A novidade está no método: em vez de testar só o efeito da água salgada, os pesquisadores somaram a pressão mecânica constante, e a borracha envelheceu bem mais rápido. O detalhe traiçoeiro é que ela endurece por fora parecendo firme, enquanto se deteriora por dentro, enganando as vistorias, segundo o estudo da China.
Um estudo realizado na China revelou que as juntas de borracha responsáveis por vedar os túneis submersos sob o mar podem se degradar muito mais rápido do que se imaginava. Segundo a pesquisa, quando a salinidade da água do mar e a compressão mecânica constante agem ao mesmo tempo, essas vedações chegam a perder até 67% da sua força original ao longo da vida útil, embora os pesquisadores ressaltem que as obras já existentes não correm risco imediato de falha.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade Shijiazhuang Tiedao, na China, e publicado em 2025 na revista científica Tunnelling and Underground Space Technology. Antes de qualquer alarme, é importante destacar dois pontos: trata-se de um estudo de laboratório, feito com amostras específicas e condições simuladas, e o próprio levantamento conclui que as estruturas em operação ainda estão dentro da margem de segurança. A descoberta serve, portanto, como um alerta para aprimorar a manutenção, e não como anúncio de colapso, como veremos a seguir.
O que o estudo da China descobriu de novo

Até então, a maioria dos estudos avaliava apenas como a água do mar degrada a borracha das vedações, mas os cientistas chineses somaram a esse fator a compressão mecânica constante a que as juntas ficam submetidas, e a combinação dos dois acelerou bastante o desgaste do material, revelando uma deterioração mais profunda do que os modelos anteriores previam.
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Para chegar a essa conclusão, a equipe testou amostras de juntas do tipo GINA, usadas como principal vedação em túneis submersos, retiradas de um túnel em operação na China.
As peças foram submetidas, em um equipamento desenvolvido especialmente para isso, à pressão e à água salgada de forma simultânea.
Foi assim que os pesquisadores observaram que a vedação perdia força mais rapidamente do que se estimava, num ritmo cerca de um terço mais acelerado que o previsto anteriormente.
Os números por trás do desgaste
Os dados ajudam a dimensionar o fenômeno, mas pedem contexto.
Segundo o estudo, sob as condições combinadas de salinidade e compressão, a junta perdeu 67,66% da força de vedação original ao longo do período de vida útil simulado, e sua capacidade de suportar pressão caiu de 2,32 para 1,51 megapascals, com sinais de envelhecimento químico interno surgindo em apenas 90 dias de exposição nos testes.
É fundamental entender que esses números se referem a um experimento específico, com amostras de um determinado túnel e em condições controladas de laboratório, e não a uma medição direta de todos os túneis submersos do mundo.
Ainda assim, os resultados são relevantes porque a maioria dessas estruturas segue uma lógica de projeto semelhante, o que torna o alerta útil para engenheiros e gestores de obras de infraestrutura em diferentes países.
A armadilha que pode enganar as inspeções

Segundo a pesquisa, com o envelhecimento a borracha endurece na superfície, o que pode passar uma impressão enganosa de boa conservação durante as vistorias de rotina, enquanto, por dentro, as redes que dão elasticidade ao material se deterioram e perdem a capacidade de se recuperar após a compressão.
Entre as mudanças observadas estão um aumento na rigidez e na densidade do material e uma elevação na temperatura em que ele se torna quebradiço.
Por isso, uma das principais recomendações dos pesquisadores é que as inspeções deixem de avaliar apenas a dureza externa da borracha e passem a medir sua elasticidade real, que reflete melhor o verdadeiro estado de conservação da vedação.
A borda inferior dos anéis, onde a pressão de contato é menor, foi apontada como a região mais vulnerável a vazamentos silenciosos.
Por que não é motivo para pânico
Apesar do tom de alerta, o estudo da China é claro ao afastar o risco imediato.
Os próprios pesquisadores destacam que os níveis atuais de resistência das vedações ainda se mantêm acima do limite mínimo aceitável definido pelos projetistas, o que indica que as obras existentes não correm risco iminente de colapso, mesmo com o desgaste mais acelerado do que se imaginava.
O recado central, portanto, é de prevenção, e não de medo.
A descoberta sugere que as metas de durabilidade dessas estruturas, antes tratadas como estimativas fixas, passem a funcionar como gatilhos para revisões de manutenção, antecipando reforços antes que qualquer falha se torne visível.
Trata-se de uma mudança de mentalidade na engenharia: monitorar de forma contínua e proativa, em vez de esperar o problema aparecer, garantindo a segurança dos usuários e evitando custos maiores no futuro.
A solução proposta pelos cientistas
A pesquisa não se limitou a apontar o problema, mas também ofereceu caminhos.
Os cientistas propuseram uma técnica de proteção que envolve revestir a borracha com uma camada capaz de isolar o oxigênio e retardar o envelhecimento químico do material, além de sugerir o ajuste das fórmulas dos futuros compostos para resistir melhor às tensões mecânicas extremas dos ambientes submersos.
Essas soluções, somadas a um monitoramento mais inteligente, podem aumentar a vida útil das vedações e reduzir a necessidade de reparos dispendiosos.
O estudo reforça, assim, a importância da pesquisa científica aplicada à engenharia: entender em detalhe como os materiais se comportam ao longo das décadas é o que permite construir obras cada vez mais seguras e duráveis, especialmente em ambientes tão hostis quanto o fundo do mar.
O que isso tem a ver com o Brasil
Embora o Brasil não tenha muitos túneis submersos, o tema dialoga com desafios nacionais.
O país estuda há anos projetos de travessias submersas, como a ligação seca entre Santos e Guarujá, no litoral paulista, e o conhecimento sobre a durabilidade desses materiais é essencial para qualquer obra de grande porte que venha a ser construída em ambiente marinho por aqui.
Mais amplamente, a lição sobre monitorar a degradação invisível de materiais vale para toda a infraestrutura brasileira, de pontes a barragens, em que a manutenção preventiva e a inspeção criteriosa fazem a diferença entre a segurança e o risco.
Acompanhar avanços científicos como esse ajuda o país a adotar boas práticas internacionais e a investir em obras mais seguras e longevas, protegendo tanto o patrimônio público quanto as pessoas que dependem dessas estruturas.
O estudo chinês sobre as juntas de borracha dos túneis submersos é um bom exemplo de como a ciência trabalha para antecipar problemas antes que eles se tornem perigosos.
Ao revelar que a combinação de água salgada e compressão acelera o desgaste dessas vedações, a pesquisa não anuncia um colapso iminente, mas oferece um alerta valioso para aprimorar inspeções e manutenção das grandes obras submersas pelo mundo.
No fim, é a prova de que entender o invisível, aquilo que se degrada longe dos olhos, é fundamental para manter pontes, túneis e travessias seguras por muitas décadas.
E você, já tinha parado para pensar na engenharia e nos materiais que mantêm um túnel submerso seguro debaixo do mar? O que achou dessa descoberta sobre o desgaste invisível das vedações? Deixe seu comentário, conte sua opinião sobre obras de infraestrutura e compartilhe a matéria com quem se interessa por engenharia, ciência e grandes construções.

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