Silmara era professora de educação física e trocou a cidade pela Serra da Mantiqueira ao lado do marido, Marinaldo. No Sítio Serra Dourada, a 1.550 metros de altitude em Delfim Moreira (MG), a mulher e a família produzem orgânicos, recebem turistas e servem café colonial. O canal Diário da Roça registrou a rotina.
No Sítio Serra Dourada, encravado na Serra da Mantiqueira a cerca de 1.550 metros de altitude, uma mulher chamada Silmara reconstruiu a vida longe do asfalto. Professora de educação física, ela trocou a cidade pela roça ao lado do marido, Marinaldo, empresário, num recomeço que os dois planejaram juntos. Nenhum dos dois havia morado no campo antes: tinham, no máximo, um canteirinho de manjericão e hortelã na varanda.
A propriedade fica em Delfim Moreira, no sul de Minas, numa região que o casal descreve como um pedacinho do céu. A decisão foi radical: largar tudo para plantar e viver mais em contato com a natureza. O que a reportagem do canal Diário da Roça mostra é como esse sonho virou trabalho de verdade, com lavoura, hospedagem e muito esforço diário.
Como uma professora virou produtora rural na Mantiqueira

A origem da história está no Sul. Silmara nasceu em Curitiba, Marinaldo é de Santa Catarina, e os dois se conheceram em Cascavel, no Paraná, onde casaram. Depois de quase dez anos e três filhos, resolveram procurar um sítio, e a busca não foi rápida.
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Ele limpava um hospital de dia e estudava no ônibus, com 1,3 mil bilhetes de revisão feitos à mão e um cursinho de R$ 19,90 por mês, o faxineiro Bruno, de 28 anos, transformou o trajeto do trabalho em sala de aula e acaba de se formar médico pela UFSC
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Apaixonado por natureza, um casal fez do campo o seu lar e começa cada dia de trabalho no recanto que chama de morada: entre galinhas, patos e uma horta que virou campo de batalha contra as pragas, os dois documentam a rotina simples que sempre sonharam e provam que dá para trocar o barulho urbano pela paz do verde
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Cego desde os 16 anos, ele vai cruzar sozinho os 14 mil km do maior oceano do mundo num veleiro, já teve o barco afundado por uma baleia-azul e ficou 11 horas à deriva, mas voltou ao mar e agora se prepara para a travessia mais ousada da vida, guiado pelo calor do sol no rosto
O detalhe mais curioso é o da compra. Marinaldo olhou 33 sítios e comprou o 34º sem que a esposa tivesse visto. Silmara estava com um compromisso de fim de ano e ele fechou negócio sozinho. Segundo ela, quando o marido entrou naquele terreno, já soube que era ali. A demora total até encontrar o lugar foi de nove meses, e o nome do sítio já existia antes mesmo da propriedade.
A casinha de pau a pique que começou tudo
Quando o casal chegou, quase nada existia na área. A única construção era uma casinha de pau a pique, feita de esterco, palha e barro amassados sobre uma estrutura de bambu, técnica que faz parte da história de Minas e da região.
Foi ali que eles se instalaram no início. Durante cerca de um ano e meio, a casinha serviu de base, guardou as ferramentas e até um fogareiro para o café. O casal chegou a dormir no local nos fins de semana, embora nunca tenha morado ali de fato. Hoje a construção precisa de nova reforma, e Silmara conta, entre risadas, que já prometeu doce de leite ao único senhor da região que sabe fazer esse tipo de trabalho, mas ele ainda não apareceu.
A escolha pelo orgânico e a vantagem do terreno abandonado
A vontade de plantar sem veneno veio desde o começo, e o terreno ajudou. O antigo proprietário usava a área apenas para cuidar de animais, e a terra ficou sem cultivo por sete anos. Isso facilitou a certificação para plantio orgânico logo na mudança.
A filosofia que a mulher defende é direta: a gente é o que come. Silmara faz questão de dizer que incentivar o consumo de alimentos sem agrotóxico é o que o casal mais gosta de fazer, e que nem tudo precisa ser oficialmente orgânico, porque existem hoje várias formas de produzir sem químicos. O ponto central, para ela, é pensar no que se coloca no prato.
O morango que dá o ano inteiro e o trabalho que ninguém vê
O carro-chefe da produção é o morango, cultivado praticamente o ano todo. Mas Silmara é honesta sobre o esforço que a fruta exige, e confessa que não imaginava tanto trabalho. O canteiro precisa de trator, plástico protetor e um ritual diário que assusta.
O detalhe que dá dimensão é o número. Na época em que tinham 25 mil mudas, era preciso abrir a cobertura toda manhã, para o sol, e fechar toda noite, para proteger do frio. Hoje são cerca de 3 mil mudas. Além do morango, a lavoura tem tomate, alface, milho, cenoura, beterraba, feijão, abóbora, maçã, pêssego e até hortaliças não convencionais, as chamadas pancs, como folha peixinho e ora-pro-nóbis. Quem cuida do plantio é Thiago, descrito como gerente de operação, com o casal ajudando a plantar e colher.
A hospedagem que não estava no plano
Receber turistas nunca foi a intenção. Silmara é clara: quando vieram, só queriam plantar e produzir orgânicos. Mas viver apenas de orgânico no Brasil, segundo ela, não é fácil.
A virada veio pela curiosidade dos clientes. Amigos passaram a aparecer nos fins de semana, os compradores das cestas quiseram conhecer de onde vinha a comida, e a hospedagem surgiu daí. Hoje o chalé que seria dos filhos virou espaço para hóspedes, mas o atendimento acontece só no fim de semana, porque durante a semana o trabalho na lavoura consome o casal. Some-se a isso o café colonial servido uma vez por mês e a venda de doce de leite, pão de queijo e vinagre de maçã orgânico, e o complemento de renda se explica.
O que a natureza ensinou
Perguntada sobre o que mais a encanta na roça, Silmara se emociona. A resposta não tem a ver com dinheiro nem com colheita, e sim com ritmo. Ela se descreve como alguém que era muito acelerado, que queria tudo para já, e diz que a natureza ensinou a esperar.
A reflexão que ela oferece é desarmante. Perto da natureza, segundo ela, a gente adquire o tamanho que a gente é de verdade, e a gente é pequeno nesse planeta. Marinaldo também se emociona ao lembrar das dificuldades que enfrentaram, entre elas seis meses sem a caminhonete de entrega, período em que desciam a serra de trator, com lona, para não parar de trabalhar. Foi numa dessas fases que uma amiga cliente, a Clara, emprestou a própria Hilux por um mês, gesto que Silmara guarda com carinho.
A história de Silmara e Marinaldo não é a de uma pessoa sozinha vencendo a natureza, é a de um casal que largou cidade, profissão e conforto para recomeçar do zero a 1.550 metros de altitude, e que hoje divide o trabalho com um gerente de plantio e a ajuda das filhas ao longo dos anos. Deu certo, mas com muito suor, sol forte e madrugada de morango.
Agora queremos ouvir você. Se você pudesse, largaria a cidade para viver da roça como essa mulher e o marido fizeram, ou o trabalho pesado do campo te assusta mais do que encanta? E quem já mora ou já morou na roça, conta aqui embaixo o que é mais difícil e o que compensa. A gente lê tudo.

