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Um mar inteiro desapareceu do mapa: o Mar de Aral, antigo quarto maior lago do planeta, perdeu mais de 90% da área em poucas décadas e deixou para trás um deserto tóxico onde navios de pesca enferrujam a mais de 100 km da água que um dia sustentou cidades inteiras

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 20/06/2026 às 21:21
Assista o vídeoMar de Aral perdeu 90% do volume após desvios para irrigação soviética, virou deserto e deixou uma das maiores tragédias ambientais da era moderna.
Mar de Aral perdeu 90% do volume após desvios para irrigação soviética
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Mar de Aral perdeu 90% do volume após desvios para irrigação soviética, virou deserto e deixou uma das maiores tragédias ambientais da era moderna.

O Mar de Aral já foi o quarto maior corpo de água interior do mundo, com cerca de 68 mil km² em 1960, entre o atual Cazaquistão e o Uzbequistão. A partir daquela década, porém, a União Soviética passou a desviar as águas dos rios Amu Darya e Syr Darya para expandir a agricultura irrigada na Ásia Central, sobretudo em áreas ligadas à produção de algodão. O resultado foi um colapso ambiental de escala histórica. Segundo a NASA, o lago perdeu 90% do volume desde 1960 e acabou fragmentado em porções menores; segundo a própria agência, em 2014 o lobo oriental do Mar de Aral do Sul desapareceu completamente.

O que antes era um imenso espelho d’água se transformou em solo exposto, poeira salina, crise sanitária e colapso econômico para cidades que dependiam da pesca.

Desvio dos rios Amu Darya e Syr Darya condenou o Mar de Aral ao encolhimento

A Britannica aponta que a principal causa do encolhimento do Mar de Aral foi o desvio, para fins de irrigação, das águas do Syr Darya, ao norte, e do Amu Darya, ao sul, que historicamente abasteciam o lago. A enciclopédia registra que, com a conversão de grandes áreas da Ásia Central em fazendas irrigadas durante o período soviético, a quantidade de água que chegava ao Aral despencou de forma drástica.

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Esse processo não foi uma oscilação natural comum em lagos endorreicos, mas uma intervenção planejada em larga escala.

Ainda de acordo com a Britannica, já nos anos 1980 os dois grandes rios praticamente secavam durante o verão antes de alcançar o lago, e a evaporação passou a superar com folga a reposição de água.

A tragédia ganhou proporções ainda mais nítidas nas imagens de satélite. A NASA registrou que, desde 1960, o Aral perdeu 90% do volume, fragmentou-se em vários corpos d’água e entrou numa espiral de retração que atingiu de forma mais severa a parte sul. Em 2024, a agência também observou que o lago havia recuado para cerca de 10% da área original, um sinal da profundidade da devastação.

Colapso do Mar de Aral destruiu a pesca e espalhou poeira tóxica sobre a região

À medida que o lago secou, a crise deixou de ser apenas hidrológica e passou a atingir toda a estrutura de vida da região. A NASA informa que as pescarias e as comunidades que dependiam delas entraram em colapso, enquanto a água remanescente ficou mais salgada e contaminada por fertilizantes e pesticidas carregados pela agricultura irrigada. A mesma fonte relata que o leito exposto do antigo lago passou a lançar para a atmosfera poeira misturada com sais e resíduos agrícolas, transformando-se em um risco à saúde pública.

Mar de Aral perdeu 90% do volume após desvios para irrigação soviética, virou deserto e deixou uma das maiores tragédias ambientais da era moderna.
mar de aral ilustração

A perda daquela enorme massa d’água também alterou o clima regional: os invernos ficaram mais frios e os verões mais quentes e secos, ampliando o impacto sobre a agricultura e sobre a vida cotidiana na Ásia Central.

Em 2024, a NASA descreveu o Aralkum como um dos desertos mais novos do mundo, formado sobre o antigo leito do Mar de Aral e com cerca de 62 mil km². A agência também destacou que a rápida aridificação passou a gerar tempestades de areia e poeira que afetam a qualidade do ar, consolidando uma nova paisagem onde antes havia água.

Muynak virou símbolo visível da catástrofe que afastou o mar da costa

A devastação do Mar de Aral pode ser lida com nitidez em antigas cidades portuárias. Em seu verbete sobre as consequências ambientais do lago, a Britannica afirma que os portos de Aral, no nordeste, e Mŭynoq, no sul, ficaram distantes da margem à medida que a água recuou, abrindo caminho para despovoamento parcial das áreas antes ligadas diretamente à pesca.

A mesma fonte registra que a rápida retração do lago destruiu virtualmente a indústria pesqueira da região. A salinidade subiu, os peixes desapareceram em massa e a economia construída em torno da pesca perdeu sustentação, deixando embarcações, estruturas portuárias e bairros inteiros sem função econômica.

Por isso, Muynak se tornou um dos retratos mais conhecidos dessa tragédia ambiental. O que era uma cidade conectada à água passou a viver diante de um horizonte seco, marcado por navios abandonados, poeira salina e uma geografia radicalmente alterada pela decisão de usar os rios que alimentavam o lago para sustentar a agricultura irrigada.

Barragem Kok-Aral mostrou que parte do Mar de Aral ainda pode reagir

Apesar da escala do desastre, o norte do lago apresentou um raro sinal de recuperação. A NASA informa que o Cazaquistão construiu uma barragem entre as partes norte e sul do Aral para tentar preservar uma porção do lago, e que a Barragem Kok-Aral, concluída em 2005, ajudou a conter a saída de água do Mar de Aral do Norte.

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O Banco Mundial, que apoiou esse esforço, relata que a restauração gradual do norte ajudou a reduzir parte dos efeitos ambientais e sociais mais severos. A instituição informou, à época, que a salinidade da água deveria cair de cerca de 23 gramas por litro para 10 gramas por litro, aproximando-se dos níveis de 1960, enquanto espécies de peixes e atividades pesqueiras começavam a reaparecer em algumas áreas.

Essa recuperação, porém, é parcial e localizada. A própria NASA ressalta que a barragem favoreceu a recuperação pesqueira no norte, mas não impediu o avanço da crise no sul, onde a retração seguiu de forma dramática.

O Mar de Aral continua sendo um alerta global sobre o que acontece quando a retirada de água para irrigação ultrapassa de forma persistente a capacidade natural de reposição de um grande lago.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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