Em 2025, Marfrig e BRF se fundiram — a fusão que criou a MBRF em 2025 que criou uma das maiores empresas de proteína animal do planeta — o MBRF — uma das maiores empresas de proteína animal do planeta. Menos de um ano depois, a gigante brasileira deu uma resposta contundente sobre o que pensa do futuro da carne: investiu US$ 70 milhões (R$ 348 milhões) numa única planta industrial no Uruguai. O resultado é uma fábrica que agora produz 500 mil hambúrgueres por dia, domina 70% das prateleiras de supermercados uruguaios pela marca Sadia e responde por 30% de todas as exportações de carne bovina do país. Enquanto parte do mundo debate se deveria comer menos carne, a MBRF Uruguai simplesmente decidiu produzir mais — muito mais.
A expansão foi oficializada com a inauguração da nova estrutura produtiva em Tacuarembó, no norte do Uruguai, onde a empresa opera há aproximadamente 20 anos. A cerimônia reuniu executivos da companhia e autoridades locais num momento considerado estratégico pela cúpula da MBRF: o mesmo período em que tensões comerciais globais pressionam as cadeias de suprimento de proteína animal e países como China, EUA e Japão disputam acesso garantido a fornecedores confiáveis fora das zonas de instabilidade.
“O Uruguai é um mercado estratégico para a companhia, reconhecido pela qualidade da produção”, disse Miguel Gularte, CEO da MBRF, na ocasião. A declaração não é protocolar — ela traduz uma aposta de longo prazo num país que, apesar de ter apenas 3,4 milhões de habitantes, exporta carne para mais de 100 nações e mantém padrões sanitários aceitos pelos mercados mais exigentes do mundo.
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O momento da expansão não é casual. A fusão Marfrig-BRF precisava mostrar ao mercado que era capaz de gerar sinergias concretas — não apenas no papel. A unidade de Tacuarembó entrega exatamente isso: crescimento mensurável de capacidade, novos empregos e consolidação de posição de mercado em território estratégico, tudo ao mesmo tempo.
O que R$ 348 milhões compraram em Tacuarembó
O investimento não foi para construir uma fábrica do zero — foi para transformar uma planta já operacional numa das mais avançadas da América Latina. Os R$ 348 milhões financiaram uma expansão completa de capacidade produtiva, infraestrutura de frio e sustentabilidade.
O principal resultado: a produção de hambúrgueres vai de 200 para 900 toneladas mensais — crescimento de 350%. Em volume diário, isso se traduz em aproximadamente meio milhão de hambúrgueres saindo da planta a cada 24 horas. Para colocar em perspectiva: com esse ritmo de produção, a unidade de Tacuarembó poderia abastecer toda a população do Rio de Janeiro com um hambúrguer por dia.
- Hambúrgueres: de 200 para 900 toneladas/mês (+350%) — ~500 mil unidades por dia
- Abate diário: de 900 para 1.400 animais (+55%)
- Câmaras de pré-resfriamento: capacidade ampliada de 1.800 para 2.800 animais
- Novo túnel de congelamento: 21.000 caixas de capacidade
- Farinha de sangue: 100 toneladas/mês de subproduto aproveitado
- Empregos novos: 570 diretos, total de 2.270 trabalhadores
Marcos Molina, chairman da MBRF, resumiu a lógica da expansão: “Esse modelo industrial nos permite operar com maior escala, eficiência, segurança e padronização.” Na linguagem da indústria de proteína, isso significa margens mais altas, menor custo unitário e capacidade de competir globalmente com contratos de longo prazo.
A capacidade de abate cresceu de 900 para 1.400 animais por dia, alta de cerca de 55%. As câmaras de pré-resfriamento foram ampliadas de 1.800 para 2.800 animais, e um novo túnel de congelamento com capacidade para 21.000 caixas foi instalado. A planta agora também produz 100 toneladas mensais de farinha de sangue, aproveitando subprodutos que antes eram descartados ou aproveitados de forma menos eficiente.
Em termos de eficiência industrial, a escala importa de forma não linear. Dobrar a produção não significa dobrar os custos — significa distribuir custos fixos de refrigeração, logística e mão de obra especializada por um volume muito maior de produto. É essa aritmética que torna os grandes frigoríficos industriais quase impossíveis de contestar por concorrentes menores.

MBRF Uruguai: 30% das exportações de carne do país e 70% do varejo com Sadia
A presença da MBRF Uruguai no país vai muito além de uma fábrica. A companhia opera há aproximadamente duas décadas no mercado uruguaio e consolidou uma posição difícil de contestar: controla cerca de 30% de todas as exportações de carne bovina do Uruguai — um país que é, proporcionalmente ao seu tamanho, um dos maiores exportadores de carne do mundo.
No varejo doméstico, a marca Sadia — que integra o portfólio da MBRF desde a fusão com a BRF — detém 70% de participação de mercado nas prateleiras dos supermercados uruguaios. É uma dominância raramente vista em categorias de proteína em qualquer país do mundo. Para um consumidor em Montevidéu ou Rivera, a probabilidade de colocar um produto Sadia no carrinho é maior do que a de qualquer alternativa.
Os mercados de exportação da planta de Tacuarembó incluem Estados Unidos, China, Japão, Coreia do Sul e Europa — exatamente o grupo de países que mais disputou acesso garantido a proteína animal nos últimos três anos. O Uruguai tem acordos sanitários bilaterais com todos esses mercados, o que torna a planta da MBRF um ativo geopoliticamente valioso num mundo de cadeias de suprimento cada vez mais regionalizadas.
Vale lembrar que o Brasil também intensificou suas exportações de carne bovina para esses mesmos destinos. O Brasil exportou 372 mil toneladas de carne bovina para a China em apenas dois meses — um ritmo que mostra como a demanda asiática por proteína sul-americana está em alta estrutural. A MBRF, com operações no Brasil e no Uruguai, captura essa demanda pelos dois lados.
A posição do Uruguai no mapa global da carne também é estratégica por outro motivo: o país nunca registrou casos de febre aftosa há décadas, mantém rastreabilidade individual de todos os bovinos desde o nascimento e tem condições climáticas que permitem criação extensiva em pasto nativo — um atributo que mercados premium pagam cada vez mais para obter. De acordo com o Instituto Nacional de Carnes do Uruguai (INAC), o país exporta carne para mais de 100 destinos, com foco crescente em cortes de maior valor agregado para EUA e Europa.
A presença de 20 anos da empresa no Uruguai também não é trivial. Construir relacionamento com fornecedores locais de gado, obter certificações sanitárias para todos os mercados de destino e treinar mão de obra especializada leva tempo. Concorrentes que quisessem replicar a posição da MBRF Uruguai hoje precisariam de pelo menos uma década — e capital para sustentar a operação durante esse período sem retorno garantido.

Energia renovável e o argumento ESG que justifica a escala
A expansão da MBRF em Tacuarembó inclui componentes ambientais que respondem diretamente às pressões ESG do setor de proteína animal — e que, não por acaso, também reduzem custos operacionais no longo prazo.
A planta passou a contar com turbinas eólicas que respondem por aproximadamente 10% do consumo energético da unidade. Num setor que usa grandes volumes de energia para refrigeração industrial, ter 10% da demanda coberta por fontes renováveis próprias é tanto um argumento para relatórios de sustentabilidade quanto uma proteção parcial contra volatilidade tarifária. O Uruguai já tem cerca de 98% da sua matriz elétrica baseada em renováveis — o que torna a operação na região inerentemente mais limpa do que equivalentes em outros países.
Sistemas de tratamento de efluentes e aproveitamento de subprodutos — como a farinha de sangue já mencionada — completam o perfil ambiental da expansão. A MBRF consegue apresentar um caso em que crescimento de escala e redução de impacto ambiental relativo caminham juntos — argumento cada vez mais necessário para exportadores de proteína animal que precisam passar por auditorias de compradores europeus com metas de descarbonização da cadeia de fornecimento.
Para o Brasil, essa operação no Uruguai não é apenas um investimento estrangeiro de uma empresa nacional. É uma demonstração de como a indústria de proteína brasileira — mesmo sob pressão regulatória e reputacional — continua expandindo sua pegada global com operações que competem pelos padrões mais exigentes do comércio internacional.
O contexto geopolítico também favorece a estratégia. Com o acordo Mercosul-União Europeia avançando nas negociações, exportadores de proteína do Uruguai e do Brasil ganham acesso privilegiado a um mercado de 450 milhões de consumidores com alta renda e disposição para pagar por carne rastreada e com certificação ambiental. A planta de Tacuarembó, com suas turbinas eólicas e sistemas de reaproveitamento, está posicionada exatamente para atender esses compradores.
570 novos empregos: o que a MBRF Uruguai representa para Tacuarembó
O impacto da expansão da MBRF Uruguai no mercado de trabalho local é imediato e mensurável. A unidade de Tacuarembó vai criar 570 novos empregos diretos, elevando o total de trabalhadores da planta para aproximadamente 2.270 pessoas.
Em Tacuarembó, cidade com cerca de 90 mil habitantes no interior do Uruguai, uma empresa que emprega 2.270 pessoas numa única planta industrial é um dos maiores empregadores da região. O multiplicador de empregos indiretos — fornecedores, transporte, serviços locais — tende a ser expressivo em economias regionais menos diversificadas, onde cada emprego industrial gera entre 2 e 4 postos adicionais na economia local.
O anúncio dos novos postos de trabalho foi recebido com destaque pelas autoridades locais e pelo governo uruguaio, que vê na atração de investimentos industriais de grande escala uma das poucas alavancas disponíveis para reter população e renda em departamentos do interior competindo com a gravitação econômica de Montevidéu.
Para a MBRF, manter e ampliar operações no Uruguai — em vez de concentrar toda a expansão no Brasil — também tem uma lógica regulatória. O ambiente de negócios uruguaio é consistentemente classificado como um dos mais estáveis da América Latina, com baixa corrupção, contratos respeitados e câmbio relativamente previsível. Características que, na língua dos investidores, se traduzem em prêmio de risco menor e custo de capital mais baixo para projetos de longo prazo.

A expansão da MBRF Uruguai em Tacuarembó chega num momento em que a fusão Marfrig-BRF ainda está sendo processada pelo mercado. A combinação das duas empresas criou um grupo com escala suficiente para competir globalmente com JBS e Tyson Foods — mas também com a necessidade urgente de demonstrar sinergias operacionais que justifiquem a complexidade da integração. A planta uruguaia, com seus 350% de crescimento em hambúrgueres e 570 empregos novos, entrega exatamente o tipo de resultado concreto que o mercado esperava ver.
O Uruguai não é apenas uma extensão da operação brasileira. É, cada vez mais, um ativo estratégico independente — com acesso a mercados que valorizam rastreabilidade e padrão sanitário, inserido numa matriz energética renovável e com estabilidade regulatória que complementa as vantagens de escala do Brasil. Enquanto o mundo debate o futuro da carne no cardápio, a MBRF Uruguai já tomou sua decisão: expandir, modernizar e dominar os mercados que ainda querem proteína animal com rastreabilidade, eficiência e certificação ambiental.
