Com 37 milhões de habitantes, o Uzbequistão aposta numa megacidade de US$ 30 bilhões a 20 km de Tashkent, em 25.000 hectares, para abrigar mais 2,5 milhões. O plano inclui canais, 23% de áreas verdes, energia renovável com 400 MW solares e 1.200 MW hidrelétricos, e torres de 575 m.
Um país que quase ninguém consegue citar uma cidade está tentando mudar de patamar com uma megacidade de US$ 30 bilhões feita do zero, com canais inspirados em Amsterdã, energia renovável em grande escala e um arranha-céu planejado para entrar entre os mais altos do planeta.
A aposta nasce de uma virada política e econômica recente: desde 2016, o Uzbequistão abriu a economia, reformou a moeda e passou a atrair investimento estrangeiro, criando o caixa e a urgência para uma capital que comunique ao mundo uma nova fase.
Por que o Uzbequistão decidiu construir uma nova capital

O Uzbequistão fica na Ásia Central, entre Rússia, Irã, China e Oriente Médio, e foi peça importante da Rota da Seda, a rota comercial que conectou Europa e Ásia por cerca de 1.500 anos.
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Mesmo com essa história, o país passou décadas isolado, primeiro sob controle soviético e depois sob um governo autoritário que manteve a economia distante de investimento e comércio.
A partir de 2016, a estratégia mudou: o novo presidente abriu a economia, reformou a moeda e começou a receber investidores estrangeiros.
O investimento estrangeiro disparou de praticamente nada para mais de US$ 4 bilhões por ano, e o país ganhou fôlego para tentar um salto de reputação com uma megacidade de US$ 30 bilhões.
Tashkent superlotada virou o argumento central do projeto
O plano parte de um diagnóstico interno duro. Tashkent é descrita como antiga e superlotada, com densidade populacional quase dobrada desde 1991.
Todos os anos, a cidade precisou construir mais de 20.000 novos apartamentos, 40 escolas e dezenas de hospitais apenas para acompanhar a demanda.
Em 2023, Tashkent apareceu em 157º lugar entre 173 cidades em um índice de habitabilidade, apenas 16 posições acima do fim.
A ambição declarada é colocar Tashkent entre as 50 cidades mais habitáveis do mundo até 2030, e a megacidade de US$ 30 bilhões funciona como vitrine e mecanismo de alívio urbano ao mesmo tempo.
Onde a nova cidade será construída e qual será o tamanho real
A nova capital foi posicionada como uma expansão monumental. O núcleo da megacidade de US$ 30 bilhões ficará a cerca de 20 km a leste de Tashkent, em uma área de 25.000 hectares entre os rios Turk e Karasu.
Isso equivale a aproximadamente um terço do tamanho de Singapura e, na prática, quase dobra o tamanho da capital atual.
Tashkent tem hoje pouco menos de 3 milhões de habitantes, e a expansão foi planejada para abrigar mais 2,5 milhões.
A projeção é que, nos próximos 20 anos, Tashkent como um todo alcance cerca de 7,4 milhões.
É como “soltar” uma população do tamanho de Chicago em terras agrícolas vazias, segundo a comparação apresentada no próprio projeto.
Cidade de 15 minutos e Super Mahalas para reduzir dependência do carro
O plano mestre adota os princípios da chamada cidade de 15 minutos, com um desenho urbano pensado para deslocamentos curtos e vida de bairro.
A megacidade de US$ 30 bilhões será organizada em Super Mahalas, uma versão atualizada de bairros tradicionais, conhecidos por vielas labirínticas e casas em torno de pátios.
Cada Super Mahala deve ter cerca de 400 metros de largura, permitindo atravessar o bairro em aproximadamente cinco minutos a pé.
O projeto define escola a menos de 500 metros de todas as casas, e jardins de infância ainda mais perto, a 300 metros. Lojas e clínicas também entram como serviços de caminhada.
A lógica é clara: carros não poderão cortar por dentro desses bairros.
Veículos ficam nas bordas, liberando o interior para pessoas, bicicletas e circulação mais tranquila, em um conceito comparado aos “super quarteirões” de Barcelona.
Ruas com diagonais, gêmeo digital em tempo real e uma cidade monitorada
O desenho urbano também tenta evitar o efeito de “cidade em grade” que obriga deslocamentos em ângulos de 90 graus.
A proposta mantém a lógica de grade, mas corta diagonais para permitir trajetos mais diretos, reduzindo sensação de rigidez.
A camada tecnológica é um dos diferenciais mais ambiciosos: a megacidade de US$ 30 bilhões pretende operar com um gêmeo digital completo e em tempo real, uma réplica viva da cidade que se atualiza continuamente.
Cada prédio, rua e cano de água seria monitorado, com a promessa de detectar problemas cedo, como já ocorre em aplicações semelhantes citadas em Singapura para reduzir danos por enchentes.
Canais estilo Amsterdã e 23% de área verde pública
A identidade visual foi escolhida para ser memorável. Uma rede de canais atravessa toda a cidade, permitindo caminhar por parques e seguir pela água até o outro lado sem tocar uma via principal.
A comparação com Amsterdã aparece como intenção declarada, a ponto de a cidade ser chamada de “Amsterdã da Ásia Central”.
O desenho ambiental também é agressivo: cerca de 23% de toda a cidade deve ser espaço verde público, sem contar pátios privados e campi universitários, que têm exigências próprias.
Energia 100% renovável com 400 MW solares e 1.200 MW hidrelétricos
A megacidade de US$ 30 bilhões foi planejada para operar com energia 100% renovável. O pacote energético inclui 400 megawatts de painéis solares e hidrelétricas modernizadas que adicionariam 1.200 megawatts.
Além disso, o plano prevê queima de resíduos de algodão em caldeiras trigeracionais, capazes de produzir eletricidade, aquecimento e resfriamento ao mesmo tempo.
A escala regional também aparece nos cronogramas: até o fim de 2028, toda a região de Tashkent deveria ter 23 projetos de energia renovável com capacidade combinada de cerca de 2,4 gigawatts, energia limpa estimada como suficiente para abastecer aproximadamente 5 milhões de casas.
A cidade nova foi projetada para 2 milhões de pessoas, e a energia não seria apenas para ela, mas parte de uma transformação verde mais ampla, incluindo a Tashkent antiga e o entorno.
Arranha-céu de 575 metros e arquitetura assinada para virar símbolo global
O coração simbólico do projeto é vertical. As Torres Gêmeas foram projetadas para alcançar 575 metros e, quando prontas, devem figurar como o sexto edifício mais alto do mundo.
O objetivo é impossível de disfarçar: construir algo grande demais para ser ignorado.
Além das torres, há o Centro Alisher Navoy, desenhado pela Zaha Hadid Architects, com tijolos de fabricação local e sistemas de resfriamento inspirados nas tradicionais torres de vento da Ásia Central, reinterpretando técnicas antigas da Rota da Seda com engenharia moderna.
O pacote de atrações inclui ainda um investimento planejado de US$ 250 milhões em parque aquático e complexo turístico, um ponto que levanta a pergunta inevitável sobre abastecimento de água em uma região já pressionada.
O que já saiu do papel e qual é a linha do tempo
A primeira grande etapa é o Distrito 1. A aprovação do governo é prevista para junho de 2024 e cobre os primeiros 6.000 hectares, onde terras agrícolas começam a ser transformadas.
Já houve venda de lotes nos primeiros mil hectares e obras de infraestrutura estão em andamento.
A construção do metrô já começou para conectar a nova cidade às linhas existentes em Tashkent. Edifícios temporários já foram instalados para que o ministro de Energia possa operar na cidade nova, e estão sendo erguidos campi universitários completos, com dormitórios e salas de aula, com expectativa de receber estudantes a partir de 2027.
A previsão apresentada é que os 6.000 hectares iniciais sejam concluídos nos próximos 8 a 10 anos, dentro de um plano de expansão mais longo.
Emprego, juventude e a pressão social por resultados rápidos
A megacidade de US$ 30 bilhões não é apenas urbanismo, é política de sobrevivência social. O Uzbequistão enfrenta uma crise de emprego em deterioração: quase 55% dos jovens terminam a escola e depois ficam sem trabalho e sem estudo adicional.
Hoje, 90.000 graduados universitários não conseguem emprego na própria área.
Todos os anos, mais 250.000 pessoas atingem a idade ativa, um volume que a economia não tem absorvido, já que o país cria apenas cerca de 1% mais empregos por ano.
A maioria da população tem menos de 30 anos, e o projeto surge como tentativa de criar carreiras e reter talentos no país.
O ponto mais delicado: água em um país sob estresse hídrico
O risco estrutural mais sensível é o abastecimento de água. O Uzbequistão é descrito como um dos países mais afetados do mundo por estresse hídrico.
A maior parte da água já é usada na agricultura, o país não controla o próprio suprimento, e os números continuam piorando.
A projeção citada é de uma possível escassez de 15 bilhões de metros cúbicos até 2030, volume comparado a água suficiente para abastecer Nova York por nove anos.
Você acha que a megacidade de US$ 30 bilhões consegue virar realidade com canais e 23% de área verde sem agravar o estresse hídrico do Uzbequistão?

Sim, com certeza. 😃