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Cego desde os 16 anos, ele vai cruzar sozinho os 14 mil km do maior oceano do mundo num veleiro, já teve o barco afundado por uma baleia-azul e ficou 11 horas à deriva, mas voltou ao mar e agora se prepara para a travessia mais ousada da vida, guiado pelo calor do sol no rosto

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 15/07/2026 às 00:06 Atualizado em 15/07/2026 às 00:11
Ele vai cruzar sozinho os 14 mil km do maior oceano do mundo num veleiro. imagem: G1
Ele vai cruzar sozinho os 14 mil km do maior oceano do mundo num veleiro. imagem: G1
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Aos 59 anos, o japonês Hiro Iwamoto, cego desde a adolescência, se prepara para cruzar sozinho o Oceano Pacífico, entre San Diego e o Japão. Ele já teve o barco afundado por uma baleia-azul e ficou 11 horas à deriva mas voltou ao mar e não pensa em parar.

Para a maioria das pessoas, olhar o mar é uma experiência guiada pelos olhos. Para o japonês Hiro Iwamoto, de 59 anos, navegar depende de tudo, menos da visão. Cego desde a adolescência, ele se prepara para um dos maiores desafios de sua vida: cruzar sozinho o Oceano Pacífico, numa travessia de cerca de 14 mil quilômetros entre San Diego, na Califórnia, e o Japão. A história foi contada pelo Fantástico, da TV Globo.

O que parece impossível para muitos é, para ele, o lugar onde se sente mais livre. Foi no mar, e não em terra firme, que Hiro descobriu que não precisava enxergar para encontrar o próprio rumo. Ao longo dos anos, transformou a perda da visão em combustível para desafios cada vez maiores e agora se aproxima do mais ousado de todos.

Cego desde os 16 anos, mas livre no meio do oceano

Ele vai cruzar sozinho os 14 mil km do maior oceano do mundo num veleiro.
imagem: G1
Ele vai cruzar sozinho os 14 mil km do maior oceano do mundo num veleiro.
imagem: G1

A trajetória de Hiro tem um ponto de virada precoce e doloroso. Ele perdeu a visão completamente aos 16 anos, e os médicos nunca conseguiram explicar a causa da cegueira. De uma hora para outra, um adolescente teve de reaprender a viver em um mundo que, para ele, havia escurecido por completo.

No início, aceitar a nova realidade foi extremamente difícil. Aquele foi um dos períodos mais sombrios de sua vida, marcado pela dor de encarar uma condição sem resposta médica e sem prazo para melhorar. A cegueira, naquele momento, parecia um muro intransponível.

Mas foi justamente dessa escuridão que nasceu uma nova forma de enxergar o mundo. Com o tempo, Hiro deixou de ver a cegueira como o fim e passou a tratá-la como um ponto de partida a semente de uma história que ninguém, nem ele mesmo, imaginava que fosse possível.

O sonho que mudou a forma de encarar a vida

Ele vai cruzar sozinho os 14 mil km do maior oceano do mundo num veleiro.
imagem: G1
Ele vai cruzar sozinho os 14 mil km do maior oceano do mundo num veleiro.
imagem: G1

A virada teve um gatilho inusitado: um sonho. Segundo Hiro, ele sonhou com um tio que dizia existir um propósito para a sua cegueira inspirar outras pessoas por meio dos desafios que ele enfrentaria ao longo da vida. Ao acordar, decidiu que transformaria essa mensagem em realidade.

O primeiro passo foi pequeno, mas simbólico. Hiro aprendeu a sair de casa sozinho usando uma bengala, reconquistando aos poucos uma autonomia que a perda da visão parecia ter levado embora. Cada saída era, ao mesmo tempo, um treino e uma declaração de independência.

Depois vieram desafios muito maiores. Ele chegou a escalar a montanha mais alta do Japão e, no topo, enquanto um guia descrevia o nascer do sol, desconhecidos se aproximaram para dizer que ele os inspirava. Foi ali que Hiro passou a acreditar que a mensagem do sonho realmente fazia sentido.

A descoberta do mar em 2002

O reencontro de Hiro com um grande propósito veio da água. Em 2002, incentivado pela família, ele começou a aprender a velejar e foi nesse contato com o mar que encontrou uma sensação de liberdade que a terra firme nunca havia lhe oferecido.

No barco, as regras eram outras. Longe das ruas, das calçadas e dos obstáculos urbanos, o navegador cego percebeu que podia se orientar por sentidos que a maioria das pessoas sequer usa para se localizar. O vento, o calor e o movimento das ondas viraram instrumentos de navegação.

Foi dessa liberdade que brotou uma ideia ousada. “Comecei a pensar: por que não tentar cruzar o maior oceano do mundo?”, relembra Hiro. A semente da grande travessia estava plantada faltava apenas coragem para colocá-la em prática.

2013: a primeira travessia e o choque com a baleia-azul

Travessia entre os Estados Unidos e o Japão
Travessia entre os Estados Unidos e o Japão
Imagem: G1

O sonho ganhou forma poucos anos depois. Em 2013, ao lado do apresentador japonês Jiro Shinbo, Hiro iniciou sua primeira travessia entre os Estados Unidos e o Japão, disposto a provar que a cegueira não seria um impedimento para atravessar o Pacífico.

Mas o oceano reservava uma surpresa dramática. No sétimo dia de viagem, o veleiro colidiu com uma baleia-azul, o maior animal do planeta. O impacto abriu uma grande rachadura na embarcação, que começou a afundar em pleno alto-mar, longe de qualquer socorro imediato.

De repente, o sonho virou luta pela sobrevivência. Com o barco comprometido, os dois navegadores se viram à mercê do mar, sem saber quanto tempo levaria até que alguém percebesse o desaparecimento e viesse em seu resgate.

11 horas à deriva até o resgate da Marinha

Hiro e Jiro permaneceram cerca de 11 horas à deriva
Hiro e Jiro permaneceram cerca de 11 horas à deriva
imagem: G1

A espera foi longa e angustiante. Hiro e Jiro permaneceram cerca de 11 horas à deriva até serem resgatados pela Marinha japonesa, num intervalo em que cada minuto deve ter parecido interminável em meio à imensidão do Pacífico.

Fisicamente, os dois tiveram sorte. Apesar do naufrágio, Hiro escapou sem ferimentos graves — mas as marcas mais profundas, segundo ele, não foram no corpo. O verdadeiro estrago aconteceu por dentro, no ânimo de quem tinha depositado tanto naquele sonho.

O episódio poderia ter encerrado ali a história do navegador cego. Muita gente esperava que ele nunca mais voltasse ao mar depois de uma experiência tão traumática. O que ninguém previa é que aquele naufrágio seria apenas um capítulo, e não o fim.

As críticas e a difícil reconstrução

A pressão que veio depois foi quase tão dura quanto o acidente. “Fisicamente fiquei bem, mas mentalmente estava destruído”, admite Hiro, ao lembrar do período em que precisou reconstruir a confiança abalada pelo naufrágio.

As redes sociais não ajudaram. “Muitas pessoas diziam que meu sonho era estúpido e que o lugar mais seguro para mim era ficar em casa”, conta o navegador, relatando o peso das mensagens que questionavam a sua capacidade justamente por ele ser cego.

Ainda assim, ele se recusou a aceitar o veredito dos outros. Em vez de guardar o veleiro para sempre, Hiro escolheu encarar o medo e o julgamento alheio e começou, silenciosamente, a se preparar para tentar de novo aquilo que quase o havia matado.

2019: a volta ao mar e a travessia concluída

A revanche com o oceano veio seis anos após o naufrágio. Em 2019, Hiro voltou ao mar e refez o mesmo percurso, desta vez acompanhado do amigo Doug Smith, decidido a transformar o trauma em conquista.

E, dessa vez, o Pacífico o deixou passar. A dupla concluiu a travessia entre os Estados Unidos e o Japão em 55 dias, quase dois meses de navegação contínua enfrentando ventos, ondas e o cansaço de uma rotina exaustiva em alto-mar.

A chegada teve gosto de recomeço. Depois de ter o barco afundado por uma baleia e de ser chamado de louco nas redes, o navegador cego provou, na prática, que era capaz e plantou ali a ambição de ir ainda mais longe.

Como um navegador cego se orienta em alto-mar

A grande pergunta que ronda a história de Hiro é simples: como alguém que não enxerga consegue cruzar um oceano? A resposta está em um conjunto de estratégias afiadas ao longo dos anos. Durante o dia, ele sente a posição do sol no rosto para identificar a direção, repetindo o processo também pouco antes do pôr do sol.

A tecnologia complementa os sentidos. Hiro utiliza uma bússola com comando de voz e um aplicativo adaptado, desenvolvido especialmente para ele, que informa dados essenciais da navegação, como a velocidade do vento, traduzindo em áudio aquilo que a visão não alcança.

Esse aplicativo carrega, inclusive, uma marca afetiva. Ele recebeu o nome de Lina, a filha de Hiro — um detalhe que revela como, para o navegador cego, a travessia não é só um desafio técnico, mas também uma história profundamente pessoal.

Fevereiro de 2027: a travessia mais ousada, agora sozinho

Agora, Hiro se prepara para o capítulo mais arriscado de todos. Em fevereiro de 2027, ele pretende repetir a travessia do Pacífico, mas completamente sozinho, sem nenhum companheiro a bordo para dividir as decisões e os perigos da viagem.

O tamanho do desafio é assustador. Serão cerca de 14 mil quilômetros enfrentando tempestades, ventos fortes e situações inesperadas em alto-mar, tudo isso dependendo apenas do próprio preparo físico, da resistência emocional e dos sentidos treinados ao longo de mais de duas décadas.

Navegar sozinho significa não ter para quem pedir ajuda diante do imprevisto. Cada manobra, cada ajuste de vela e cada noite em claro estarão inteiramente nas mãos do navegador cego, que aposta na experiência acumulada para transformar o impossível em rota.

“O barco é mais seguro para mim do que a terra”

Para entender por que Hiro insiste, é preciso ouvir como ele descreve a relação com o mar. “O sol está lá. Eu não vejo, mas sinto o calor. Para velejar, você não precisa da visão”, afirma o navegador, resumindo a lógica que inverte a ideia comum de vulnerabilidade.

No mar, ele diz, a dependência dos outros desaparece. “O barco é mais seguro para mim do que a terra. Em terra, preciso de um guia. No barco, não”, explica Hiro, para quem o oceano é, paradoxalmente, o ambiente onde se sente mais autônomo e no controle.

Essa inversão é o que dá sentido a toda a trajetória. Enquanto o mundo enxerga a cegueira como uma limitação, ele a transformou em uma forma diferente de estar no mundo e no mar encontrou o palco perfeito para mostrar isso.

A coragem que se escolhe apesar do medo

video: G1

Questionado sobre o que o motiva a seguir enfrentando desafios, Hiro resume a filosofia que guia sua vida. “As pessoas dizem que não posso fazer isso porque sou cego ou velho demais. É fácil encontrar uma razão para não fazer. Por isso é tão importante continuar se desafiando”, afirma.

A frase seguinte poderia estar em qualquer manual de superação, mas ganha outro peso vinda de quem já naufragou no meio do Pacífico. “Coragem não é a ausência do medo. É a escolha de seguir em frente, apesar dele”, conclui o navegador.

É com essa convicção que Hiro Iwamoto encara a contagem regressiva para 2027. Mais do que cruzar um oceano, ele parece querer provar que os limites, muitas vezes, estão mais na cabeça dos outros do que na realidade de quem decide, de fato, tentar.

E você, o que faria no lugar dele?

De um adolescente que perdeu a visão sem explicação a um homem prestes a cruzar sozinho o maior oceano do planeta, a história do navegador cego Hiro Iwamoto é um lembrete de que coragem e propósito podem ir muito além dos olhos.

E você, teria coragem de encarar o mar depois de um naufrágio? O que a trajetória desse navegador cego desperta em você? Conte nos comentários e marque aquela pessoa que precisa ouvir essa história para não desistir dos próprios sonhos.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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