Fenômeno conhecido como tsunami de gelo chama atenção de cientistas por envolver vento, correntes e mudanças no gelo marinho em regiões costeiras do Ártico e de outros ambientes frios.
O avanço repentino de grandes massas de gelo sobre áreas costeiras, conhecido em inglês como ice shove e chamado popularmente de “tsunami de gelo”, ocorre quando vento, correntes e variações de temperatura empurram o gelo acumulado na água em direção à terra.
No Ártico, povos Iñupiat usam o termo ivu para descrever eventos em que o gelo marinho é pressionado contra a costa, formando paredes capazes de atingir praias, estradas e construções.
Embora o apelido ajude a explicar o impacto visual, especialistas tratam o fenômeno de forma diferente de um tsunami tradicional.
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Não há, nesse caso, uma onda de água causada por terremoto ou deslocamento brusco no fundo do mar.
O que se move é uma massa de gelo quebrado, compactado ou empilhado, impulsionada pela combinação entre vento forte, correntes e gelo disponível na superfície.
O fenômeno pode ocorrer em lagos, rios e mares costeiros submetidos a congelamento sazonal.
Nas regiões árticas, porém, ele recebe mais atenção porque se combina a mudanças no gelo marinho, à erosão costeira e à presença de comunidades que dependem diretamente da estabilidade do ambiente congelado para transporte, caça, proteção contra ondas e manutenção de estruturas próximas à linha d’água.
Como uma parede de gelo avança sobre a costa
O ice shove se forma quando uma camada de gelo deixa de ficar presa ou estável na superfície da água.
A partir daí, ventos persistentes ou correntes conseguem deslocar esse material em direção à margem.
Ao encontrar a terra, os blocos não se dissipam como uma onda comum: eles se acumulam, se sobrepõem e podem avançar sobre a faixa costeira.
A definição usada pelo Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos associa o ice shove ao empurrão de gelo para a costa provocado por vento, correntes e mudanças de temperatura.
Essa descrição diferencia o evento de outros fenômenos de inverno, como nevascas, congelamento de chuva ou simples acúmulo de gelo parado em margens e praias.
Em áreas costeiras do Alasca, o ivu se relaciona à dinâmica do gelo marinho fixo à costa, conhecido como shorefast ice.
Quando essa camada permanece espessa e contínua, ela pode reduzir a exposição da costa a ondas e tempestades.
Quando se rompe, afina ou se desloca, a proteção natural diminui e o litoral fica mais sujeito à ação direta do vento, do mar e de blocos de gelo em movimento.
O que o aquecimento muda nesse processo
A relação entre o fenômeno e o aquecimento do planeta exige precisão.
Não há base segura para afirmar que todo episódio de ice shove seja causado diretamente pelo calor.
O evento já existia antes do aquecimento acelerado atual e faz parte da dinâmica de ambientes frios.
O que os dados indicam, segundo órgãos científicos, é uma transformação nas condições que influenciam o risco costeiro no Ártico.
A extensão do gelo marinho diminuiu nas últimas décadas, e a região perdeu parte importante do gelo mais antigo e espesso.
Com mais gelo fino, jovem ou fragmentado, as massas congeladas podem responder de maneira diferente à ação de ventos e tempestades.
A Universidade do Alasca Fairbanks aponta que comunidades costeiras do estado enfrentam períodos mais longos de vulnerabilidade a tempestades devido à rápida perda de gelo marinho.
Sem a mesma cobertura protetora em parte do ano, ondas e ventos conseguem atuar por mais tempo sobre áreas antes protegidas por gelo compacto.
A NOAA, agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, registrou em 2025 que a extensão máxima anual do gelo marinho do Ártico foi a menor em 47 anos de monitoramento por satélite.
O dado não prova, isoladamente, aumento global de ice shoves, mas reforça o contexto de mudança rápida no ambiente onde o fenômeno ocorre.
Por que o gelo fragmentado aumenta a preocupação
Quando o gelo é espesso e está preso à costa, sua função pode ser semelhante à de uma barreira natural contra ondas.
Em outro cenário, com gelo mais fino, quebrado ou livre para se mover, ventos fortes têm mais facilidade para deslocar placas e blocos em direção à margem.
A intensidade do impacto depende de fatores locais, como direção do vento, relevo costeiro, profundidade da água e volume de gelo disponível.
Pesquisas sobre eventos de ice push no Alasca mostram que o deslocamento de gelo pode empurrar detritos para áreas elevadas e causar erosão em trechos de costa.
Em um caso analisado no noroeste do estado, pesquisadores registraram material levado até 6,2 metros acima do nível médio da maré alta e erosão líquida em cerca de 3,5 quilômetros de litoral.
O risco para construções não depende apenas da altura visível da parede de gelo.
A massa acumulada pode exercer pressão suficiente para danificar estruturas leves, bloquear acessos, atingir depósitos, cercas e equipamentos, além de dificultar deslocamentos em comunidades remotas.
Em áreas isoladas, a perda de uma construção ou de uma rota pode afetar transporte, armazenamento de suprimentos e atividades de subsistência.
Registros de ice shove fora do Ártico também mostram que o fenômeno não se limita ao Alasca.
Em regiões de lagos congelados, como no Canadá e no norte dos Estados Unidos, ventos fortes já empurraram gelo sobre margens ocupadas por casas e vias.
A diferença, no caso ártico, está na combinação entre isolamento, dependência do gelo marinho e mudanças ambientais observadas nas últimas décadas.
Utqiagvik e o monitoramento do gelo no norte do Alasca
Utqiagvik, no extremo norte do Alasca, aparece com frequência em estudos e observações sobre o gelo marinho por estar às margens do Oceano Ártico e em uma das áreas habitadas mais setentrionais dos Estados Unidos.
A cidade, antes conhecida como Barrow, é usada como ponto estratégico para acompanhar mudanças no clima, no gelo e nas condições costeiras.
Pesquisadores da Universidade do Alasca Fairbanks mantêm projetos voltados à observação do gelo marinho e aos impactos das mudanças ambientais sobre comunidades do estado.
Esse acompanhamento combina dados científicos, imagens de satélite, medições de campo e conhecimento local de moradores indígenas, que observam o comportamento do gelo há gerações.
A previsão de um avanço de gelo ainda apresenta limitações.
Para estimar o risco, equipes precisam avaliar vento, temperatura, correntes, estado da camada congelada e formato da costa.
Mesmo com satélites e modelos meteorológicos, a rapidez de alguns eventos dificulta a antecipação precisa do ponto de impacto e da intensidade do deslocamento.
Medidas de redução de risco têm limites
A contenção física de uma massa de gelo em movimento é difícil, especialmente quando o volume acumulado é grande.
Muros baixos, cercas e barreiras simples podem não resistir à pressão dos blocos, dependendo das condições locais.
Por isso, especialistas em risco costeiro costumam dar prioridade ao planejamento do uso do solo, ao monitoramento e à localização segura de estruturas.
Casas afastadas da linha d’água, construções em áreas mais elevadas e rotas de evacuação reduzem a exposição.
Em comunidades isoladas, no entanto, mudanças desse tipo envolvem custos altos, limitações logísticas e vínculos culturais e históricos com áreas ocupadas há muito tempo.
O ice shove também não é o único risco associado ao litoral ártico.
A perda de gelo marinho, o degelo do permafrost e a erosão costeira atuam de forma combinada em várias regiões do Alasca.
Quando o solo congelado perde estabilidade, fundações, estradas, tubulações e pistas de pouso podem ser afetadas, o que amplia os desafios de adaptação para moradores e autoridades locais.
As imagens de paredes de gelo avançando sobre a terra chamam atenção pelo efeito visual, mas o fenômeno também ajuda a mostrar como mudanças no gelo marinho podem alterar riscos em comunidades costeiras.

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