Limpeza iniciada em 2025 expôs passagens, cisternas e canais hidráulicos sob o monumento de Istambul, revelando uma infraestrutura modificada durante séculos
Uma operação de limpeza no subsolo da Hagia Sophia, também conhecida como Santa Sofia, revelou estruturas subterrâneas que estavam bloqueadas por terra, lama e entulho. Entre os achados estão um túnel já liberado ao longo de aproximadamente 160 metros e uma área atravessada por sete condutos de água construídos em épocas diferentes.
Os trabalhos começaram no início de fevereiro de 2025, sob o antigo átrio do monumento, pátio monumental cuja maior parte desapareceu ao longo dos séculos. À medida que os materiais acumulados eram retirados, as equipes conseguiram alcançar passagens, abóbadas e conexões que não apareciam completamente nos levantamentos anteriores.
Os resultados foram detalhados pelo arquiteto Hasan Fırat Diker, integrante do comitê científico da Hagia Sophia, em um estudo publicado on-line em 16 de março de 2026 na revista científica Open Archaeology. A pesquisa reúne dados das escavações e da limpeza, além de medições feitas com equipamentos de digitalização a laser.
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O conjunto não deve ser interpretado simplesmente como uma rede de “passagens secretas”. As evidências indicam que parte das estruturas tinha funções relacionadas à drenagem, distribuição de água, sustentação de construções e adaptação do terreno, oferecendo novas pistas sobre a organização urbana da antiga Constantinopla.
Túnel de 160 metros estava preenchido por uma espessa camada de lama

Uma das principais descobertas foi denominada pelos pesquisadores de Estrutura 4. O túnel possui cerca de 1,5 metro de largura e 2 metros de altura, com o piso assentado sobre a rocha natural e uma inclinação aproximada de dois graus no sentido nordeste-sudoeste.
Antes da limpeza, o espaço estava preenchido por uma camada de lama que chegava a aproximadamente 1,5 metro. Em setembro de 2025, cerca de 160 metros da estrutura já haviam sido liberados, mas os trabalhos precisaram ser interrompidos nas duas extremidades devido a desabamentos que impediam o avanço com segurança.
O artigo científico informa que a Estrutura 4 está em um nível inferior às construções associadas ao átrio da atual Hagia Sophia. Essa posição levou os especialistas a considerar que ela pode ser anterior ao edifício inaugurado no século VI durante o governo do imperador Justiniano I.
A passagem também apresenta uma inclinação compatível com o escoamento de água da chuva. Por isso, a interpretação mais cautelosa é que se tratava de uma grande obra de infraestrutura subterrânea, e não necessariamente de um corredor destinado à circulação cotidiana de pessoas.
Estrutura pode ter sustentado uma antiga rua de Constantinopla
A posição do túnel coincide com vestígios de uma antiga via encontrados durante escavações realizadas no século XX. Isso fortaleceu uma hipótese segundo a qual a Estrutura 4 funcionava como base e sistema de drenagem de uma rua importante que atravessava aquela parte da cidade.

Essa possível via, chamada de Rua E em estudos arqueológicos, teria passado diante da Hagia Sophia e da Hagia Irene, seguindo em direção à região da antiga acrópole e de Sarayburnu, na entrada do estreito de Bósforo. O trajeto também poderia ter continuado na direção da atual Mesquita da Pequena Santa Sofia.
A correspondência entre a orientação da rua e a do túnel é considerada relevante, mas a ligação completa ainda não foi demonstrada por escavações. Os bloqueios nas extremidades impedem saber até onde a estrutura continua e se existem outros trechos preservados fora do perímetro da Hagia Sophia.
Portanto, ainda não é possível afirmar que o túnel de 160 metros atravessava toda Constantinopla. O estudo indica que uma investigação arqueológica em escala urbana poderia revelar prolongamentos, mas apresenta essa possibilidade como uma hipótese que precisa ser confirmada.
Sete condutos mostram como a rede de água foi ampliada durante séculos
Outra descoberta importante ocorreu na chamada Estrutura 1, onde foram identificados sete condutos distintos de água. Eles seguem em diferentes direções, incluindo nordeste, sudoeste e noroeste, e não parecem ter sido construídos todos ao mesmo tempo.
Algumas tubulações de terracota estavam integradas à construção original. Outras linhas foram acrescentadas posteriormente, atravessando paredes e usando percursos diferentes, provavelmente porque os sistemas mais antigos já não conseguiam atender ao aumento da demanda.
As diferenças entre os diâmetros, os materiais e as técnicas de instalação indicam sucessivas reformas. Para os pesquisadores, o subsolo preservou etapas de transformação que podem ir do período bizantino aos períodos otomano e republicano, chegando possivelmente aos séculos XIX e XX.
A concentração de linhas hidráulicas sugere que o átrio da Hagia Sophia não tinha apenas uma função religiosa ou cerimonial. Por estar em uma área protegida e central, sua infraestrutura pode ter ajudado a distribuir água para construções localizadas nas proximidades.
Isso não significa que os sete condutos percorressem toda Constantinopla. A possibilidade de um eixo urbano mais longo está relacionada principalmente à antiga rua situada sobre a Estrutura 4, enquanto os condutos documentados formavam uma rede hidráulica complexa no entorno imediato do monumento.
Sete linhas de túneis formam um conjunto maior sob o monumento
Em 27 de fevereiro de 2026, o ministro da Cultura e Turismo da Turquia, Mehmet Nuri Ersoy, apresentou informações atualizadas sobre a restauração. Segundo o anúncio divulgado após a visita técnica, as equipes documentaram sete linhas de túneis com centenas de metros de extensão na área do jardim oeste e da fachada norte.
Esse dado é diferente dos sete condutos encontrados na Estrutura 1. Os túneis representam as passagens e os espaços subterrâneos do conjunto, enquanto os condutos correspondem às linhas usadas para transportar ou distribuir água dentro de parte dessa infraestrutura.
As autoridades informaram que 1.068 toneladas de terra e materiais de preenchimento foram retiradas dos túneis durante os trabalhos. Em outro complexo subterrâneo, identificado como um hipogeu ou estrutura funerária, foram removidas mais 102 toneladas.
O hipogeu possui um corredor central e câmaras laterais organizadas de maneira simétrica. Estudos anteriores o situam no século IV, o que significa que ele pode ser mais antigo que a atual Hagia Sophia, construída entre os anos 532 e 537.
Descobertas mostram construções de períodos diferentes
A análise das paredes, dos tijolos, das juntas de argamassa e dos tipos de abóbada revelou que as estruturas subterrâneas não pertencem a uma única fase. Algumas parecem contemporâneas à reconstrução promovida por Justiniano, enquanto outras foram acrescentadas ou modificadas posteriormente.
As Estruturas 1, 2 e parte da Estrutura 6 podem ter sido planejadas junto com a Hagia Sophia do século VI. Já as Estruturas 3 e 5 apresentam plantas irregulares e conexões abertas à força em paredes mais antigas, sinais de que provavelmente surgiram em reformas posteriores.
O material retirado do subsolo contém principalmente fragmentos de tijolos e cerâmicas, além de uma quantidade menor de objetos de metal, pedra e osso. Até o momento, o maior valor científico do trabalho está na própria arquitetura revelada, que permite compreender como o local foi ampliado e adaptado durante aproximadamente 1.500 anos.
Restauração busca proteger a Hagia Sophia contra terremotos
A descoberta ocorre durante uma das mais amplas campanhas de conservação realizadas no monumento. Além da limpeza subterrânea, o projeto inclui análise de materiais, levantamentos com radar, modelagem digital e reforço de áreas vulneráveis da cúpula, das fachadas e dos minaretes.
A necessidade de proteção é especialmente importante porque Istambul está situada em uma região de elevada atividade sísmica. Em abril de 2025, um terremoto de magnitude 6,2 atingiu a região do Mar de Mármara e reforçou as preocupações sobre a resistência dos grandes monumentos históricos da cidade.
A Hagia Sophia faz parte das Áreas Históricas de Istambul, conjunto incluído na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 1985. O local foi catedral cristã, mesquita otomana, museu e voltou a funcionar como mesquita em 2020, acumulando elementos arquitetônicos e religiosos de diferentes períodos.
Compreender as galerias, os canais e as fundações é fundamental antes de qualquer intervenção estrutural. Um túnel bloqueado, uma abóbada danificada ou a circulação inadequada de água podem contribuir para infiltrações, umidade e perda de estabilidade.
Abertura das passagens ao público ainda depende de segurança
No início de 2025, integrantes do comitê científico afirmaram ao jornal Hürriyet Daily News que parte das estruturas poderia ser preparada para receber visitantes. Naquele momento, o projeto de limpeza era estimado em cerca de um ano e incluía túneis, abóbadas e o complexo funerário subterrâneo.
Entretanto, ainda não existe uma data oficial para a abertura dessas áreas. Desabamentos, pouca ventilação, espaços estreitos e a necessidade de reforçar as abóbadas tornam qualquer visitação dependente de estudos técnicos, rotas de emergência e medidas de conservação.

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