A trajetória de Douglas Tompkins une negócios, conservação ambiental e disputas territoriais em áreas da América do Sul que depois passaram a integrar parques nacionais no Chile e na Argentina.
Douglas Tompkins, empresário norte-americano ligado à criação da The North Face e da Esprit, usou parte dos recursos acumulados no setor de moda e equipamentos outdoor para comprar grandes extensões de terra no Chile e na Argentina.
Segundo a Tompkins Conservation, a finalidade era restaurar ecossistemas e transferir áreas para parques nacionais administrados pelos dois países.
As compras ocorreram principalmente a partir dos anos 1990 e se concentraram em regiões da Patagônia e do nordeste argentino.
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Parte dessas propriedades foi posteriormente incorporada a unidades públicas de conservação, em acordos firmados com governos nacionais.
O processo envolveu áreas como Pumalín, Patagonia National Park, Iberá e Perito Moreno.
Douglas Tompkins e a origem dos projetos ambientais
Douglas Rainsford Tompkins nasceu em 1943, nos Estados Unidos, e morreu em 2015, após um acidente de caiaque no Lago General Carrera, na Patagônia chilena.
Antes de se dedicar à conservação ambiental, atuou no setor empresarial e ficou conhecido pela relação com duas marcas internacionais: The North Face e Esprit.
Depois de deixar o mundo dos negócios, Tompkins passou a investir em projetos ambientais na América do Sul.
A Tompkins Conservation afirma que ele deixou a carreira empresarial em 1990 para se dedicar a iniciativas de conservação, aquisição de terras, restauração de áreas degradadas e criação de parques.
Kristine McDivitt Tompkins, ex-executiva da Patagonia, passou a atuar ao lado dele nesses projetos.
Após a morte de Douglas, ela continuou à frente de iniciativas vinculadas à Tompkins Conservation, à Rewilding Chile e à Rewilding Argentina, com participação em negociações com governos e organizações ambientais.
Compra de terras na Patagônia e restauração ambiental
A Patagônia concentrou parte importante dos projetos associados a Douglas e Kristine Tompkins.
A região abriga florestas temperadas, montanhas, rios, lagos, campos, áreas glaciais e espécies ameaçadas, segundo organizações de conservação que atuam no território.
O modelo adotado por eles previa a compra de propriedades privadas, a recuperação de áreas afetadas por usos anteriores e, quando houvesse acordo com os governos, a incorporação dessas terras a parques públicos.
A Tompkins Conservation descreve essa estratégia como parte de uma política de proteção de biodiversidade e restauração ecológica.
No Chile, um dos primeiros projetos de grande visibilidade foi Pumalín.
Douglas começou a comprar terras na região no início dos anos 1990, com foco na proteção de florestas temperadas no sul do país.
O local foi transformado no Parque Nacional Pumalín Douglas Tompkins, oficializado em 28 de fevereiro de 2018, na Região de Los Lagos.
De acordo com a Rewilding Chile, o parque tem 994.332 acres, dos quais 724.854 acres foram doados pela organização.
A área inclui florestas, rios, lagos, vulcões e formações naturais associadas ao ecossistema de floresta temperada.
Acordo com o Chile ampliou parques nacionais
No Chile, a etapa mais ampla de transferência de terras ocorreu após um acordo entre a Tompkins Conservation e o governo chileno.
Em março de 2017, a então presidente Michelle Bachelet e Kristine Tompkins assinaram um compromisso para criar e ampliar parques nacionais no país.
Em janeiro de 2018, decretos formalizaram a criação de uma rede de cinco novos parques e a expansão de outros três.
Segundo a Tompkins Conservation, a iniciativa somou mais de 10 milhões de acres ao sistema chileno de parques nacionais, combinando cerca de 1 milhão de acres doados pela organização e aproximadamente 9 milhões de acres de terras federais incorporadas pelo Estado chileno.
O Patagonia National Park, também no Chile, integrou esse processo.
A Tompkins Conservation informa que o protocolo de 2017 formalizou a doação de cerca de 206.983 acres.
Essas terras foram combinadas às reservas nacionais Jeinimeni e Tamango para formar o parque.
A área que deu origem ao projeto incluía propriedades rurais usadas anteriormente para pecuária.
Segundo a organização, o trabalho envolveu restauração de campos, retirada de cercas, recuperação de habitat e ações voltadas à fauna nativa.
Doações de terras na Argentina
Na Argentina, a atuação dos Tompkins também envolveu compra, restauração e posterior doação de terras ao Estado.
Um dos casos mais citados pela organização é o dos Esteros del Iberá, na província de Corrientes, área úmida conhecida pela biodiversidade e por projetos de reintrodução de espécies.
Em 10 de novembro de 2017, a Tompkins Conservation anunciou a doação de mais de 103 mil acres ao futuro Parque Nacional Iberá, em San Nicolás, na Argentina.
A transferência foi feita por Kristine McDivitt Tompkins e descrita pela organização como a segunda grande doação destinada à ampliação do parque.
O Parque Nacional Iberá foi criado em 2018 pelo Congresso argentino, segundo a Tompkins Conservation.
A organização informa que a CLT-Argentina, hoje vinculada à Rewilding Argentina, adquiriu cerca de 370 mil acres na região dos esteros desde 1997.
Parte dessas terras foi doada ao governo nacional para a formação do parque.
Outro registro ligado à Argentina envolve o Parque Nacional Perito Moreno, na província de Santa Cruz.
A Tompkins Conservation informa que Douglas Tompkins e a Conservation Land Trust doaram cerca de 37 mil acres em 2013 para ampliar a unidade de conservação.
Questionamentos sobre soberania e controle territorial
A aquisição de grandes áreas por estrangeiros provocou questionamentos públicos no Chile e na Argentina.
Registros sobre o caso citam críticas relacionadas a soberania, controle territorial, uso de recursos naturais e impacto sobre comunidades locais.
A AIDA, organização jurídica ambiental das Américas, relata que Tompkins foi acusado, no período de maior expansão das compras, de adquirir terras a preços baixos, deslocar moradores e tentar controlar reservas de água doce.
O próprio histórico posterior do caso mostra que parte dessas acusações coexistiu com negociações formais de doação de terras aos governos nacionais.
A incorporação das propriedades a parques públicos alterou a natureza jurídica de áreas que antes estavam sob controle privado.
No Chile, a entrega formal de Pumalín e Patagonia ao Estado chileno ocorreu em 2019, dentro do acordo que havia sido firmado dois anos antes.
Na Argentina, áreas de Iberá e Perito Moreno também passaram a integrar unidades públicas de conservação.
Esse formato colocou a conservação privada em diálogo com políticas públicas.
De um lado, organizações ambientais apontam a restauração de ecossistemas e a ampliação de parques como resultados dos projetos.
De outro, as críticas registradas ao longo dos anos mostram que a compra de grandes extensões por particulares pode exigir transparência, controle estatal e participação das comunidades afetadas.
Terras privadas convertidas em parques públicos
Os projetos ligados a Douglas e Kristine Tompkins resultaram em doações de terras para Chile e Argentina e na ampliação de áreas protegidas em regiões de alta relevância ambiental.
As iniciativas envolveram compra de propriedades, restauração ecológica, negociações com governos e transferência de áreas para parques nacionais.
No Chile, Pumalín e Patagonia National Park se tornaram os casos mais diretamente associados à doação de terras pela Tompkins Conservation.
Na Argentina, Iberá e Perito Moreno aparecem entre os principais registros oficiais de transferência de áreas para conservação pública.
A trajetória de Douglas Tompkins reúne elementos empresariais, ambientais e políticos.
O empresário comprou terras em larga escala, enfrentou críticas e participou de um processo que terminou, em parte, com a incorporação dessas áreas ao patrimônio público de dois países sul-americanos.
