A menos de cinco dólares o par, o calçado asiático virou um adversário difícil de bater nas prateleiras. Mas culpar só a China seria simplista: juros altos, famílias endividadas e o tarifaço americano também pesaram. A própria entidade do setor reconhece que a crise teve mais de um vilão ao longo do ano.
Um par de sapatos chinês chegou ao Brasil em 2025 custando em média US$ 4,50, um preço quase impossível de ser acompanhado pelos fabricantes nacionais. Segundo a Abicalçados, a entidade que representa a indústria calçadista brasileira, essa concorrência ajudou a derrubar a produção nacional em 1,9%, contribuiu para o fechamento de cerca de 3 mil vagas e levou as importações ao maior volume em dez anos, num ano que o setor classificou como cheio de desafios.
Os dados constam da 11ª edição do Relatório Indústria de Calçados – Brasil 2026, divulgado no início de junho de 2026 pela Abicalçados. Antes de mais nada, é justo registrar que os números e a análise partem de uma entidade que defende os interesses dos fabricantes nacionais, e que o próprio setor reconhece que a crise teve várias causas, não apenas a concorrência chinesa, como os juros altos, o endividamento das famílias e as tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros.
O preço que a indústria nacional não consegue bater

Com um par de sapatos chinês entrando no país por cerca de US$ 4,50, os fabricantes brasileiros enfrentam uma concorrência difícil de acompanhar, especialmente nos segmentos mais sensíveis ao preço, onde o consumidor tende a priorizar o produto mais barato, independentemente da origem.
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Esse cenário ajudou a impulsionar as importações, que cresceram 20,6% e atingiram 43,2 milhões de pares, o maior volume registrado pelo país na última década.
A pressão veio principalmente da Ásia: China, Vietnã e Indonésia responderam, juntos, por 78,5% dos pares importados pelo Brasil em 2025.
E novos concorrentes despontam, com as importações vindas do Paraguai crescendo 76,1% e as das Filipinas avançando mais de 120% em valor.
Fábricas mais vazias e produção em queda
O avanço dos importados coincidiu com um momento de demanda mais fraca no país.
A produção nacional recuou para 847,5 milhões de pares, e o uso da capacidade instalada das fábricas caiu para 73%, o menor nível em três anos, o que significa, na prática, que cerca de uma em cada quatro máquinas da indústria ficou parada ao longo do ano.
Esse esfriamento tem explicações que vão além da concorrência externa.
Com as famílias mais endividadas e a renda crescendo em ritmo menor do que em 2024, muitos consumidores priorizaram bens duráveis e cortaram gastos com itens como roupas e calçados.
O varejo de tecidos, vestuário e calçados avançou apenas 1,3% em volume no ano, desempenho abaixo do comércio como um todo, o que reforça que o problema não se resume aos produtos importados.
O impacto no emprego e a força do Nordeste

A indústria calçadista encerrou 2025 com 271,4 mil empregos formais, uma queda de 1,1%, o equivalente a cerca de 3 mil vagas fechadas no país, sendo que o Rio Grande do Sul, principal polo exportador do setor, registrou a maior retração, de 5,7%, refletindo sua forte dependência das vendas ao exterior.
Por outro lado, estados mais voltados ao mercado interno tiveram desempenho melhor: Bahia e Paraná cresceram 7,1% em empregos, e a Paraíba avançou 3,3%.
Esse movimento ajudou a consolidar o Nordeste como o grande polo produtor do país, região que hoje responde por 50,5% de toda a produção nacional de calçados em pares, mostrando uma reconfiguração geográfica importante dentro da própria indústria.
O peso do tarifaço dos Estados Unidos
Se o mercado interno ficou mais disputado, o cenário externo também piorou.
Em 2025, os Estados Unidos ampliaram as tarifas sobre produtos brasileiros, atingindo o setor calçadista, e a medida provocou uma queda de aproximadamente um terço nas exportações mensais destinadas ao mercado americano em apenas quatro meses, segundo a Abicalçados.
Mesmo assim, os Estados Unidos continuaram sendo o principal destino em receita para o calçado brasileiro, com US$ 211,7 milhões em compras, ainda que 2,1% abaixo de 2024.
No total, as exportações encerraram o ano em US$ 958 milhões, queda de 1,8%.
Vale notar que, segundo o presidente-executivo da entidade, Haroldo Ferreira, a queda das exportações teve outros fatores além dos EUA, com recuos também nas vendas para países como Argentina, Chile e Espanha.
Por que culpar só a China seria simplista
É importante manter o equilíbrio na análise desse cenário complexo.
Embora o sapato chinês barato seja um fator relevante de pressão, a própria Abicalçados reconhece que 2025 foi como “dois anos em um”, com um primeiro semestre aquecido pela atividade econômica e pelas exportações, seguido de um segundo semestre marcado por desaceleração do consumo e endividamento das famílias.
Ou seja, a crise do setor resulta de uma combinação de fatores: juros elevados, consumo mais fraco, tarifaço americano e a concorrência asiática.
Vale lembrar, ainda, que os preços baixos beneficiam o consumidor de menor renda, que encontra calçados mais acessíveis, o que torna o debate mais complexo do que uma simples disputa entre “produto nacional” e “importado”.
Além disso, o governo Lula anunciou o fim do imposto sobre compras importadas de até US$ 50, medida que tende a aquecer ainda mais a entrada de produtos estrangeiros.
O que esperar de 2026
As perspectivas para o setor seguem cercadas de incertezas.
No cenário mais pessimista da Abicalçados, a produção nacional pode cair mais 1,2% em 2026, enquanto no mais otimista avançaria apenas 1,4%, com as exportações ainda pressionadas pelas tarifas americanas e pela desaceleração da economia argentina, importante parceira comercial do Brasil no setor.
Para uma indústria que movimenta cerca de R$ 40 bilhões por ano e emprega mais de 271 mil pessoas, o desafio vai além de simplesmente voltar a crescer.
A grande questão, agora, é quanto espaço os fabricantes brasileiros conseguirão preservar em um mercado cada vez mais disputado por concorrentes estrangeiros, muitos deles vendendo um par de sapatos por menos de cinco dólares, um patamar de preço que redefine as regras do jogo.
A chegada de sapatos chineses a US$ 4,50 é o símbolo de um desafio profundo enfrentado pela indústria de calçados brasileira, que viu sua produção, seu emprego e suas exportações recuarem em 2025.
Ainda assim, como reconhece a própria entidade do setor, reduzir a crise a uma “invasão chinesa” seria simplista: juros, consumo, endividamento e o tarifaço dos Estados Unidos formam um quebra-cabeça complexo.
O futuro do setor dependerá tanto de competitividade e inovação quanto de políticas que equilibrem a proteção da indústria nacional com o acesso do consumidor a produtos mais baratos.
E você, na hora de comprar um calçado, prioriza o preço ou prefere o produto nacional mesmo pagando mais? Acha que o Brasil deveria proteger mais a sua indústria ou que a concorrência beneficia o consumidor? Deixe seu comentário, conte sua opinião sobre o tema e compartilhe a matéria com quem se interessa por economia, indústria e o futuro do emprego no Brasil.

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