na vegetação confirmaram a devastação: tudo até 60 metros acima do nível da água foi varrido.

Mas o fiorde é estreito. As paredes são de rocha sólida. E o canal se estende por dezenas de quilômetros antes de se abrir para o sistema de fiordes mais amplo. A onda não tinha para onde ir. Bateu numa parede, voltou, bateu na outra, voltou de novo. O formato arredondado do fundo do fiorde — revelado por dados batimétricos da Marinha Dinamarquesa — reduziu a fricção, impedindo que a onda perdesse energia normalmente. A água ficou oscilando de um lado para o outro como água num balde que alguém chacoalhou — um fenômeno chamado seiche.

9 dias vibrando como um sino

A seiche no Fiorde Dickson durou 9 dias. A cada 92 segundos, a massa de água completava um ciclo de ida e volta entre as paredes do fiorde. Cada oscilação transferia energia para a crosta terrestre. Cada transferência gerava uma onda sísmica que se propagava pelo planeta. O resultado foi um sinal contínuo, monótono, de frequência única — detectável a 5 mil quilômetros de distância.

É a primeira vez na história que o movimento de água oscilando num fiorde foi registrado como vibração sísmica ao redor do mundo. “Esta é a primeira vez que água se movendo foi registrada como vibrações através da crosta terrestre, viajando pelo mundo e durando vários dias”, disse o pesquisador da UCL envolvido no estudo. A Terra estava literalmente vibrando porque uma poça de água — relativa ao tamanho do planeta — não parava de balançar.

A equipe que montou o quebra-cabeça

O sinal era tão estranho que nenhum grupo de pesquisa isolado conseguia explicá-lo. Uma equipe interdisciplinar de 68 cientistas de 40 instituições em 15 países se reuniu para investigar. Sismólogos, glaciologistas, oceanógrafos, geólogos, especialistas em tsunamis e modeladores numéricos trabalharam juntos — um esforço científico raro pela escala e pela urgência.

“Quando embarcamos nessa aventura científica, todo mundo estava confuso e ninguém tinha a menor ideia do que causou esse sinal”, disse Kristian Svennevig, geólogo do Serviço Geológico da Dinamarca e Groenlândia e autor principal do estudo. “Tudo que sabíamos era que estava de alguma forma associado ao deslizamento de terra.” A investigação usou imagens de satélite, vídeos de drone, dados sísmicos regionais e globais, batimetria de alta resolução e simulações numéricas de tsunami. O estudo foi publicado na Science em setembro de 2024.

O que a onda destruiu

A 70 quilômetros do ponto de impacto, ondas de 4 metros atingiram a estação de pesquisa de Ella Ø — uma pequena ilha usada por cientistas que estudam o Ártico. A base foi danificada. Sítios culturais e arqueológicos ao longo do sistema de fiordes foram destruídos. Marcas de espraiamento de até 100 metros de altura foram encontradas a quilômetros de distância do deslizamento original.

O fiorde é rota de navios de cruzeiro turístico. Se um navio estivesse no Fiorde Dickson no momento do colapso, teria sido atingido por uma parede de água de dezenas de metros. Os pesquisadores notaram esse risco explicitamente no estudo. A Groenlândia já teve um precedente trágico: em 2017, uma avalanche no Fiorde de Karrat gerou um tsunami que inundou o vilarejo de Nuugaatsiaq e matou quatro pessoas. O evento do Dickson foi maior — mas aconteceu num lugar onde não havia ninguém.

A geleira que segurava a montanha

O deslizamento não foi aleatório. O colapso foi causado pelo que os geólogos chamam de “desbotamento glacial” — quando uma geleira que sustenta a base de uma encosta derrete e remove o suporte estrutural. É como puxar o alicerce de um edifício: a parede acima, sem nada para segurá-la, desaba.

Imagens de satélite mostram que a geleira no canal lateral do Fiorde Dickson vinha recuando há anos. O aquecimento do Ártico — que avança duas a quatro vezes mais rápido que a média global — acelerou o processo. O estudo concluiu que a mudança climática foi o gatilho último do deslizamento. Sem o derretimento da geleira, a montanha provavelmente ainda estaria intacta. O mega-tsunami de Dickson é, na raiz, um evento climático.

A Groenlândia está ficando instável

O evento de Dickson não é isolado. A Groenlândia está perdendo gelo a uma taxa que se acelera a cada década. Geleiras recuam, permafrost descongela, encostas rochosas perdem suporte. Os cientistas alertam que deslizamentos massivos — e os tsunamis que eles geram — vão se tornar mais frequentes à medida que o aquecimento continua.

Na Groenlândia ocidental, tsunamis causados por deslizamentos já mataram pessoas e destruíram comunidades. Na costa leste, mega-tsunamis com ondas acima de 100 metros já atingiram a Europa em eventos pré-históricos. O estudo do Dickson mostrou que esses eventos podem gerar sinais sísmicos detectáveis globalmente — o que significa que a sismologia pode funcionar como sistema de alerta precoce para tsunamis em fiordes remotos onde não há testemunhas.

A conexão entre atmosfera, gelo, água e rocha

O estudo publicado na Science destacou algo que raramente aparece em artigos científicos: a interconexão entre quatro sistemas terrestres num único evento. A mudança climática na atmosfera derreteu gelo na criosfera. O derretimento desestabilizou rocha na litosfera. A rocha caiu na água da hidrosfera. A água oscilando gerou vibrações na crosta que percorreram o planeta inteiro.

“Nosso estudo destaca incrivelmente as interconexões intricadas entre mudança climática na atmosfera, desestabilização de gelo glacial na criosfera, movimentos de corpos de água na hidrosfera e a crosta sólida da Terra na litosfera”, disse o pesquisador da UCL. Um único evento conectou quatro esferas do sistema terrestre de uma forma que nunca havia sido documentada antes. E tudo começou porque uma geleira ficou fina demais para segurar uma montanha.

O fiorde que funcionou como caixa de ressonância

O Fiorde Dickson tem cerca de 20 quilômetros de comprimento, largura variando entre 1 e 3 quilômetros e profundidade média de 540 metros. Essas dimensões são fundamentais para entender por que a onda durou 9 dias em vez de se dissipar em horas.

Simulações numéricas feitas pela equipe do GFZ — Centro Alemão de Pesquisa em Geociências — mostraram que o formato do fiorde criou condições quase perfeitas para uma onda estacionária: as paredes paralelas de rocha refletiam a onda com mínima perda de energia, e o fundo arredondado reduzia o atrito que normalmente freia a oscilação.

O fiorde funcionou como uma caixa de ressonância natural — um instrumento geológico involuntário que amplificou e sustentou a vibração por mais de uma semana. A pesquisadora Angela Carrillo-Ponce, do GFZ, observou que sem a análise sísmica, a existência da seiche no fiorde jamais teria sido conhecida.

“Se não achássemos outra explicação, teríamos ido com monstro marinho”

Stephen Hicks, o sismólogo que ajudou a decifrar o sinal, resumiu a experiência com humor britânico ao Quanta Magazine: “Se não tivéssemos encontrado outra explicação, teríamos ido com monstro marinho ou filhotes de dragão.” A piada esconde a verdade: durante meses, o sinal foi genuinamente inexplicável. Uma frequência única, durando 9 dias, sem paralelo na história da sismologia. A resposta — uma montanha caindo num fiorde e gerando uma onda presa — era tão improvável que precisou de 68 cientistas de 15 países para ser confirmada.

O evento do Fiorde Dickson é ao mesmo tempo uma história de detetive científico e um aviso. O detetive: como um sinal misterioso levou dezenas de pesquisadores a rastrear uma montanha que caiu num canto da Groenlândia onde ninguém estava olhando. O aviso: à medida que o Ártico aquece, mais montanhas vão perder suas geleiras de suporte, mais encostas vão desabar, mais fiordes vão gerar ondas gigantes. E da próxima vez, pode haver um navio de cruzeiro no caminho.

O planeta que responde quando algo cai

A Terra vibrou por 9 dias porque 25 milhões de metros cúbicos de rocha caíram num fiorde estreito e a água não conseguiu parar de balançar. O sinal viajou da Groenlândia à Antártida em menos de uma hora. Foi registrado em todos os continentes. E durante mais de uma semana, sismólogos olharam para seus monitores sem entender o que estavam vendo.

A lição do Fiorde Dickson não é sobre um deslizamento de terra. É sobre o que acontece quando um planeta conectado — onde atmosfera, gelo, água e rocha se influenciam mutuamente — começa a sentir os efeitos de um aquecimento que não para. Uma geleira derrete, uma montanha cai, uma onda ricocheteia, e o planeta inteiro vibra. Ninguém ouviu. Mas os sensores ouviram. E o que eles registraram foi o som de um mundo que está mudando mais rápido do que a ciência consegue acompanhar.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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