A maior fabricante de carros elétricos do mundo afirma ser alvo de ataques coordenados e já obteve as primeiras condenações na Justiça chinesa. Os acusados, porém, ainda respondem a processos, e um deles, com renda baixa, diz não ter como pagar as multas cobradas.
A BYD, maior fabricante de veículos eletrificados do planeta, intensificou uma ofensiva judicial contra criadores de conteúdo que, segundo a empresa, espalham informações falsas sobre seus produtos. Em comunicado divulgado em junho de 2025 pelo seu departamento jurídico, a montadora chinesa informou que processa 37 contas de influenciadores e mantém outras 126 sob monitoramento interno, sob a acusação de difundir boatos a respeito de supostas explosões de veículos e de uma alegada instabilidade financeira da companhia.
A disputa ganhou novo capítulo em maio de 2026, quando a Justiça da China proferiu a condenação de maior repercussão até agora contra um desses criadores. A BYD descreve as publicações como parte de ataques que classifica como organizados e coordenados, supostamente articulados por veículos de comunicação e agências de relações públicas não identificadas. É importante frisar que essa caracterização é a versão apresentada pela própria empresa, e que a maioria dos 37 acusados ainda responde aos processos, sem decisão definitiva.
O que a montadora alega e o que já foi decidido

O comunicado da BYD foi assinado por Li Yunfei, gerente geral do Departamento de Marca e Relações Públicas da empresa, que adotou um tom firme.
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Segundo ele, a companhia acolhe a crítica jornalística e a fiscalização pública, mas não tolera conteúdo difamatório nem acusações falsas.
Li afirmou ainda que todas as postagens e comentários considerados relevantes estão sendo preservados como prova judicial, e que as ações na Justiça terão continuidade.
Até o momento, apenas alguns casos chegaram a uma sentença, e é nesse ponto que a distinção entre acusação e condenação se torna essencial.
Em um dos processos já julgados, um usuário da rede social Weibo foi condenado por difamação após acusar a BYD de manipular influenciadores para atacar concorrentes, sendo obrigado a publicar um pedido de desculpas e a pagar 100 mil yuans, cerca de 75 mil reais na conversão aproximada.
Outros perfis foram penalizados por alegações falsas sobre segurança dos produtos, saúde financeira e explosões de veículos, segundo levantamento do site especializado Cars News China.
O caso que virou marco e as multas milionárias
A punição de maior valor recaiu sobre o autor do canal conhecido como Long Ge, voltado a conteúdo sobre carros elétricos.
Em decisão noticiada em maio de 2026, ele foi condenado a fazer um pedido público de desculpas e a pagar 2 milhões de yuans à BYD, o equivalente a cerca de 1,5 milhão de reais ou aproximadamente 293 mil euros na conversão aproximada.
O caso passou a ser tratado como um marco pela dimensão da indenização imposta a um único criador de conteúdo.
A escalada das multas gerou um efeito em cadeia entre os influenciadores processados, alguns deles sem qualquer condição financeira de arcar com os valores.
Em 4 de junho, o criador Qian Zuping, que mantinha contas nas plataformas Douyin e Bilibili, foi levado a publicar um pedido de desculpas por vídeos divulgados em 2023 e 2024, e teve seus conteúdos apagados e suas contas encerradas.
Ele alegou não ter como pagar as quantias cobradas, explicando que sua renda mensal, em torno de 250 euros, cerca de 1.477 reais, é insuficiente diante das penalidades.
Outros canais citados nas reportagens enfrentam cobranças que ultrapassam 260 mil euros, aproximadamente 1,5 milhão de reais cada, conforme as fontes do setor.
Um programa de recompensas e o peso dos influenciadores na China
Para sustentar a ofensiva, a BYD mantém um programa que oferece recompensas financeiras a quem entregar denúncias verificáveis sobre supostas campanhas difamatórias.
De acordo com o comunicado da empresa, os valores vão de 50 mil a 5 milhões de yuans, algo entre cerca de 37 mil e 3,7 milhões de reais na conversão aproximada, conforme a relevância da informação.
A iniciativa é conduzida por uma estrutura interna que a montadora criou para tratar do que chama de fraudes de notícias.
O contexto chinês ajuda a entender a intensidade dessa disputa em torno da reputação das marcas.
Na China, a imprensa automotiva especializada tem peso reduzido, e boa parte do público se informa por meio de perfis e canais de influenciadores nas redes sociais.
Essa centralidade dos criadores de conteúdo amplia tanto o alcance de uma crítica legítima quanto o impacto de uma informação falsa, o que explica a pressão e a atenção a que esses perfis estão submetidos no país.
Uma guerra de imagem que vai além da BYD

A Xiaomi, que entrou recentemente no mercado de automóveis, também acionou a Justiça contra o que considera uma campanha difamatória.
Segundo a empresa, a articulação estaria ativa desde dezembro de 2024 e teria mobilizado cerca de 10 mil contas em redes sociais para espalhar boatos e manipular o debate público, às vésperas do lançamento de um de seus modelos.
No caso da Xiaomi, autoridades chinesas abriram investigação criminal para apurar quem estaria por trás da suposta campanha.
Assim como ocorre com a BYD, trata-se de uma apuração em andamento, sem conclusão definitiva sobre os responsáveis.
O paralelo entre as duas companhias evidencia como a concorrência acirrada no setor de veículos elétricos da China extrapolou as salas de exposição e chegou aos tribunais e às redes sociais.
A cruzada judicial da BYD contra influenciadores expõe uma tensão delicada entre o combate à desinformação e o risco de inibir a crítica legítima a produtos e empresas.
De um lado, a montadora defende o direito de proteger sua reputação diante do que classifica como ataques coordenados e mentirosos.
De outro, surgem dúvidas sobre o efeito intimidador de multas milionárias aplicadas a criadores de conteúdo, especialmente os de menor renda, num país onde a fiscalização independente da imprensa é limitada.
Os processos seguem em curso, e novas decisões devem definir os contornos desse embate.
E você, como enxerga essa disputa entre a BYD e os influenciadores? Comente o que pensa sobre o limite entre informação falsa e crítica legítima a uma marca, se as multas aplicadas lhe parecem proporcionais e como esse tipo de conflito pode influenciar o mercado de carros elétricos que cresce também no Brasil. O espaço está aberto ao debate, com respeito às diferentes opiniões.

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