A atriz de Star Trek por trás do feito foi Nichelle Nichols, a Tenente Uhura, que em 1977 liderou uma campanha de recrutamento da NASA. Um estudo recente vai além e sugere que assistir a ficção científica prevê maior apoio à exploração espacial, embora alerte que se trata de correlação, e não de causa comprovada.
A atriz de Star Trek por trás desse feito tem nome: Nichelle Nichols, a inesquecível Tenente Uhura da série original. Em 1977, ela liderou para a NASA uma campanha de recrutamento de astronautas que durou apenas quatro meses e mudaria a história da agência. O alvo eram mulheres e integrantes de minorias, grupos quase ausentes do corpo de astronautas até então.
O resultado foi imediato e expressivo. As candidaturas saltaram de cerca de 1.600 para 8.400, e a leva de astronautas selecionada logo depois incluiu a primeira mulher americana e o primeiro afro-americano a irem ao espaço. Esse é o caso mais documentado por trás da ideia de que a ficção científica ajuda a sustentar o apetite por exploração espacial.
De Uhura à NASA, quem foi a atriz de Star Trek que mudou o jogo

Criada por Gene Roddenberry, Uhura era oficial de comunicações da nave Enterprise e uma das primeiras mulheres negras em um papel de destaque, e não estereotipado, na televisão americana.
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Em 1968, Nichols protagonizou com William Shatner um dos primeiros beijos entre uma pessoa negra e uma branca na TV aberta dos Estados Unidos.
O peso desse papel quase se perdeu cedo.
Depois da primeira temporada, Nichols pensou em deixar a série para voltar à Broadway, mas foi demovida por Martin Luther King Jr., que, segundo relatos da própria atriz, a lembrou de que ela ocupava um papel inédito e mudava a forma como pessoas negras se viam na tela.
Ela ficou, e a personagem se tornou um símbolo muito além do entretenimento, o que deu autoridade à atriz de Star Trek quando ela passou a defender a diversidade na ciência.
A campanha de quatro meses que multiplicou os candidatos
Em 1975, Nichols fundou a empresa de consultoria Woman in Motion e passou a colaborar com a NASA.
Em 1977, a agência a convidou para liderar uma campanha de recrutamento de astronautas para o novo programa do ônibus espacial, voltada especialmente a mulheres e minorias.
A atriz de Star Trek estrelou um filme institucional e percorreu o país convocando candidatos qualificados.
Os números da virada estão registrados na autobiografia de Nichols, Beyond Uhura, de 1994.
Segundo ela, nos meses anteriores a NASA tinha cerca de 1.600 candidaturas, com menos de 100 de mulheres e 35 de minorias.
Ao fim de quatro meses de campanha, em junho de 1977, eram 8.400 candidaturas, incluindo 1.649 de mulheres, um aumento de quinze vezes, e cerca de mil de grupos minoritários.
Antes disso, em um discurso, ela havia desafiado a NASA a descer de sua torre de marfim, lembrando que o próximo gênio poderia ter rosto negro e ser mulher.
Os astronautas que vieram dessa virada

Entre os 35 nomes havia seis mulheres, três afro-americanos e um asiático-americano.
Dela saíram Sally Ride, a primeira mulher americana no espaço, e Guion Bluford, o primeiro afro-americano no espaço, além de Judith Resnik e Ronald McNair, que morreriam no acidente do ônibus espacial Challenger, em 1986.
Outra inspirada pela atriz de Star Trek chegaria mais tarde.
Mae Jemison, que em 1992 se tornou a primeira mulher negra no espaço, foi selecionada em 1987 e creditou abertamente a campanha de Nichols e a personagem Uhura como influências em sua carreira. Anos depois, ela própria apareceria em Star Trek: The Next Generation.
A NASA reconheceu o trabalho de Nichols com seu Prêmio de Serviço Público em 1984, e a atriz seguiu colaborando com a agência até 2015. Nichelle Nichols morreu em julho de 2022, aos 89 anos.
O que diz a ciência sobre ficção e exploração espacial
O caso de Nichols costuma ser citado como o exemplo mais concreto de uma relação mais ampla entre cultura pop e apoio à exploração espacial.
Um estudo publicado na revista científica Space Policy, em 2022, analisou três pesquisas nacionais nos Estados Unidos, de 2016, 2020 e 2021, e concluiu que assistir a ficção científica prevê maior apoio à exploração espacial, tanto pública quanto privada.
Para o noticiário de televisão e as redes sociais, os resultados foram fracos ou inconclusivos.
Os próprios autores, porém, fazem questão de separar correlação de causa.
O estudo mostra que quem consome ficção científica tende a apoiar mais a exploração do espaço, mas não prova que uma coisa cause a outra.
Sobre o efeito específico de Uhura, a personagem da atriz de Star Trek, uma pesquisa de 2013 da acadêmica Moira O’Keeffe argumentou que ela funcionou como uma representação rara e poderosa, capaz de moldar aspirações de carreira em ciência e tecnologia entre mulheres e minorias.
Séries mais recentes, como The Expanse, Star Trek: Discovery, For All Mankind e Foundation, mantêm viva essa conversa entre ficção e exploração real.
A trajetória de Nichelle Nichols mostra que entretenimento e ciência nem sempre andam em trilhos separados.
Uma atriz de Star Trek ajudou a abrir as portas da NASA para mulheres e minorias, e o efeito disso atravessou décadas, de Sally Ride a Mae Jemison.
Nas palavras da própria Nichols, a campanha mudou a cara do corpo de astronautas para sempre.
E você, imaginava que uma personagem de ficção científica tivesse tido um papel tão concreto na história da exploração espacial? Acredita que séries e filmes ainda inspiram vocações em ciência e tecnologia hoje? Deixe sua opinião nos comentários, com respeito às diferentes opiniões, e compartilhe esta matéria com quem ama ciência, espaço e boas histórias.
