Esperada há quase um século, a obra vai afundar módulos gigantes de concreto no canal do porto e aposentar a balsa que ainda separa as duas cidades
O primeiro túnel imerso do Brasil finalmente saiu do papel e promete encerrar uma das esperas mais longas da engenharia nacional. A ligação fixa entre Santos e Guarujá, no litoral de São Paulo, vai usar uma tecnologia inédita no país para cortar uma travessia que hoje depende de balsa e pode levar quase uma hora.
O túnel imerso vai ter 1,5 quilômetro de extensão, com 870 metros submersos sob o canal do porto, e está orçado em cerca de R$ 6 bilhões. Quando ficar pronto, a passagem entre as duas cidades cairá para poucos minutos, contra os 18 minutos médios da balsa atual, transformando a mobilidade de toda a Baixada Santista.
Uma espera de quase 100 anos
A ligação seca entre Santos e Guarujá é um sonho antigo da região. Segundo o Metrópoles, o projeto é aguardado há cerca de 100 anos, atravessando gerações de moradores que dependem da água para cruzar de um lado a outro.
-
Adeus, tijolo e cimento: isopor deixa de ser lembrado como produto frágil e vira aposta na construção civil para reduzir obras em até 40%, aliviar fundações e substituir parte da alvenaria tradicional.
-
Estádio abandonado na beira do mar, que já recebeu Gre-Nal, será demolido para virar autódromo de R$ 50 milhões em Cidreira, trocando arquibancadas tomadas por mato por uma pista inspirada na Nascar e reacendendo a pergunta sobre o destino dos antigos templos do futebol no litoral
-
Asfalto britânico pode amolecer em ondas de calor de 40°C, enquanto estradas indianas enfrentam calor implacável com betume mais duro e agregados maiores, revelando por que a engenharia feita para inverno rigoroso vira fragilidade quando o clima muda e o verão cobra uma conta inesperada
-
A ponte mais alta do mundo abriu na China e encurtou 2 horas de estrada para 2 minutos
Hoje, quem precisa ir de uma cidade à outra encara a balsa ou um desvio enorme por terra. Pela estrada, são até uma hora para vencer cerca de 40 quilômetros, segundo o governo federal. A travessia curta no mapa vira um suplício no dia a dia, e é justamente esse gargalo histórico que o túnel pretende resolver de vez.
Como funciona um túnel imerso
A grande novidade está no método construtivo, inédito no Brasil. Em vez de escavar por baixo do leito, o túnel imerso é montado com módulos de concreto pré-moldados, construídos em docas secas e transportados flutuando até o local.
Depois de posicionados, esses módulos gigantes são afundados com precisão e encaixados no fundo do canal, protegidos por camadas de areia e pedras. De acordo com a Casa Civil, a técnica é a mesma usada no túnel Fehmarnbelt, que liga Alemanha e Dinamarca e é considerado a maior obra de infraestrutura em andamento na Europa. O Brasil estreia, assim, no clube de poucos países que dominam esse tipo de travessia.
1,5 km de extensão e 870 metros debaixo d’água
Os números dão a dimensão do projeto. Conforme a Casa Civil, o túnel terá 1,5 quilômetro no total, sendo 870 metros efetivamente submersos sob o canal de navegação do porto de Santos, o mais movimentado da América Latina.
Construir uma travessia bem embaixo de um canal portuário em plena operação é um desafio à parte, porque os navios não podem parar. Por isso a opção pelo modelo imerso, que permite preparar os módulos em terra e apenas afundá-los na posição final. É engenharia pensada para não atrapalhar o porto enquanto a obra avança, um detalhe que pesou na escolha da tecnologia.
Da balsa de 18 minutos para a travessia de 2

O ganho de tempo é o que mais muda a vida de quem mora na região. Segundo a Casa Civil, a travessia pelo túnel deve cair para cerca de 2 minutos, ante os 18 minutos médios da balsa, que ainda enfrenta filas e paradas para a passagem de navios.
O Metrópoles registra que, em dias ruins, a balsa pode levar 50 minutos ou mais por causa do clima e do tráfego de embarcações. Trocar isso por uma passagem rápida e previsível é um salto enorme de produtividade. A travessia de balsa, que organiza a rotina da Baixada Santista há décadas, tem os dias contados.
R$ 6 bilhões e uma das maiores obras do Novo PAC
O porte financeiro acompanha a ambição. A Casa Civil aponta investimento estimado em R$ 6 bilhões, classificando o projeto como um dos maiores da carteira do Novo PAC custeados pelo Orçamento Geral da União.
O modelo escolhido é uma parceria público-privada, com participação dos governos federal e estadual e da iniciativa privada, em um contrato de 30 anos. Já o Metrópoles cita um lance de R$ 6,8 bilhões no leilão realizado em setembro de 2025. Dividir o custo e o risco entre Estado e iniciativa privada é o que torna uma obra desse tamanho viável, sem travar o orçamento público em uma única tacada.
Uma obra para mais de 36 mil pessoas por dia
A demanda justifica o investimento bilionário. A Casa Civil estima que o túnel deve atender mais de 36 mil usuários por dia, somando quem cruza a trabalho, a estudo ou a passeio entre as duas cidades.
Não é só carro. O projeto reserva espaço para seis faixas de tráfego, uma ciclovia, uma passagem de pedestres e até uma faixa para um futuro Veículo Leve sobre Trilhos, o VLT. Pensar a obra de infraestrutura já com transporte público e mobilidade ativa é o que diferencia um projeto moderno de uma simples ligação rodoviária.
Quem vai construir e quando fica pronto

A execução ficou com um nome de peso no setor. Segundo o Metrópoles, o leilão de setembro de 2025 foi vencido pela construtora Mota-Engil, de Portugal, que assume a missão de entregar o pioneirismo no Brasil.
O cronograma é longo, como toda obra desse porte. A previsão é de que a etapa de imersão e montagem dos módulos aconteça por volta de 2029, com conclusão prevista para o fim de 2031, quando a operação comercial deve começar. Entre o sonho de 100 anos e a inauguração, ainda faltam alguns anos de obra, mas pela primeira vez existe contrato, dinheiro e data.
Por que o túnel imerso pode virar modelo no Brasil
O impacto vai além da Baixada Santista. Por ser o primeiro do tipo no país, o túnel imerso de Santos pode servir de aprendizado para futuras travessias em regiões costeiras, onde pontes nem sempre são viáveis por causa da navegação.
Se a obra der certo, o Brasil passa a contar com uma nova ferramenta de engenharia para vencer canais, baías e rios largos sem atrapalhar o tráfego de navios. Dominar a tecnologia em uma obra é abrir a porta para muitas outras, e é por isso que o projeto é observado bem além de São Paulo.
Um século de espera perto do fim
O primeiro túnel imerso do Brasil junta tudo o que uma grande obra de infraestrutura precisa ter para empolgar: tecnologia inédita, número grande, impacto direto na vida das pessoas e o fim de uma espera centenária. Falta agora cumprir o cronograma e provar que o país sabe entregar.
Resta a pergunta que toda obra longa deixa no ar: o túnel vai mesmo ficar pronto até 2031 e aposentar a balsa de uma vez? Você trocaria a travessia de balsa por um túnel que passa por baixo dos navios do maior porto da América Latina?
